*Amber Lee PoV*
O trabalho no restaurante Butterfly está melhor que nunca, aprendi muitas coisas e não cometo mais erros. Tudo graças à senhorita Mace, que tem se mostrado a irmã mais velha que nunca tive. Ela não cobre os meus deslizes, me dá esporro quando é preciso, porém ela reconhece o meu esforço e me dá crédito por isso. Sou muito grata a ela por tudo.
Fico com pena de deixar Mylla sozinha todas as vezes que tenho que trabalhar, porém ela é uma boa gatinha, que sempre me espera ansiosa, sem destruir o apartamento. Deixo tudo organizado para ela, brinquedos, água e comida suficientes até o meu retorno e sou recompensada com sua sessão de carinhos quando volto.
Consegui finalmente comprar o meu teclado e o instalei no canto da sala da kitnet que estou morando agora. No entanto, uma enorme nostalgia e tristeza me invadem toda vez que tento tocá-lo e ele simplesmente está abandonado desde então. É como se eu sentisse as represálias dos meus pais e do Kevin quando me aproximo dele, e a culpa por nunca ter retornado suas ligações me atinge como uma bomba.
Algum dia desses, eu consigo…
Hoje decido levar mais cachorros que o habitual, pois quero chegar cedo no restaurante e ajudar a montar a decoração de Natal. Foi opção minha, mas eu deveria ter pensado melhor. Um dos cães, o São Bernardo, está particularmente agitado hoje.
Eu deveria ter marcado dois passeios ao invés de um só…
Os cães me puxam pela trilha do Central Park, normalmente usada pelas pessoas para se exercitar ou simplesmente passear. Há neve e folhas mortas pelas margens do asfalto, assim como árvores com galhos cobertos de cristais de gelo. Minhas bochechas estão queimando, não pelo frio, mas pelo esforço de manter tantos cães juntos. De repente, um maluco passa correndo por mim e um dos cães, justamente o maior, se atiça todo e tenta ir atrás dele. Eu o puxo pela guia, quase sendo arrastada pelo bicho.
ㅡ Crane! Devagar!
Os outros cães parecem entrar em um acordo para me deixar desesperada e se enroscam nas minhas pernas. Então, escuto uma risada masculina e olho na direção. Lá está o idïota todo de preto que passou correndo por mim e assustou os meus cachorros. A carranca no meu rosto mostra toda a minha raiva contra esse imbecïl, assim como minhas palavras.
ㅡ Homens são sempre uns bab@cas!
Ele parece se ofender, já que as sobrancelhas neg®as acima daqueles olhos azul-gelo se fecham em um "V".
Não gostou? Fod@-se!
O cara vai embora sem oferecer qualquer ajuda pela merd@ que fez. Consigo por milagre acalmar os cães e me desenrolar das guias sem cair de bund@ no chão. Continuo meu trajeto, ainda pensando naquele bab@ca e naqueles olhos que pareciam querer me comer viva.
Ele é bonito, não posso n&gar. Deve ser mais um desses metidos que se acham os donos do mundo só por causa da aparência. idïota!
Quando faço uma curva e saio da trilha, vejo o mesmo cara se exercitando em um banco. Seu olhar encontra o meu novamente e, por um segundo, me perco dentro dele. Mas, é só isso. A raiva ainda está quente dentro de mim e eu não resisto em mostrar minha língua abusada para ele. Agora sim, ele fica put0 e vai embora rapidamente. Eu sorrio satisfeita para mim mesma.
Um a zero para você, Amber Lee. Espero nunca mais encontrar esse c®etino!
Entrego os animais às suas donas, passo em casa para me arrumar para o trabalho e cuidar um pouco da minha gatinha.
ㅡ Mamãe hoje vai mais cedo trabalhar, viu? Comporte-se e eu te trago um belo petisco!
Ela mia com entendimento e se esfrega na minha mão. Troco sua água, coloco comida no prato e limpo sua caixa de areia. Espalho alguns brinquedos que ela gosta pela sala e pelo quarto, assim ela vai ter o que fazer enquanto eu estiver fora. Bicho ocioso dentro de casa é sinal de móveis destruídos quando a gente chega.
Sigo para o restaurante e, no caminho passo em frente às portas da McGregor Corporation. O lugar está mais cheio que nunca, até me lembra um formigueiro. Continuo meu trajeto e fico repassando em minhas memórias aquele belo rosto masculino de olhos penetrantes.
Pare de pensar naquele ot@rio, Amber Lee! E daí que ele é um gato? É também um m@l-educado sem tamanho!
M@l percebo uma mulher passar por mim. Na verdade, ela também anda com a atenção presa ao celular e nós esbarramos feio uma na outra. A bolsa dela cai no chão, porém, para a minha sorte, ela consegue segurar o aparelho. Eu encaro a morena bem vestida e com p&itos enormes. Não tem como não notar os p&itos dela, são um atentado ao pudor mesmo com roupa. Ela me encara com desdém e fica batucando com a ponta do sapato na calçada.
ㅡ Então? