89 - Caçando Dorothy

2542 Words
*Michael PoV* Tiro o celular do bolso e ligo para o número da Dorothy, olhando de um lado para o outro na rua. Ela não me atende, como da outra vez em que deu um piti. Sei que Pete vai cuidar da Amber, então eu pego a van. Ele não dirige quando consome álcool, consequentemente, vai levá-la de táxi. No momento em que assumo o volante, me pergunto para onde ela teria ido. Tento novamente ligar para ela, em vão. Vamos, Dorothy... Não faça isso comigo... Será que ela voltou para o hotel? Sigo imediatamente para o lugar onde estamos hospedados. Bato na porta de seu quarto várias vezes, porém ninguém responde. Vejo uma camareira passar, que me encara assustada. ㅡ Algum problema, senhor Denver? Que ótimo! Ela me conhece! Aproximo-me dela de forma galanteadora. Estou apelando, contudo tenho que encontrar aquela maluca o mais rápido possível. ㅡ Meu bem, você pode abrir a porta do quarto da minha baixista? ㅡ É contra as normas do hotel... ㅡ Eu sei, ela estava passando m@l e agora não responde. Só quero saber se ela está bem. Eu ficaria extremamente grato. Passo um dedo por seu queixo e ela suspira. ㅡ Posso pedir algo em troca? ㅡ Desde que não seja um favor s&xual... Minha namorada é ciumenta, sabe... Pisco para ela com todo o meu charme e ela ri, retirando o celular do bolso. ㅡ Os funcionários não podem assediar os artistas que ficam aqui, porém é tão frustrante te ver e não poder tirar uma foto. Eu abro a porta se você não contar para o meu gerente. ㅡ Fechado! Ela tira uma dúzia de fotos comigo e finalmente abre a porta, entretanto Dorothy não está. As coisas dela nem parecem ter sido mexidas. Onde essa louca terá se metido? Agradeço a atenção da camareira e volto para a van. Faço o caminho do hotel até o bar e de volta ao local do show uma dezena de vezes, rodando desesperadamente pelas ruas dessa cidade estranha por algumas ho®as. Tento seu celular pela trigésima vez, o que se torna inútil. Fico encarando o aparelho na minha mão. Porr@, como eu sou idïota! Por que não pensei nisso antes? Esqueci que tenho a senha da conta do celular dela e, com isso, posso rastrear o aparelho. Abro o aplicativo de rastreamento no meu celular, saio da minha conta e entro com a da Dorothy. Se ela estiver com ele, vou encontrá-la com certeza. Logo, a localização aparece na tela. MIA Airport Station? Ela realmente falou sério, quando disse que ia embora? Sigo o GPS até a rodoviária perto do aeroporto de Miami. Percorro os guichês com meu celular em mãos, seguindo a direção que ele aponta. A bateria começa a dar sinais de exaustão. Dure pelo menos o tempo de achá-la... Por fim, eu a encontro sentada em um banco, olhando para o nada. Desligo meu aparelho e o coloco no bolso. Sento-me ao seu lado, já segurando seu braço, o que a faz pular de susto no lugar. ㅡ Que merd@, Michael! O que está fazendo aqui? ㅡ Essa pergunta é minha, não? Ela se levanta e eu também faço o mesmo, sem soltar seu braço. ㅡ Porr@, me deixe! ㅡ Não até você me escutar! Tudo bem que você me odeie, tudo bem que você odeie a Amber, tudo bem que você até se odeie, no entanto eu te peço para não destruir o sonho que nós construímos por tantos anos com tanto sacrifício! ㅡ Você é um idïota! Eu não te odeio! Deveria, mas não consigo! Eu... Eu amo você, seu c®etino! Fecho meus olhos e respiro fundo. Já esperava por isso. ㅡ Desculpe-me, Dorothy, porém eu não sinto o mesmo. Não da forma como você