36 - O segundo ensaio

1706 Words
*Michael PoV* Encontrar com McGregor e Lightwire, depois da conversa surreal que tive com meu amigo foi esquisito. Sem querer, deixei escapar algo sobre Amber Lee para o meu chefe. Claro que não disse a ele que, a garota que me infernizou naquele show, trabalha em sua empresa. Não seria ético, poderia colocá-la em uma saia-justa muito desagradável. Já basta que o desagradável em sua vida seja eu. Tampouco comentei o fato dela estar na banda. Só geraria perguntas para as quais não tenho as respostas. Eu disse ao McGregor que tentaria trabalhar de imediato nos dados do pendrive que recebi. Porém, enquanto olho para a tela cheia de códigos diante de mim, minha cabeça está em outro lugar, em outra pessoa. Confiro a ho®a na tela do monitor. Já passa das três da manhã e eu não consegui fazer nada. Decido ir para casa tentar dormir um pouco. Preciso encontrar um meio de me comunicar com ela, caso contrário, estaremos condenados ao infe®no na Terra. Literalmente. *Amber Lee PoV* Dormi muito pouco, pois voltei a ensaiar as músicas da banda. Para a minha surpresa, não errei nada, exatamente o oposto do desastre que foi o ensaio. Chego à triste conclusão que é a presença do Michael que faz meus dedos tropeçarem. Então, me lembro das palavras gentis do Pete. Eu tenho que aprender a lidar com a pressão que Michael exerce sobre mim. Mas, como? Ele não me dá trégua! Assim que chego no trabalho, sou bombardeada por Rico e suas perguntas sem cabimento. ㅡ Como foi, ojitos? Arrasou com eles, não foi? Você é incrível! Eu sabia que ia tirar de letra! Eu suspiro frustrada e o sorriso no rosto dele se apaga. ㅡ Foi um desastre total, Rico! Michael se comportou como uma b&sta desumana e eu travei! Pete foi compreensível, mas o seu amigo ogro foi horrível! Estou à beira das lágrimas a essa altura, o que o faz se aproximar e apertar meu ombro para me consolar. ㅡ Não fique assim… Quer que eu fale com ele? Eu posso… ㅡ De jeito nenhum! Ele vai ficar intragável! ㅡ Talvez, se ele souber que o temperamento dele está te prejudicando, ele mude de atitude… ㅡ Eu disse que não! Ele vai achar que não sou profissional e que não sei lidar com a pressão! O pior é que eu consigo tocar perfeitamente bem sozinha. Tudo desanda quando ele está por perto… ㅡ Bom, pelo o que vejo, você não está sabendo mesmo. Escondo meu rosto entre as mãos e grunho em desespero. Rico tem razão. Estou deixando aquele homem me desestabilizar. Libero apenas um dos meus olhos e observo meu amigo com cautela. Preciso desabafar. ㅡ Eu… Gosto dele… Minha voz saiu tão baixa, que ele é obrigado a se aproximar. ㅡ Não entendi. ㅡ Eu gosto dele! Satisfeito! Dessa vez, falo alto demais. Tanto, que algumas cabeças no andar giram na nossa direção. Rico as dispensa e me arrasta para a sala de descompressão. ㅡ Ojitos, é sério? Seus olhos cor de avelã brilham com a minha revelação e eu me sirvo um café. ㅡ É, sim… Não entendo como isso pôde acontecer. Michael é tão irritante, presunçoso, grosseiro… Eu devo ter algum problema… Rico toma um gole do meu café, que eu só peguei para ter o que fazer com as mãos. ㅡ Amor não escolhe personalidade, Amber Lee. E isso, o Michael tem de sobra. Ele também tem uma série de defeitos, mas, com o tempo, você vai aprender a lidar com ele. ㅡ Quem falou de amor? Ficou maluco? Só porque eu tenho uma queda por ele, não quer dizer que eu esteja apaixonada! Seu olhar sagaz se estreita sobre mim e ele decide não dizer mais nada, algo que me deixa agradecida. Voltamos para nossas estações de trabalho, porém não consigo tirar Michael dos meus pensamentos. Apaixonada por ele? Que absurdo! *Michael PoV* McGregor não me pressionou tanto quanto imaginei que fosse fazer por causa dos dados. Ele percebeu que alguma coisa tem me incomodado profundamente. O dia de trabalho passou sem incidentes e a rede resolveu me dar uma trégua. Entretanto, como toda calmaria precede uma tempestade, no ensaio não foi diferente. Amber Lee estava um pouco melhor, apesar de continuar errando muito. Juro que tentei não ser tão estüpido como no dia anterior, porém minha cara e os gemidos de desgosto diziam tudo. Durante uma pausa, Pete leva uma lata de refrigerante para ela e conversa alguma coisa. Sei que estão falando de mim. Pego o celular para me distrair e olho o número da Dorothy. Ela não respondeu nenhuma mensagem minha. Sequer visualizou. Espero que esteja bem... Guardo o celular e continuo a dedilhar minha Fender. Estou tentando me acalmar. Talvez, se eu fizer uma abordagem diferente, ela consiga tocar mais de três acordes sem errar. Eu sei que sou exigente, porém o tempo está contra nós. Não quero ver tudo desmoronar de uma ho®a para a outra. Estamos tão perto... Amber Lee está trazendo algo extra para a banda. Sinto a paixão