117 - O vazio interior

1992 Words
*Michael PoV* Quando chego na porta do meu apartamento, depois do encontro fracassado com aquela tiete, dou de frente com Rico. Ele está de braços cruzados e de cara amarrada. ㅡ Está tarde. O que você quer? ㅡ Você já me recebeu melhor. Não vai me convidar para entrar? Eu resmungo um palavrão, abro a porta e ele entra juntamente comigo. ㅡ Foi ela quem te enviou? ㅡ Não. A ojitos nem sabe que estou aqui. Eu vim porque não aguento ver dois amigos sofrendo. ㅡ Não seja ridículo! Quem te disse que estou sofrendo? ㅡ Está certo... Olha, eu não sei o que aconteceu exatamente, ojitos não entrou em detalhes, acho até que para te preservar. Não sei o porquê, já que você a está tratando como lixo. Apenas me disse que você a acusou de algo que ela não fez e que usou isso como desculpa para se livrar dela. Claro! Eu sou o rei da Inglaterra... ㅡ Rico, não fale do que você não sabe. ㅡ Então, me explique, Michael. Nada faz sentido nessa história. Respiro fundo e me sento no sofá. Ele se senta do meu lado, virado para mim. Não vou falar sobre as invasões. Não é relevante de qualquer forma. ㅡ Para resumir, há coisas no meu trabalho que são confidenciais. Amber Lee descobriu algo e, como eu achava que podia confiar nela, contei toda a verdade. Mas, ela abriu a boca para alguém e quase me vi demitido. Então, eu não inventei nada. Ela deu com a língua nos dentes e agora quer se livrar da culpa se fazendo de vítima. Ele se ajeita, apoia os cotovelos nos joelhos, cruzando os dedos. ㅡ Você tem certeza que foi ela? ㅡ Ninguém mais sabia, Rico. McGregor ficou furioso com a situação, nunca o vi daquele jeito, pensei que era o meu fim. Faz ideia que eu quebrei a confiança do cara mais poderoso do país e que sempre me estendeu a mão? ㅡ Entendo... Mesmo assim, é difícil de acreditar. Sinceramente? Tem algo muito errado aí. ㅡ Como assim? ㅡ Alguém pode estar querendo jogar a culpa nela. O estado que ela ficou... Mano, ninguém finge tão bem. Eu a conheço a mais tempo que você. A ojitos é fiel até debaixo d’água. Dissimular daquele jeito, é algo que ela é incapaz de fazer. ㅡ Também achava isso, no entanto não há outra explicação. Para que alguém pudesse armar para cima dela, teria que saber de alguma coisa. Isso é impossível. ㅡ Olha, tanto você, quanto ela, deveriam sentar e conversar, só que de cabeça fria. Gritar e acusar um ao outro não vai resolver nada. Você pode estar deixando passar em branco algo muito óbvio. Já imaginou se o verdadeiro culpado fica impune e ataca de novo? ㅡ Supondo que haja um outro culpado… ㅡ Michael... Mesmo que não haja outro culpado, com quem ela falaria? Ela raramente liga para os pais e, já tem semanas desde a última vez, pois sempre acaba em briga. Ela não tem mais ninguém aqui a não ser eu, a Lisa e você. Eu suspiro forte e baixo minha cabeça, pressionando a nuca com ambas as mãos. ㅡ Tem aquele namoradinho de infância dela, Rico. ㅡ O cara cujo número ela bloqueou quando veio para Nova Iorque? Sem chance! Ela é tão solitária quanto você. ㅡ Apenas giro minha cabeça na sua direção. ㅡ É, mano. Vocês são iguais. Vocês se completam. Eu sei que não deveria dizer isso, pois prometi a ela que guardaria segredo até ela criar coragem para te contar, mas ela é apaixonada por você. E eu sei que você também a ama. É uma pena deixar algo tão bonito acabar por causa de um m@l-entendido. Eu começo a rir de desgosto, com uma mistura de frustração, raiva, tristeza e dor. ㅡ É, ela disse que me amava naquela noite dos bolinhos de chuva. Eu também me confessei para ela. Acreditei realmente naquela merd@, que poderia construir algo maior, talvez… ㅡ Eu me interrompo, não