*Amber Lee PoV*
Pete abre a porta do fundo do corredor e eu confesso que jamais poderia imaginar algo assim. O ambiente é espaçoso, paredes escuras forradas, provavelmente para conter o barulho. Uma bateria completa ao fundo, um pedestal com microfone no centro. Há quatro caixas amplificadoras grandes, uma em cada canto do cômodo, uma belíssima coleção de guitarras e violões dos mais variados tipos enfeitando duas paredes. Há também um suporte para teclado, o que me emociona um pouco. Atrás do microfone tem uma mesa de som enorme, onde Michael está. Apesar do seu semblante pouco amistoso, nada consegue quebrar a minha admiração por esse lugar.
Bato palminhas, completamente empolgada pelo ambiente que me cerca, e seguro Pete por um braço, que só consegue achar minha reação engraçada enquanto conversamos. Infelizmente, o dono do apartamento não tem a mesma postura, olhando para nós dois como se fosse nos estrangular. Um nó se forma no meu estômago. Na verdade, vários. Principalmente, quando Pete me abandona para colocar meu teclado no suporte e segue para assumir sua bateria. Foco na minha respiração, tentando me livrar do peso daquele par de olhos gelados me consumindo. É aterrorizante.
*Michael PoV*
Assim que entro no estúdio, eu respiro fundo. Mais um minuto daquela conversa mole e eu não responderia por mim. Vou direto para a mesa de controle principal. Não é muito sofisticada, porém ajuda a amplificar e melhorar o som dos instrumentos. Pete guia Amber Lee até aqui e a expressão dela ao entrar é de pura admiração e surpresa.
Será que ela esperava um porão empoeirado e cheio de tralhas? Eu levo minha paixão a sério!
Ela está tão animada que bate palmas, o que é fofo de uma certa forma. Contudo, o fato dela segurar o braço do Pete com empolgação é insuportável.
ㅡ Você sabe que é só um estúdio, não sabe? ㅡ Meu baterista diz, piscando para ela.
ㅡ Essa é a primeira vez que coloco os pés em um estúdio de música para ensaios. Deixe-me curtir o momento.
Ele ri como um idïota e coloca o teclado dela no apoio.
ㅡ Aposto que em dois minutos você vai querer sair correndo...
Eu trinco os dentes com o jeito brincalhão dele, até porque eu desejava ardentemente conseguir ter essa desenvoltura perto dela. Provocar o sorriso que ela dá para ele ao invés de mim. Essa frustração me corrói por dentro como ácido, porém disfarço quando ela me olha com uma expressão indecifrável.
ㅡ Claro que não. Entendam que isso para mim é como um sonho se tornando realidade. Estou nas nuvens por tocar com vocês.
Meu baterista sorri e segue para seu instrumento.
ㅡ Bem vinda, Amber Lee. Você vai ver que vamos nos divertir pra caramba.
Isso é tão cansativo... Vou ter uma conversa séria com ele depois. Para que tanto chamego com ela? Até parece que está ignorando como me sinto.
Um estalo dentro do meu cérebro me desperta. Nem eu mesmo sei o que sinto. Não quero sentir nada, não deveria. De repente, aqui estou eu tendo ciúmes de uma garota com meu amigo. Sendo que eu e ela só tivemos atritos até agora. Sequer trocamos um beijo. É pura loucura.
Retiro minha Telecaster da parede, é a minha guitarra preferida e que faz o som que mais gosto. Começo a dedilhar as cordas para checar a afinação. Estou sempre fazendo isso. É algo que me ajuda a relaxar. Observo Amber Lee ir até seu teclado e ligá-lo. Ela parece tensa como um cabo de aço.
Estou contando com você, little bunny. Não me desaponte, por favor.
A primeira meia ho®a de ensaio é um total desastre.
Não acredito que ela tenha estudado música e toque tão m@l. Parece até que está de s@canagem. São erros grotescos! Um babuíno martelando nessa porr@ ficaria melhor!
Ela não se entrosa conosco, comete um erro atrás do outro e eu estou a beira de cometer suicídio. Chego ao ponto de quase arrebentar as cordas da minha Fender, de tão put0 que estou.
ㅡ O que está fazendo, Amber Lee? Pelo menos aprendeu as notas? Não, sério... Você tem certeza de que sabe ler uma partitura?
Ela faz um bico infantil de birra para mim e cerra os punhos.
Está irritada? Eu também!