pela música dentro dela, no entanto, não conseguimos nos conectar. *Amber Lee PoV* Aqui estou eu novamente, prestes a entrar na cova do leão. Fico me perguntando se tomei a decisão certa ao me juntar à banda. A essa altura, já duvido até da minha própria capacidade. Vamos lá, Amber Lee. Você tem que enfrentá-lo! Agradeço aos céus por Pete não se atrasar hoje. Ficar sozinha com Michael é uma prova de fogo. Embora, dessa vez, ele esteja fazendo um esforço para ser menos animalesco, no entanto seus gemidos frustrados e desdenhosos não me escapem. A situação toda desanda mais uma vez, simplesmente não consigo controlar meus nervos perto dele. Pete é o centro dessa tempestade na qual eu e Michael estamos presos. Sempre tenta acalmar os ânimos, quando percebe que seu amigo vai explodir comigo. Mesmo assim, não consigo relaxar. Não consigo me entregar. Sem isso, a música não flui e eu me enterro ainda mais dentro de mim. Em um intervalo, Pete me traz um refrigerante. Vem em boa ho®a, minha garganta está mais seca que um deserto, apesar de eu não ter dito uma palavra. É a tensão palpável que nos cerca que faz isso comigo. ㅡ Amber Lee, você tem que se acalmar. Tente ignorá-lo. ㅡ Fácil falar, Pete. Ele se comove com meu desânimo e me oferece uma massagem no pescoço para me tranquilizar. No entanto, salto de susto com o grito do Michael informando o fim do intervalo. Caminho para o meu teclado, sem a menor vontade de tocar, pois sei que, se eu cometer o menor dos erros, ele vai me massacrar. Infelizmente, ele me fez perder minha conexão com a música, ao mesmo tempo que me devolveu. *Michael PoV* Pete sempre é muito gentil e solícito com ela. Um bom ponto de equilíbrio, já que eu não consigo deixar de agir como uma b&sta. É mais forte que eu. O medo do fracasso me faz exigir e esperar demais dela. Ela parece ter potencial, dos grandes, porém não consegue se entregar totalmente. Não dá forma como tocou no Butterfly. Direciono meu olhar para eles e vejo Pete massagear o pescoço dela. É pura provocação dele. Não entendo onde ele acha que vai chegar com isso. Já disse a ele minha posição com relação a me envolver com ela. Desvio minha atenção de volta para meu instrumento, quando ela me pega olhando em sua direção. É ho®a de voltar ao trabalho. Essa conversinha desses dois já durou muito tempo. ㅡ Hei! Acabou o intervalo! Vejo meu amigo voltar para sua bateria. Amber Lee se arrasta na direção de seu teclado como quem faz a marcha fúnebre. Isso não está certo... Como ela acha que vai fazer algo direito assim? Cerro os dentes enquanto a observo. Sua atitude é de total despreparo. O mundo é cheio de pessoas prontas para te engolir. A vida não é um conto de fadas. Se ela não consegue lidar com a minha pressão, então estamos perdidos. Quando iniciamos, eu procuro tentar ignorar seus erros. Pete faz um esforço na bateria para encobrir suas escorregadas. Por fim, eu explodo mais uma vez. ㅡ Porr@! Já chega! Já tive o suficiente! Preste atenção! ㅡ Eu presto atenção... Inclusive no jeito que você rumina para mim! Estava demorando... *Amber Lee PoV* ㅡ Desculpe-me, dona princesinha, por estragar seu castelinho de areia. Só que, se essa merd@ não der certo, anos de trabalho duro serão jogados fora. Então, será que dá para a senhorita acabar com a frescura? O sarcasmo na voz dele leva o melhor de mim. Eu inflo o meu peito, puxando o ar e segurando-o dentro de mim. Minhas bochechas devem ter ficado vermelhas, pois ardem com a raiva que me consome. Por fim, solto o ar todo de uma vez, sacudindo a cabeça negativamente. ㅡ Sei muito bem o tipo de trabalho duro ao qual se refere, senhor perfeito dono da verdade. Se você acha que é fácil aturar o seu mau humor, está muito enganado! Pete sai de sua bateria e coloca a mão no ombro de Michael, enquanto o último me encara duramente e faz um esforço enorme para se segurar. Sinceramente, se ele disser mais qualquer desaforo, juro jogo meu teclado em cima dele! ㅡ Fim do ensaio. É o que ele rosna por entre os dentes. Ao invés de ir embora, eu mantenho minha posição diante dele, com as mãos na cintura e batendo um pé nervosamente no chão. Ele poderia ao menos se desculpar por ser tão grosseiro! Será que ele não percebe o quanto me deixa nervosa? *Michael PoV* O que ela está esperando? Se é um pedido de desculpas da minha parte, vai ficar plantada aí a noite toda! Eu saio do estúdio e vou para o meu quarto, fechando a porta. Escuto uma conversa lá fora entre os dois e, depois, o barulho da porta da frente abrindo e fechando. Como Pete não veio falar comigo, acredito que a tenha levado para casa. Fico andando de um lado para o outro no cômodo, com as mãos na nuca. Isso nunca vai dar certo... Nem a banda, nem nós dois...
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