118 - O bombom

2895 Words
*Amber Lee PoV* “Temos que contar para ele. Eu me sinto um traidor!” Suspiro ao ver a mensagem do Pete. O coitado parece desesperado e, eu, me sinto horrível por tê-lo usado daquele jeito. Mesmo assim, não acho prudente contar. Isso só vai gerar um atrito desnecessário. Vou levar esse segredo para o túmulo e Pete tem que entender isso. “Eu sinto muito, Pete, mas, não. É melhor assim.” Ele não me envia resposta alguma, claro, deve estar put0 da vida comigo. Meu e-mail exibe uma notificação do RH e eu tremo na base. “Compareça à gerência de Recursos Humanos imediatamente.” A própria Katherine assina a mensagem e me pergunto se não é algo relacionado às minhas férias. Estou ferrada… Edward está em uma reunião de negócios, então peço a Rico para avisá-lo onde fui quando ele chegar, caso eu não tenha retornado ainda. Sigo para o andar, tentando o caminho todo me manter calma. A secretária me anuncia e eu encontro uma Katherine sorridente e educada. ㅡ Por favor, senhorita Taste. Sente-se. Ela foi trocada por uma cópia boa? Não… É tudo fingimento… Sento-me com cautela e cruzo as mãos sobre o colo, ajeitando a postura. Tento ser paciente, quando ela pega um chocolate em uma caixa e o come lentamente. ㅡ Quer um? ㅡ Não, obrigada. Por que mandou me chamar, senhorita Smith? ㅡ Oh, sim. ㅡ Ela afasta a caixa de bombons e empurra uma documentação na minha direção. ㅡ Está tudo em ordem, só preciso da sua assinatura. Estreito o olhar e pego a documentação, que se trata de um requerimento de férias, com a data do período em que estive fora. ㅡ O que é isso? Ela pega mais um bombom e fala olhando para ele. ㅡ Por alguma estranha razão, sua documentação de férias se perdeu. Eu joguei a culpa na troca de secretárias do setor. Porém, não queremos problemas com uma auditoria interna, certo? Redigi tudo igual como estava no sistema, inclusive a data retroativa. Está tudo como o seu namorado planejou. Basta assinar. Franzo a testa e começo a ler cuidadosamente cada parágrafo. Como tudo está em ordem, eu assino e devolvo para ela. ㅡ Pronto. Mais alguma coisa, senhorita Smith? Ela confere a papelada e me encara com um falso sorriso que não alcança os olhos. ㅡ Só mais um detalhe. Diga ao Michael que estou fazendo um favor. Assim, evitaremos problemas e todos ficarão felizes, certo? Ela está muito interessada em cair nas graças do Michael. Por quê? Também não gosto dela se referindo a mim desse jeito, como se eu fosse sua garota de recados. Não tenho mais nada com o Michael, no entanto ela ainda não sabe disso. De qualquer forma, não vou dar a ela o gostinho de saber que levei um chute na bund@. ㅡ Obviamente. Eu me levanto e ela faz o mesmo, não antes de pegar mais um bombom e colocá-lo na minha mão. ㅡ Estou levantando a bandeira branca, senhorita Taste. Vai me fazer essa desfeita? Encaro o doce envolto em papel dourado na minha mão com desconfiança. Ela não me daria algo envenenado na empresa, certo? Afinal, ela também comeu vários. Fora o fato dela estar muito interessada em agradar ao Michael. Tentar me matar não seria o melhor caminho. Decido abrir o bombom e dou uma mordida. Está gostoso, com um recheio de frutas de sabor exótico. ㅡ Até breve, senhorita Smith. Saio de sua sala e caminho para o elevador. A cabeça cheia de pensamentos. Por que aquela vaca está tão interessada em ficar numa boa comigo à essa altura do campeonato? Ela deve ter o r**o preso com o Michael. É a única explicação. Coloco o restante do bombom na boca e jogo o papel em uma cestinha de lixo próxima quando ouço a campainha do elevador. Entro cegamente, apertando de forma mecânica o número do meu andar. Michael é um hacker e, pelo que percebi, um dos bons. Ele provavelmente descobriu algum podre dela. Deve ser por isso que ela estava tão empenhada em fazer tudo conforme ele planejou. Engulo o chocolate na minha boca e penso alto. ㅡ Vaca ardilosa de duas caras… Ouço um pigarrear e me encolho na parede. Estava tão concentrada nas minhas ideias, que sequer notei que não estava sozinha no elevador. Que não seja o senhor McGregor de novo! Eu morreria de vergonha! Não tenho coragem para encarar quem quer que esteja comigo, no entanto meus sentidos captam um perfume familiar. Lavanda e pimenta… A boca do meu estômago revira com a possibilidade e até perco o ar. O nervosismo se apossa de mim e minhas pernas ameaçam perder as forças. Não… O destino não seria tão sacana comigo a esse ponto… Seria? Giro apenas as pupilas dos olhos e vejo a última pessoa que esperava encontrar. Michael está em pé, olhando de soslaio para mim, com uma expressão impossível de decifrar. Eu respiro fundo e me encolho um pouco mais contra a parede. Só pode ser s@canagem… Começo a suar frio, meu estômago tendo espasmos de dor, tanto, que me curvo um pouco, colocando ambas as mãos sobre a região. O que está acontecendo? Não pode ser apenas o nervoso por causa da presença dele. Tem algo errado… Meus dedos ficam formigando, o ar se torna cada vez mais difícil de encontrar, conforme o desconforto na minha barriga aumenta. ㅡ Você está bem? Reconheço a voz dele, porém sequer consigo achar a minha para responder. A dor é muito grande. Finalmente, minhas pernas cedem e eu desabo sobre elas como uma fruta podre, me contorcendo e arfando. ㅡ Amber! O que você tem? Pode ser impressão minha, mas o calor do abraço gentil do qual tanto senti falta me envolve. Ele quase é capaz de me fazer esquecer o m@l-estar. Outra pontada de dor me faz gritar e chorar. Não aguento mais… *Michael PoV* Jamais imaginei que o destino pudesse me pregar uma peça dessas. Esbarrar com a Amber Lee justamente no elevador é demais. Uma ho®a isso teria que acontecer, afinal trabalhamos no mesmo lugar. Mas, porr@, tinha que ser dentro do elevador, onde seu perfume pudesse ficar me torturando? Para a minha sorte, ela sequer nota a minha presença, de tão pensativa que está. Até deixa escapar um xingamento e, pelo jeito, é da Katherine que está falando. Ninguém mais na empresa tem o apelido de vaca. Se eu não disser nada, ela vai achar que estou bisbilhotando a conversa dela, mesmo que eu não tenha culpa dela ficar falando sozinha. Decido limpar a garganta para mostrar que ela não é a única aqui dentro. Ela praticamente congela no lugar ao me notar. Fico sem saber o que dizer ou fazer, então opto por permanecer em silêncio. É uma situação muito constrangedora. Apesar de tudo, não consigo tirá-la do meu coração e estar tão perto dela reativa os desejos dentro de mim que tenho tentado esquecer. Ela começa a suar, os fios de sua franja colam na testa, e seu corpo se encolhe mais e mais. Eu não deveria ligar para o que acontece com ela, porém é mais forte que eu. ㅡ Você está bem? Não recebo resposta alguma, o que me deixa irritado por pouco tempo. Quando ela praticamente cai sentada no piso do elevador, aparentemente sentindo muita dor e sem conseguir respirar direito, meu coração perde o ritmo. ㅡ Amber! O que você tem? Eu me ajoelho e a abraço, completamente desesperado. Suas lágrimas e gritos de dor despertam em mim uma necessidade extrema de protegê-la. As portas se abrem em um andar qualquer, porém eu estico o meu braço e aperto o botão que força o fechamento das portas. A essa altura, Amber está completamente sem sentidos. ㅡ Little bunny! Eu a tiro do chão e olho ao redor. Uso o cotovelo para apertar diversas vezes o botão do andar Médico, na esperança de que essa porcaria vá mais rápido. Minhas mãos estão ocupadas segurando a pessoa mais importante para mim e não quero correr o risco de soltá-la. O caminho parece eterno, enquanto observo seu rosto. Você vai ficar boa… Como se uma força tomasse conta de mim, toco seus lábios com os meus. Estão muito mais quentes do que me lembro. Ela está com febre e rezo para que o elevador chegue logo. Quando as portas se abrem, saio gritando para dentro do setor. ㅡ Mikelly! É uma emergência! O médico surge apressadamente e me guia até uma maca, onde a coloco com cuidado. Ele começa a examiná-la e me enche de perguntas. ㅡ O que houve com ela, Michael? ㅡ Eu não sei. Ela parecia