Pete bate levemente em um de seus pratos para chamar nossa atenção.
ㅡ Dê a ela um tempo para se acostumar.
Praguejo por entre os dentes e volto a tocar. Sequer consigo olhar para ela, enquanto erra miseravelmente. Paro de cantar e bato no microfone.
ㅡ Não é possível! Você toca piano desde os cinco anos? Não foi o que disse? Só esqueceu de mencionar que toca m@l pra car@lho desde os cinco anos!
ㅡ Acalme-se, Michael. Ela está começando e geralmente não toca metal.
Isso é desesperador. Um verdadeiro desastre.
ㅡ Foi exatamente o que disse! Ela não vai conseguir!
ㅡ Fica quieto, cass&te! Não consigo me concentrar!
*Amber Lee PoV*
Por um segundo, Michael fica chocado. Obviamente, não está acostumado a ouvir um palavrão sair da boca de uma “princesinha”. Muito menos ser afrontado da forma como eu faço.
Gostando dele ou não, eu quero fazer parte da Everlasting. O idïota do vocalista só precisa deixar de se comportar como um b@baca por dois minutos!
Eu juro que estou tentando me concentrar na música, porém o comportamento animalesco dele me tira completamente do rumo. Ele até rosna de vez em quando e sei que não faz parte da canção. Meu corpo fica mais tenso ainda e meus dedos rígidos só fazem merd@ sobre as teclas. Eu quero desaparecer.
Sei que eu deveria ter mais controle, ser mais profissional, porém tudo nele me abala profundamente. A forma como ele me trata é sufocante. Acho que foi a pior ideia do século.
Procuro fazer como em casa, ignorar seu lado bestial e me prender aos poucos momentos que me encantaram. É o que me faz acertar alguma coisa às vezes, apenas para tudo desmoronar diante de sua cobrança implacável.
Durante uma pausa, obviamente feita por Michael para não me xingar, Pete se aproxima de mim, enquanto o ogro está concentrado nele mesmo em um canto.
ㅡ Amber Lee, eu sinto muito. Ele está muito estressado por causa dessa apresentação. Michael é muito exigente. Tente não se intimidar por ele.
Eu bufo, completamente perdida nessa situação caótica.
ㅡ Sabe o que mais me aborrece nisso tudo, Pete? Todo mundo se desculpa pelas atitudes horríveis dele, menos ele. Michael não se comporta como o líder da banda, ele parece um ditador impiedoso, pronto para te jogar no paredão e te fuzilar! Como você e a Dorothy conseguiam trabalhar com ele assim?
Ele fica ligeiramente envergonhado e morde os lábios antes de me responder.
ㅡ Michael sempre cobrou muito de nós, porém eu nunca o vi desse jeito. Ou, talvez, nós só estivéssemos tão acostumados, que não percebemos.
ㅡ Você quer que eu me acostume a ser maltratada, só para deixar esse boçal feliz?
ㅡ Não foi isso o que eu quis dizer. Amber Lee, você é boa, mas está deixando forças externas afetarem o seu desempenho. Não importa se é o Michael ou uma plateia. Você tem que aprender a lidar com a pressão.
ㅡ Será que uma plateia rosnaria para mim como um bicho?
Nesse momento, ele dá um sorriso.
ㅡ Não, mas um público insatisfeito talvez jogasse ovos ou tomates. Podres.
Abro a minha boca para retrucar, porém acabo fechando-a para segurar a risada que tenta me escapar quando ele pisca para mim. Logo, Michael retoma o ensaio, me encarando como se estivesse com raiva de alguma coisa. Não sei o que eu poderia ter feito que o deixasse nesse estado, porém é terrivelmente desmotivador. O resultado é um erro atrás do outro, coisas que eu deveria dominar, entretanto, eu falho mesmo assim.
Quando Michael finalmente encerra o ensaio, sinto até alívio. Vejo-o sentar-se sobre um amplificador e mexer nas cordas de sua intocável guitarra. Ele sequer olha para mim e isso dói profundamente. Giro os olhos nas órbitas, pego meu teclado e saio do estúdio, jogando um “boa noite” por sobre o ombro, que nem sei se ele ouviu ou respondeu. Assim que estou na porta, Pete me alcança e se oferece para me levar em casa. Eu rejeito, porém aceito sua companhia até pegar um táxi. Ao chegar em casa, deito-me no sofá segurando meu teclado junto ao peito.
Ele foi tão desprezível… Isso nunca vai dar certo….