quer. Um policial se aproxima, lançando um olhar severo para o braço que mantenho nela. ㅡ Algum problema, senhorita? ㅡ Dorothy, por favor... Volte comigo e vamos conversar... ㅡ Eu sussurro em seu ouvido. ㅡ Não, senhor policial... ㅡ Ela sacode o braço e eu a solto. Tudo o que eu menos preciso agora, é passar a noite na cadeia. Então, ela segue até onde estacionei a van. ㅡ Você vem ou não? Peço licença ao policial e assumo o volante, com ela no carona. Um trajeto silencioso. Tenho que resolver essa situação agora. Vejo um acostamento ao longo da orla da praia e estaciono o carro. Viro-me para ela, apoiando um braço no volante. ㅡ Como fica a banda? ㅡ É só isso que importa para você? Eu suspiro desgostoso. Cabeçuda... ㅡ No momento, sim. Porque, se você sair agora, a banda acaba. Winchester vai cobrar uma multa absurda, vou ter que vender os equipamentos do estúdio para pagar. Será que você não se importa com isso? ㅡ Ela bufa de raiva e sai do carro. Eu saio atrás dela. ㅡ Aonde você vai? ㅡ Voltar para o hotel e pegar minhas coisas. ㅡ Pelo amor de Deus! Não escutou nada do que falei? ㅡ Escutei sim! É só arrumar outro baixista e fica tudo certo! ㅡ Fácil falar! Vamos ter que cancelar algumas apresentações até achar e treinar alguém para pôr no seu lugar. Isso vai soar como quebra de contrato para o produtor e será o fim da Everlasting! Eu a observo morder os lábios nervosamente, com os olhos cheios de lágrimas, e cruzar os braços. Ela está nervosa demais. Acho melhor lhe dar um calmante. Abro a porta lateral e faço sinal para ela entrar na van. Ela se senta sobre o colchão e eu pego minha mochila para retirar o kit de primeiros socorros de dentro. Conheço essa cabeçuda há anos, sempre tenho um calmante para essas situações. Pego uma garrafa de água no frigobar e lhe entrego com um comprimido. ㅡ Aqui, tome isto. ㅡ Noto que o corte na palma de sua mão ainda sangra um pouco. ㅡ Vamos cuidar desse ferimento. ㅡ Não precisa. ㅡ Ela engole o remédio e bebe um pouco da água. ㅡ Estou bem. ㅡ Sua teimosa, qual parte do corpo você mais usa para tocar o baixo? ㅡ As mãos... ㅡ Em qual parte do corpo está o corte que pode infeccionar? Ela bufa, assoprando uma mecha de cabelo do rosto e estica o braço para mim. ㅡ Vai, doutor. Cuida logo dessa porcaria. Eu quase sorrio. Limpo o corte com álcool e envolvo sua mão em uma bandagem. ㅡ Seria bom deixar um médico olhar isso amanhã. ㅡ Eu suspiro forte e me sento do seu lado no colchão. ㅡ Dorothy, como vai ficar a situação da banda? Você quer realmente jogar tudo para o alto? Não a encaro inicialmente, meu olhar está perdido no chão. Se ela quiser mesmo sair, não há mais nada que eu possa fazer, a não ser arcar com as consequências. Vai ser o fim... Uma enorme tristeza me invade. O sonho de anos jogado fora. Sinto sua movimentação ao meu lado e me viro. Eu esperava por tudo, que ela me batesse, me xingasse, saísse correndo... Menos que me beijasse, porém quando percebo, ela já está com seus lábios sobre os meus. Fico mortificado. ㅡ Quero te mostrar que eu também posso te fazer feliz... Suas mãos repousam no meu peito e sua língua tenta encontrar a minha. Eu recuo um pouco, no entanto ela parece grudada em mim. Acabo esbarrando na mochila aberta, que vira, e vejo meu estojo com o kit de insulina. Amber… Os momentos que passei com ela e sua dedicação e interesse em saber tudo para me ajudar com as crises me invadem como uma onda quente. Seguro Dorothy pelos ombros e a empurro, afastando-a devagar. Ela fica vermelha de vergonha. ㅡ Sinto muito, Dorothy. Não vai rolar. ㅡ Por que você me rejeita? ㅡ Lágrimas voltam a cair de seus olhos. ㅡ Você já dormiu com tantas garotas... Até com a Amber Lee. Não sou boa o suficiente para você? Eu suspiro e desvio o olhar. ㅡ Não é essa a questão... Porr@, não torne tudo mais difícil! Ela arregala os olhos e cobre a boca com as duas mãos, como se tivesse percebido uma verdade única. Então, aponta um dedo raivoso na minha direção. ㅡ Você... Você está apaixonado por ela, não está? Fico surpreso e tento disfarçar, pois não me sinto confortável em falar dos meus sentimentos pela Amber com ela. ㅡ Não seja boba. ㅡ Desde que ela apareceu, você não saiu com mais ninguém! Trata ela como se fosse a rainha de Sabá! Nenhuma mulher jamais recebeu tanta atenção sua! Nem mesmo eu! Ainda vai negar? Merd@... ㅡ Dorothy… Não tenho tempo para terminar de falar. Ela se joga sobre mim e começar a bater no meu peito desesperadamente. ㅡ Como você pôde fazer isso comigo? ㅡ Você ficou doida? Do que está falando? ㅡ De você dar o seu coração para ela! Seguro suas mãos e seu olhar brilhante de lágrimas encontra o meu. ㅡ Quer saber a verdade? Sim, estou apaixonado por ela. Mais que isso, eu a amo! Mesmo assim, tenho feito de tudo para não te magoar, ficando longe dela na maioria das vezes que você está por perto. Eu me importo com os seus sentimentos, sua cabeçuda. Infelizmente, parece que você não me trata da mesma forma! Ela se livra de mim e se levanta, tentando sair da van. Eu a agarro forte pelo braço. Outra vez não! Dorothy se deixa cair de joelhos e cobre o rosto com as duas mãos. É quando eu a solto. Simplesmente, não sei o que fazer sem passar a impressão de que eu esteja lhe dando alguma esperança. Decido apenas lhe estender a mão. Ela funga enquanto encara meu gesto. ㅡ Você não vai gritar comigo? ㅡ Hoje não. Um sorriso fraco surge em sua boca e ela pega a minha mão. Sentamo-nos lado a lado de novo e um silêncio mórbido se instala entre nós por alguns minutos. ㅡ Você costumava se esconder em lugares escuros assim para ficar sozinho. Por que lembrar disso agora? ㅡ Até o Pete e você se meterem no meio. Vocês dois sempre me encontravam. ㅡ Digo, apoiando os cotovelos nos joelhos. ㅡ Não foi melhor nos ter por perto? Sempre estivemos juntos, seguramos a barra um do outro... Ninguém conhece você melhor que nós. Agora entendo aonde ela quer chegar... ㅡ Usar nossa amizade para diminuir a importância da Amber não vai funcionar. ㅡ Vocês m@l se conhecem! Não tem medo que ela te magoe? ㅡ Pra cass&te… No entanto, acho que isso faz parte. ㅡ Giro minha cabeça em sua direção e ela me encara com aqueles grandes olhos claros e úmidos. ㅡ Não posso impedir você de ir embora, porém já que demonstrou interesse no que pode me magoar ou não... Perder a banda seria como perder um pedaço de mim. Pense nisso. Sinto uma pontada de fome e lembro que já faz algum tempo desde que comi alguma coisa. Prometi para a Amber que iria me cuidar. Eu me levanto e saio pela porta. ㅡ Michael, aonde vai? ㅡ Tem um café vinte e quatro ho®as do outro lado da rua. Vou pegar algo para nós comermos. Preciso amarrar você? Ela sacode a cabeça e sorri fracamente. ㅡ Você sempre está pensando em comida... ㅡ Eu penso em um monte de coisas, no momento, eu só quero evitar que a glicose caia. Ela me encara assustada e culpada ao mesmo tempo. ㅡ Você está sentindo alguma coisa? ㅡ Não. Eu já volto. É bom que se sinta assim, talvez faça com que pense melhor no que pretende fazer, já que não me respondeu francamente sobre ficar ou não. Eu peço dois capuccinos e dois sanduíches. Quando volto para a van, ela não está mais lá. Olho ao redor e então a vejo na areia da praia, fumando um cigarro e observando o movimento das ondas. Junto-me à ela e lhe ofereço um dos copos. ㅡ Está querendo me adoçar, Michael? ㅡ Não custa nada tentar. Sorrio para ela, que pega o café da minha mão. Retornamos para a van, comemos em paz e o calmante começa a fazer efeito, pois ela boceja. ㅡ O que foi que você me deu? Estou ficando com um sono absurdo. ㅡ Também deve ser o cansaço e o estresse cobrando seu preço. Por que não dorme um pouco? Eu vigio você. ㅡ Está bem... ㅡ Ela se deita bocejando. ㅡ E a Amber Lee? ㅡ Ela vai entender. Eu me encosto na parede e a observo adormecer. Até que enfim... Espero que acorde mais calma. A claridade do alvorecer começa a tomar conta do ambiente muito fracamente. Só então dou-me conta que passei a noite toda nesse infe®no. Fecho meus olhos um segundo, que pesam fortemente. Não vou dormir, só descansar um pouco. Depois, vou ligar para a Amber. Quando abro os olhos novamente, sinto meu corpo todo dolorido. Estico meus braços e olho pela janela. O Sol está alto. Quanto tempo eu dormi? Puxo o celular do bolso e vejo que já passa do meio-dia. Put@ merd@! Antes que eu possa fazer qualquer coisa o aparelho apaga. Pego minha mochila e busco pelo cabo USB. Devo ter deixado aquela porcaria no quarto do hotel. Dorothy continua dormindo. Eu assumo o volante e levo a van de volta. Para minha surpresa, não encontro Amber no quarto, nem mesmo um bilhete. Estranho... Aonde será que ela foi? Tomo uma chuveirada rápida e coloco uma roupa menos formal. Ainda estava com as que usei para ir para o bar na praia ontem. Tiro meu carregador da parede e o coloco no bolso. Passo no quarto do Pete para perguntar dela, porém ele também não está e deixou o celular sobre a cama. Na recepção, peço o telefone e tento ligar para Amber de novo, porém ela não atende. A recepcionista não sabe me informar sobre ela ou o Pete, pois já tinha acontecido a troca de turno. Que ótimo! Não bastasse ter passado a noite caçando a Dorothy, agora tenho mais dois desaparecidos para encontrar! Passo no restaurante do hotel e pego duas refeições para Dorothy e eu. Já faz tempo desde que comi e não vou conseguir procurar ninguém se tiver uma crise. Minha irmãzinha come um pouco, ainda meio sonolenta, fala nada com nada e volta a dormir. Sento-me no banco do carona e viro a tela do meu celular que está carregando no painel. A bateria está em cinquenta por cento. Não gosto de usar antes de dar carga total, entretanto estou muito preocupado. Olho para o horizonte, vendo o movimento do mar. Acharia bonito, não fosse o fato de não saber onde Amber está. Tiro o aparelho do carregador e o ligo, saindo da conta da Dorothy e logando na minha. Quando estou prestes a ligar, ouço uma risada que conheço muito bem. Viro-me no banco, com os pés para fora, a tempo de ver Pete e Amber chegando pelo calçadão, ambos de roupa de praia. Ela está agarrada ao braço dele, rindo como se nada grave tivesse acontecido. Cerro meus dentes com a visão da minha namorada e do cara que considero um irmão sorrindo um para o outro. Que porr@ é essa?
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