bem e, de repente, começou a sentir muita dor, falta de ar e desmaiou. ㅡ Pode me dizer onde era a dor? ㅡ Acho que no estômago, ela estava com as mãos na barriga o tempo todo. Eu fico zanzando de um lado para o outro com as mãos na nuca, enquanto ele continua o exame preliminar. A febre está altíssima. ㅡ Sabe me informar se ela comeu alguma coisa estranha? ㅡ Não, eu… ㅡ Então, lembro que ela estava mastigando algo quando entrou, antes de xingar a vaca do RH. ㅡ Put@ desgr@çada! Os olhos do médico se arregalam e tento controlar a raiva que corre dentro das minhas veias como um vulcão em erupção. ㅡ Perdão. Ela estava comendo alguma coisa antes de passar m@l. Talvez, fosse melhor fazer um teste toxicológico. ㅡ Será o meu próximo passo. ㅡ Ótimo. Eu tenho que resolver um problema urgente. Pode me manter informado sobre o estado dela, por favor? ㅡ Sim, claro. Sua namorada será bem cuidada. Não rebato a forma como ele se referiu a ela. No fundo, nunca quis que deixássemos de ser um casal. Eu a amo e estava começando a fazer planos a longo prazo. E, quando tudo isso acabou, o vazio que ficou se tornou insuportável. Ouvir alguém chamá-la de minha namorada, como se ainda estivéssemos juntos, me traz um certo conforto, além de forças para lutar por ela, agora que está indefesa. Katherine, dessa vez você foi longe demais! Dou meia volta e sigo para o setor de Recursos Humanos. Invado o andar como uma tormenta, a secretária gritando que tenho que aguardar ser anunciado, enquanto eu avanço e escancaro a porta da sala dessa put@. O barulho é alto, no entanto, Katherine apenas larga uma caixa com uns chocolates e permanece sentada atrás de sua mesa, como se nada estivesse acontecendo. ㅡ O que você fez com ela? É a primeira coisa que berro. Katherine dispensa calmamente a secretária, que sai e fecha a porta. ㅡ Do que está falando, Michael? Eu me aproximo e espalmo a superfície de sua mesa com força. ㅡ Amber passou m@l logo após sair daqui! É disso que estou falando! Ela faz uma cara de surpresa que não me convence. ㅡ Que estranho… Ela estava ótima. Será que comeu algo que não lhe caiu bem? O meio sorriso esc®oto no canto de sua boca é demais para mim. Dou a volta na mesa, agarro seu coque e a faço me encarar. Agora sim ela demonstra uma expressão genuína: Medo. ㅡ Michael! Está me machucando! Ignoro seus apelos e minha voz gravemente fria a faz paralisar. ㅡ Escute bem o que vou te dizer, Katherine. Reze… Reze muito para que nada aconteça com a Amber ou a sua vida irá descer pelo ralo. E eu não falo apenas dos seus vídeos pornôs… ㅡ O… O que quer dizer? Eu não fiz nada! ㅡ Isso os exames irão dizer. ㅡ Solto seu cabelo bruscamente e começo a me afastar. ㅡ Reze… Saio de sua sala para voltar ao setor Médico. Não estamos mais juntos, contudo não consigo deixá-la à própria sorte. Eu a amo demais para fingir que não me importo. Enquanto espero o elevador, noto de relance um papel dourado dentro de uma cestinha de lixo. Lembro-me de ter visto algo parecido sobre a mesa daquela c®etina. Será isso que Amber comeu? Um chocolate envenenado? Quanta audácia daquela desgr@çada! Olho ao redor e puxo um lenço de papel de uma caixa na mesa da secretária de Katherine, que me não me encara com bons olhos. Recolho o papel dourado com cuidado para não tocá-lo, embrulhando-o com o lenço de papel, e o guardo no meu bolso. Volto para o setor médico e encontro Amber já recebendo medicação intravenosa, ainda desacordada. Entrego a embalagem do bombom para Mikelly, que se prontifica a fazer alguns testes. Suspiro profundamente, pego uma cadeira para me sentar ao lado da cama da minha little bunny e seguro sua mão entre as minhas. Por que você foi aceitar qualquer coisa que aquela mulher m@ldosa tenha te oferecido, sua tonta? *Amber Lee PoV* Abro os meus olhos lentamente, tentando entender o que aconteceu. Minha cabeça está pesada, como se eu tivesse levado uma paulada com um taco de baseball. ㅡ Rico, veja! Ela está acordando! Reconheço a voz da Lauren, porém levo alguns momentos para conseguir enxergar qualquer coisa. Os rostos dos meus dois amigos mais queridos no mundo são um colírio para os meus olhos. ㅡ Hei, ojitos… Como está se sentindo? Rico fica fazendo um cafuné na minha cabeça muito gostoso. Começo a me lembrar do que aconteceu, principalmente da presença do Michael. ㅡ Como se tivesse sido atropelada… Onde… Onde está o Michael? Ele estava comigo no elevador… Ele morde a boca um momento e suspira de desgosto. ㅡ Ele acionou o setor Médico quando você desmaiou, aguardou os enfermeiros e voltou para o trabalho. Não posso deixar de me sentir decepcionada, porém o que eu esperava? Que ele fosse me paparicar, depois de me acusar tão injustamente só para se livrar de mim? Ele fez o que faria por qualquer um, até um desconhecido na rua, sem a menor importância. Uma grande tristeza me invade, principalmente por continuar a sentir o perfume dele, como se estivesse impregnado em mim. O médico me conta que passei ho®as desacordada por causa de uma reação alérgica extrema. ㅡ Não entendo… Eu não sou alérgica, a não ser a damasco. ㅡ Então está explicado, senhorita Taste. ㅡ Ele me mostra a embalagem do bombom que comi e fico boquiaberta. Não sei como ele conseguiu isso. ㅡ Havia damascos no recheio do chocolate que consumiu. Você não percebeu? Eu o encaro um pouco sem graça. ㅡ Se eu te disser que não poderia identificar, o senhor acreditaria, doutor? ㅡ O médico e meus amigos me encaram surpresos e decido me explicar. ㅡ Quando eu era pequena, minha mãe e avó diziam que eu era muito alérgica a damasco, por conta de uma crise que tive aos dois anos. Não me lembro de nada, só delas me dizendo que quase morri. O medo ficou enraizado dentro de mim e eu simplesmente procurava alimentos sem damascos. Então, não faço ideia do sabor que tem. Só sei que é uma fruta amarelada e… Eu me interrompo quando me lembro de algo aterrador. Essa informação alérgica estava na minha ficha… Será que Katherine leu e tentou me matar? Rico se aproxima, preocupado com a minha feição assustada. ㅡ O que foi, ojitos? ㅡ Depois eu te falo, Rico… Não posso levantar acusações contra uma gerente sem provas, aqui, na frente do médico… O médico fica pensativo um momento e mexe no celular. ㅡ Vou te dar o dia de hoje para que descanse, além da medicação que deverá usar. ㅡ Obrigada… *Michael PoV* “Sua namorada acordou e está fora de perigo. Ela é alérgica a damascos e o bombom que a senhorita Smith lhe ofereceu tinha essa fruta. Dei dispensa para ela descansar hoje. Mikelly.” Minha namorada… A notícia ainda não se espalhou, além dos nossos amigos mais próximos, ninguém mais sabe. Ele também não poderia pensar diferente, depois da preocupação que demonstrei por ela. Não saí do lado dela um minuto na enfermaria. Só quando Rico apareceu e ela teve sinais de melhora, é que fui embora. Eu não tenho jeito… De qualquer forma, é um alívio saber que ela está bem. Contudo, a raiva que sinto daquela put@ do RH é enorme. Será que ela sabia que Amber era alérgica e fez de propósito? Abro a ficha da Amber no sistema e a leio, como já fiz dezenas de vezes antes. Dessa vez, me concentro na declaração médica. É onde ela informa ser alérgica a essa fruta. Quase quebro os dentes de tão forte que os aperto. Tenho certeza que ela fez de propósito. A informação está aí, para qualquer um ler! Observo a tela do meu computador, onde há a foto sorridente dessa garota que virou a minha vida de ponta-cabeça. Não posso evitar querer fazer justiça. Eu poderia levar isso ao conhecimento do Ethan, porém não há como provar que Katherine sabia do problema da Amber e agiu deliberadamente com más intenções. Mesmo que ela tenha acessado a ficha, isso não significa que ela leu tudo. Eu mesmo não tinha reparado nessa informação até agora… Merd@... Um sorriso maquiavélico se apossa do meu rosto, enquanto estalo os dedos e abro uma nova janela de programação. Vou cuidar disso à minha maneira… Katherine… Vamos ver como você se vira sem cartões de crédito, conta bancária e carteira de motorista…
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