*Michael PoV*
Fico perplexo e pisco algumas vezes. Nunca a tinha escutado xingar antes. Eu solto um grunhido com raiva e voltamos a ensaiar. A mesma música. Pela centésima vez. Ela continua errando notas.
É uma tortura, foi a pior ideia do século…
Suspiro de desgosto no microfone e paro de cantar um minuto. Minha cabeça está começando a latejar de exaustão e preciso de uma pausa. Enquanto me apoio no canto da parede, Pete conversa com Amber Lee algo que eu nem escuto, tamanha é a força que faço para me concentrar e não chutar a bund@ de alguém.
Há momentos em que tenho o vislumbre de escutá-la fazer uma sequência correta. O som é bom. É do que precisamos. Porém, ela consegue estragar tudo no minuto seguinte. Não faço ideia de como consertar isso.
Depois de uma ho®a dessa frustrante situação de merd@, resolvo encerrar a sessão de ensaio. Preciso esfriar minha cabeça para encontrar com McGregor e Lightwire. Nem me dou ao trabalho de levá-la até a porta, Pete me faz esse favor. Com certeza, eu diria alguma provocação e não seria nada bonito. Ela não leva desaforo para casa e acabaríamos batendo boca. Pete retorna para o estúdio com as mãos nos bolsos.
ㅡ Precisava ser tão estüpido com ela? ㅡ Ignoro sua presença, fico concentrado dedilhando meu instrumento, sentado sobre um amplificador. Não estou a fim de conversar. ㅡ Michael, fugir da realidade não vai resolver nada. Se vocês dois não se entenderem, pode dizer adeus...
ㅡ Você acha que eu não sei disso?
Levanto um olhar cortante e frio para ele. Tanto, que ele se cala um instante e suspira.
ㅡ Parceiro, eu não entendo. Se você sabe como precisamos dela, por que teima em se comportar como um imb&cil?
Nesse momento, arranco um som horrível das cordas. Foi impulsivo. Não quero ter que falar em voz alta.
ㅡ Até amanhã, Pete.
Ele passa a mão pelo rosto e depois pelos cabelos.
ㅡ Isso é incrível! Você não se comporta como um imb&cil… Você é um imb&cil por tratar tão estupidamente uma garota fantástica, que está disposta a aturar suas grosserias para ajudar a banda! Entretanto, se você continuar a tratá-la como fez hoje, vamos perdê-la!
Ergo-me enraivecido, deixando meu instrumento deitado sobre o lugar onde eu estava sentado.
ㅡ Você parece muito interessado nela, não é? O senhor gentileza em pessoa, acariciando os cabelos dela, deixando que ela pegue no seu braço, falando gracinhas melosas para ela! Belo amigo você é, Pete!
ㅡ Espere um pouco... ㅡ Ele ergue as sobrancelhas, surpreso. ㅡ Você está com ciúmes da Amber Lee comigo?
Merd@...
ㅡ Não diga bobagens! Não tenho nada com ela para ter ciúmes!
ㅡ Então, qual o problema? Só tentei ser amigável o suficiente para superar a sua estüpidez!
Eu respiro profundamente e fecho os olhos um momento. Abro minha boca, porém me interrompo antes de dizer uma besteira. Enfio as mãos nos bolsos e saio do estúdio. Não quero ter que admitir. Ao menos, uma vez, gostaria que meu amigo fosse menos insistente. Ele me segue e fica parado no meio da sala, me questionando com o olhar. Seus braços cruzados na altura do peito. Meu olhar recai sobre a tatuagem de um pássaro branco de asas abertas em seu bíceps esquerdo. Sei o significado que ela tem. É tão macabro quanto o significado da que tenho nas costas. Ele percebe e olha de soslaio rapidamente para sua tatuagem.
ㅡ Ela está aqui para me lembrar de que podemos perder alguém importante em um estalar de dedos. Para sempre. Você sabe como é isso.
ㅡ Você fala como se Amber Lee fosse importante.
ㅡ Se não é, então por que ela te incomoda tanto?
ㅡ Porque... Argh!
Eu bufo de raiva e me sento sobre a mesa de centro. Ele se senta diante de mim no sofá. Ambos nos encaramos, com as mãos sobre os joelhos. Em seus olhos verdes, vejo que ele sabe a verdade que eu tanto tento negar para mim mesmo.
ㅡ Michael, você está f0dido, parceiro.
ㅡ É, estou. Eu gosto mesmo dela.