*Michael PoV*
Tenho dificuldade em saber o que dizer inicialmente.
ㅡ Minha tatuagem?
Tento me concentrar na minha respiração, para afastar as lembranças que ressurgem pouco a pouco.
ㅡ Eu não queria ser intrometida. Só fiquei curiosa. É um texto muito bonito.
Eu cometi uma falha terrível e uma pessoa que eu amava morreu. Como ela me veria depois?
ㅡ É um epitáfio…
Fiz nas minhas costas, uma cópia da lápide do meu irmão, para não esquecer jamais esse meu pecado. Sinto que ela tenta se mover. Eu não consigo encará-la agora. Afundo mais ainda meu rosto em seu pescoço e aperto meus braços ao seu redor.
ㅡ Eu não entendi. Parecia uma oração.
ㅡ Sim. Oração da Serenidade. Ela é muito usada em grupos de auto-ajuda. Eu a recito mentalmente toda vez que acordo, antes de enfrentar mais um dia.
Um nó se forma na minha garganta, com imagens antigas que preenchem minha mente. A maioria é dolorosa demais. Engulo com um pouco de dificuldade, tentando diminuir meu desconforto. Suspiro tão profundamente que chega a doer.
ㅡ E… As datas?
Eu me encolho um pouco e puxo uma de suas pernas contra mim, com medo de que ela saia correndo quando ouvir toda a verdade. De qualquer forma, sinto essa extrema necessidade de me abrir com ela.
Amber estava certa quando disse que poderia me fazer confessar crimes que nunca cometi. Imagine os que tenho nas costas…
ㅡ São as datas em que o meu irmão mais novo nasceu e morreu.
Suas mãos param de me acariciar um momento. Por um instante, achei que fosse me afastar. No entanto, ela só me aperta mais contra si.
ㅡ Sinto muito por isso… Você não precisa continuar se não quiser...
ㅡ Está tudo bem… É com você…
Se eu puder dividir isso, será a minha chance de construir algo bom com ela.
ㅡ Eu tinha sete anos. Minha mãe nos levou ao parque. Foi uma das poucas vezes em que ela se comportou como uma mãe de verdade, nos levando para brincar.
Rio com ironia quando me lembro da situação.
Uma tentativa patética por sinal, que acabou em tragédia.
ㅡ Então, um cara começou a dar em cima dela e ela nos ignorou o resto da tarde. Eu queria brincar no carrossel, porém o Raphael tinha medo. Então, ele ficou no balanço sozinho. Não tomei conta dele, sequer pensei nisso...
Eu engasgo com as palavras e limpo a garganta para tentar continuar. Sinto seus braços me apertarem ainda mais e isso me trás um pouco de alívio.
ㅡ Enquanto eu girava naquele maldito brinquedo, me sentia o dono do mundo, até perceber que o balanço onde o meu irmão brincava estava vazio. Saltei para fora do carrossel ainda em movimento, me machuquei todo, porém eu não me importava. Só o que eu queria era encontrar o Rapha. ㅡ Ergo meu pescoço e a encaro. Seu olhar não me julga, tampouco me pressiona. Ela apenas mantém seu forte abraço ao redor de mim para me dar conforto. ㅡ Eu chamei e procurei por ele em toda parte, por ho®as. Até meu peito doer ao ponto de eu não conseguir respirar. Raphael era tudo o que eu tinha de bom na merd@ da vida que eu levava. Em um estalar de dedos ele sumiu, porque eu não tomei conta dele. Dias se passaram, colocamos sua foto em todos os lugares. Perguntávamos a todos se alguém tinha visto um garotinho de cabelos e olhos castanhos, com um suéter azul e um boné dos Nicks... Maldição...
Seus olhos se enchem de lágrimas. Lágrimas que eu não tenho mais para derramar.
Eu as sequei há muito tempo. Ao ponto das surras do Sunny só conseguirem arrancar o meu sangue.
Passo o polegar em sua bochecha, para limpar o caminho que uma delas deixa ao cair.
ㅡ Minha vida virou um infe®no. Eu não dormia, não comia. Passava todo o meu tempo procurando por ele. Vi meus pais morrerem por dentro. O corpo dele foi encontrado algumas semanas depois, às margens de um rio. Ele morreu sozinho...
Como eu queria poder voltar no tempo. Eu morreria em seu lugar sem pensar duas vezes. Por que teve que ser ele?
Engulo um pouco de saliva para tentar desfazer o nó na minha garganta. Agora que comecei, não há porque não terminar essa história sórdida. Seu abraço me dá forças.
ㅡ A polícia disse que ele se afogou em um riacho perto do parque e a correnteza o arrastou para longe. Depois disso, minha mãe se drogou ainda mais para esquecer e o Sunny ficou louco.