por vergonha, mas porque as palavras ficam presas na minha garganta apertada. A primeira vez que pensei em família, foi quando estava com ela. É terrivelmente enlouquecedor perceber que estava errado. ㅡ Quando descobri o que ela tinha feito, meu mundo inteiro desabou. Então, irmão, não importa se você ama alguém, sem confiança, nada perdura. ㅡ Endireito meu corpo e me levanto, indo até a porta e a abro. ㅡ Boa noite, Rico. Ele espalma as coxas, se levanta e sai. Quando vou fechar a porta, ele me impede colocando um braço no batente. ㅡ Ninguém disse que amar é fácil. Você mergulha de cabeça e parece que nunca vai conseguir voltar à superfície. No entanto, vale muito a pena. A pergunta real é se você está disposto ou não a correr esse risco. A vida não dá segundas chances e o arrependimento é para sempre. Cerro os dentes, enquanto ele se afasta. Apoio-me de costas na porta depois de fechá-la, deixando meu corpo escorregar até o chão. Não, amar não é fácil. É assustador e doloroso. Tudo o que eu mais temia, aconteceu. Contudo, Rico tem razão em um ponto. Ela me completa e eu a amo. Sem sua presença, sinto-me vazio. *Amber Lee PoV* Para não ter que lidar com a dor que ele causou em mim, eu mergulho de cabeça no trabalho. Sou sempre a primeira a chegar e a última a sair. Antes, costumava ser o Edward. Ele me elogiou bastante, inclusive disse que já me enalteceu para o CEO diversas vezes sobre como o meu trabalho é exemplar. Ao menos uma coisa vai bem na minha vida. Não houve apresentações da banda, pois Winchester está refazendo a agenda. Sinceramente, sem querer ser m@l-agradecida, é melhor assim. Preciso desse tempo para mim longe dele. Longe de seu olhar acusador, de suas mentiras descabidas e sua raiva despropositada. Uma mão toca o meu ombro, enquanto estou fazendo anotações no sistema. Eu viro e vejo meu gerente me encarando com seus olhos cristalinos e sagazes. ㅡ Pode vir até a minha sala, Amber Lee? ㅡ Algum problema, Edward? ㅡ Apenas venha. Ele segue para seu escritório e eu engulo em seco, antes de me levantar e acompanhá-lo. Será que eu cometi algum erro? Seria bem possível por causa do caos emocional que tenho passado. Mas, eu tomei tanto cuidado com o trabalho… Fico revendo na minha cabeça cada um dos projetos em que meti a mão, tentando encontrar alguma falha. Quando me sento diante de sua mesa, eu o vejo cruzar as mãos sobre ela e respirar profundamente. O pânico começa a se apossar de mim. ㅡ Amber Lee, todos os meus funcionários são peças fundamentais no meu setor. São engrenagens que fazem essa máquina funcionar. Por isso mesmo, quando uma dessas peças não está bem, devo tentar consertar as coisas para que erros não aconteçam. Oh, não! Ele vai me demitir? ㅡ Edward, por favor! Seja lá o erro que eu tenha feito, juro que vou te compensar! Só não me mande embora! Eu preciso muito desse emprego! Ele levanta uma sobrancelha confusa na minha direção. ㅡ Mandar você embora? Só se eu estivesse maluco de pedra. Do que está falando? ㅡ Não é por isso que me chamou aqui? Edward começa a rir e me sinto a palhaça do picadeiro. ㅡ Céus, não! Amber Lee, você continua competente como sempre. E essa é justamente a razão de estar aqui. ㅡ Não entendi. ㅡ Veja bem, não quero ser inconveniente, porém parece que alguma coisa está te perturbando. Apesar do seu rendimento ter aumentado, não posso dizer o mesmo do seu humor. Você sempre teve um sorriso no rosto e uma aura que iluminava o escritório. Isso tudo tem estado apagado nos últimos dias. Você se sobrecarrega de trabalho e temo que cometa algum erro ou até fique doente, por causa da carga excessiva que está impondo sobre si