ㅡ Sunny?
ㅡ É, o cara que deveria se comportar como um pai, porém só tive dele a sentença de um carrasco. Ele me responsabilizou pela morte do Rapha. Nesse ponto, não tiro sua razão. Sempre achei isso mesmo.
ㅡ Como pode pensar assim? Você era apenas uma criança, Michael! Não foi sua culpa!
ㅡ Foi sim… Quando você tem um bêbado como pai e uma pro$tituta drogada como mãe, é seu dever cuidar do seu irmão caçula. Eu era o único que poderia tomar conta dele e, como eu não o fiz, ele morreu.
ㅡ Não era responsabilidade sua! Pelo amor de Deus!
Eu sei que a culpa foi minha e eu jamais vou me perdoar por isso. Essa dor nunca irá passar.
Saio de cima dela e ficamos deitados um de frente para o outro, de mãos dadas. Resolvo mudar de assunto, falando sobre o feriado de quatro de julho no dia seguinte. Combinamos de passá-lo juntos. Acabamos adormecendo assim. Apesar das tristes memórias, sua presença me traz paz.
*Amber Lee PoV*
Eu finjo que durmo em seu peito, apenas sentindo o ritmo lento de sua respiração. Estou arrependida por ter tocado no assunto da tatuagem, isso só lhe trouxe memórias tristes. No entanto, sou extremamente grata por ele confiar em mim para me contar como se sente.
Eu já esperava que o significado fosse ruïm, porém nunca imaginei que alguém sentisse tanta dor pela morte de um ente querido, ao ponto de desenhar uma lápide nas costas. Ele fez isso para jamais esquecer o que considera sua culpa, seu pecado mortal. Só queria conseguir fazê-lo entender que, um garotinho, não tem culpa do descaso e violência dos pais. Muito menos, quando o resultado é a morte do próprio irmão.
Eu me sinto tão ligada a ele, que sequer posso evitar a vontade enorme de chorar. Ele não derramou uma única lágrima enquanto me contava aquela história mórbida. Saio de seu peito e me viro para o outro lado devagar.
Não quero que perceba que estou chorando por ele… Ele tem seu orgulho e acho que não iria querer isso.
Seu sono começa a ficar agitado e eu me viro de novo. Sua testa franzida brilha com o suor.
Ele está tendo um pesadelo?
Quando seus olhos se abrem de repente, eu fecho os meus, fingindo dormir. Percebo sua movimentação ao sair da cama e, depois, do quarto. Também me levanto, visto minha camisa e abro a porta devagar. Fico escondida na esquina do corredor, de onde posso vê-lo no sofá, dedilhando seu violão. Ele emana ondas de tristeza que me atingem fortemente.
Oh, Michael… Como posso te ajudar a aliviar toda essa dor?
Uma ideia louca me passa pela cabeça e eu volto para o quarto, pegando o meu celular. Faço uma pesquisa rápida e, quando saio do quarto, dessa vez não me escondo.
Talvez, assim, eu consiga lhe dar um pouco de paz…
*Michael PoV*
Acordo assustado, suando como um porco. Sento-me na cama, passando a mão pelo rosto. Minha outra mão esbarra em uma mecha de cabelos macios. Olho para o lado e sorrio quando vejo minha namorada adormecida.
Foi apenas um pesadelo, mais um para minha coleção.
Pego o celular na cabeceira da cama e confiro o horário. Cinco ho®as da manhã. Levanto-me, com cuidado para não despertá-la. Sei que não vou conseguir voltar a dormir, então pego meu violão, que dessa vez deixei em seu pedestal, e sigo para a sala, fechando a porta. Sento-me no sofá e começo a dedilhar algumas notas.
Eu poderia ter te ensinado tanta coisa... Se você estivesse vivo, será que gostaria tanto de música quanto eu? Será que tocaria guitarra? Ou seria um hacker bem melhor que eu? Você sempre foi o mais esperto... O mundo seria um lugar melhor se você estivesse aqui.
Após algum tempo, sinto uma presença na sala. Amber está em pé, vestindo apenas sua camisa, me observando. Nunca contei a ninguém como realmente me sentia sobre a morte do meu irmão, pois não queria a pena de ninguém. No entanto, é apenas compaixão que vejo nos olhos dela. Ela se importa comigo, como ninguém jamais se importou. Tenho meus amigos, porém é algo totalmente diferente. É como se ela sentisse a dor que está enraizada na minha alma.
Ela se aproxima lentamente e ponho meu violão de lado no sofá. Fico curioso quando ela coloca seu celular sobre a mesa de centro. Uma música que eu não conheço começa a sair do aparelho. Não sei o que ela pretende, porém aguardo pacientemente. Então, para a minha surpresa, ela começa a cantar.
I know you, you're a special one
(Eu te conheço, você é do tipo especial)
Some see crazy where I see love
(Alguns vêem loucura onde vejo amor)
You fall so low but shoot so high
(Você se decepciona tanto, mas se ergue tão alto)
Big dreamers shoot for open sky
(Grandes sonhadores almejam céus mais limpos)
Engulo o bolo na garganta que me sufoca. Ouvir sua voz sempre é maravilhoso, no entanto, hoje, é completamente diferente. Eu tento brincar para disfarçar.
ㅡ Uma serenata, little bunny?
Ela se aproxima o suficiente para afastar alguns fios do meu cabelo e acariciar minha bochecha, me encantando docemente.
ㅡ Talvez…
So much life in those open eyes
(Tanta vida naqueles olhos abertos)
So much depth, you look for the light
(Em meio às profundezas, você busca pela luz)
But when your wounds open, you will cry
(Mas, quando suas feridas abrirem, irá chorar)
You'll cry out now and you'll question why
(Você irá chorar compulsivamente agora e vai questionar por que)
Minha vista fica embaçada, conforme a pressão nos meus olhos aumenta. Achei que não pudesse mais chorar pelo Raphael, que não tinha mais nada para dar, no entanto ela sempre consegue extrair tudo de mim. De bom e ruïm.
Seu corpo se coloca entre meus joelhos. Coloco minhas mãos atrás de suas coxas e apoio minha cabeça em sua barriga, inspirando e expirando lentamente, à medida que as lágrimas caem. Suas mãos deslizam pelos meus cabelos, um gesto que eu amo cada vez mais, e sua doce voz continua a derrubar minhas defesas e a me deixar completamente à sua mercê.
I can see a rainbow
(Posso ver um arco-íris)
In your tears as they fall on down
(Nas suas lágrimas, enquanto elas caem)
I can see your soul grow
(Posso ver sua alma crescer)
Through the pain as they hit the ground
(Através da dor à medida que elas atingem o chão)
I can see a rainbow
(Posso ver um arco-íris)
In your tears as the sun comes out
(Nas suas lágrimas, conforme o Sol nasce)
As the sun comes out
(Conforme o Sol nasce)
Subo minhas mãos por seu corpo até seus quadris e a puxo contra mim. Ela cai sobre o meu colo, suas coxas me envolvem e suas mãos afagam meus ombros trêmulos. Em outros tempos, jamais me permitiria estar tão vulnerável diante de alguém. No entanto, com ela, busco apenas o conforto que somente seu calor pode me dar.
Quando levanto minha cabeça, seu marejado olhar cor de esmeralda me observa atentamente. Fecho meus olhos, sentindo seus lábios tocarem minhas pálpebras com uma profunda delicadeza, para depois se encontrarem com os meus. Imediatamente a beijo com uma necessidade desesperada, misturando o sabor das nossas lágrimas ao nosso beijo. Há imagens na minha cabeça que quero trancafiar no meu baú de memórias horrendas e somente ela tem esse poder.
Pressiono seu corpo contra o meu e suas unhas cravam nos meus ombros, fazendo-me gemer em sua boca e possuí-la vorazmente com a minha língua. Ela afasta o rosto dela um momento e acaricia o meu, mantendo sua palma quente na minha bochecha.
ㅡ Gostaria de poder tirar essa tristeza de você.
ㅡ Você tira, little bunny. Não se preocupe.
Seus lábios mergulham nos meus. Seus dedos vão para as minhas costas e deslizam pelos músculos, como seguindo as linhas da minha tatuagem. Isso não me incomoda. É como se ela quisesse apagar a marca da minha terrível falha que fiz no meu corpo.
ㅡ Quantos anos ele teria?
Sua pergunta não me causa estranheza. É normal que queira saber mais sobre a pessoa que, depois dela, mais amei e perdi.
ㅡ Vinte e dois.
Puxo a camisa que veste para fora de seu corpo, sem dar pausa à sua boca, que desce pelo meu peito. Ela retira minha calça e logo sinto sua língua no meu memb®o. Eu acaricio seus cabelos e deixo minha cabeça pender para trás, me deliciando com a sensação prazerosa que ela me dá. Sua boca trilha um caminho de beijos pelo meu abdômen até chocar-se contra à minha. Guio seu quadril sobre o meu colo e quando a penetro, engulo seus gemidos.
Não é como o s&xo insano que fizemos antes. É mais como a nossa primeira noite aqui, nesse apartamento. O carinho, a dedicação, a entrega. Porém, dessa vez, os papéis estão meio que invertidos. Enquanto me perco dentro de seu corpo, tomo dela o que tanto preciso: Alegria, amor, redenção. É ela quem dispersa minha tristeza e aplaca minha ira. É ela quem preenche o vazio no meu peito.