mesma. Então, eu pergunto: O que a tem incomodado tanto, ao ponto de usar o trabalho como fuga? Fico completamente surpresa e muito sem graça com a sua percepção. Nunca imaginei que um chefe pudesse se importar tanto assim com seus funcionários. As lágrimas que achava já terem secado, ameaçam correr livres pelo meu rosto. Trinco os meus dentes e cerro meus punhos contra o colo, enquanto as seguro. ㅡ É… Pessoal… ㅡ Isso eu entendo. Tenho visto o Henrico tentando te animar de todas as formas. Inclusive, ele também tem a mesma preocupação que eu. Nesse momento, fico com medo do meu amigo ter falado algo sobre o Michael. ㅡ Rico falou com você sobre mim? ㅡ Ele não entrou em detalhes quando perguntei o que estava acontecendo com você. Porém, eu não sou cego. Eu vejo que algo aconteceu. E foi grave. Tem a ver com o problema do seu pai? Ele piorou? Dou um suspiro interno de alívio, o que até me surpreende. Se o Michael ficasse com problemas, eu deveria me sentir feliz, certo? Eu não quero ter mais nada com ele, mas isso não quer dizer que eu queira sobre mim a culpa dele ser prejudicado no trabalho, caso Edward resolva tomar as minhas dores. ㅡ O meu pai está melhor. Edward, eu agradeço a sua preocupação comigo, mas eu vou ficar bem. Só preciso colocar a cabeça no lugar. O trabalho me ajuda, por isso tenho me esforçado tanto. Admito que tenho exagerado na dose, porém vai passar. ㅡ Você tem certeza? ㅡ Tenho. Ele suspira pesadamente e se levanta. Eu também saio da minha cadeira e, quando vou apertar sua mão, para minha surpresa, ele me puxa para um abraço. Eu fico congelada em seus braços, meu rosto de lado em seu peito, os braços rígidos ao longo do corpo, sem saber como reagir. ㅡ Saiba que, se precisa de alguma coisa, qualquer coisa, pode contar comigo. ㅡ Eh… Obrigada… Eu me afasto um pouco sem graça e me retiro. Volto como um robô para a minha estação de trabalho e Rico me observa curioso. ㅡ O que aquele casanova queria com você, ojitos? ㅡ Você não vai acreditar… Conto a ele a conversa surreal que tive com Edward, inclusive sobre o abraço. Ele fica de olhos arregalados um momento para, depois, se enfurecer. ㅡ Aquele hijo de uma… ㅡ Rico engole o que acredito que seria um palavrão em Espanhol e respira fundo. ㅡ Era só o que faltava… Estava demorando para ele pôr as garras para fora e te assediar. ㅡ Confesso que fiquei chocada, mas não senti maldade no gesto dele. ㅡ Esse é justamente o seu problema, ojitos. Você nunca vê maldade em ninguém. Baixo meu olhar para o meu teclado e suspiro. ㅡ Tem razão. Foi assim que o Fabian me enganou. Que o Michael me enganou… Eu não vi o perigo até ser tarde demais. ㅡ Ah, não coloque o Michael nessa conta. Houve um problema sério no trabalho dele que chegou aos ouvidos do el jefe. O que aconteceu entre vocês foi um m@l-entendido, tenho certeza disso. ㅡ Você não me entendeu, Rico… Fabian foi um monstro comigo. Contudo, o Michael também. Foi só eu confessar que o amava que, no dia seguinte, ele arrumou uma desculpa qualquer para me chutar! ㅡ Você é surda? Isso foi só uma coincidência! Vocês se amam, pelo amor de Dios! Por que vocês não conseguem sentar e conversar para resolver os problemas como duas pessoas normais? Levanto meu olhar triste para ele, o que faz com que ele se cale. Minha voz é um sussurro apertado na garganta. ㅡ Por que não há mais nada para conversar. Acabou… Eu estive esse tempo todo me negando essa verdade. Procurei preencher o vazio que Michael deixou no meu peito com trabalho. Porém, a realidade é muito mais c®uel. Eu o amo e não faço a menor ideia se, algum dia, deixarei de amá-lo.
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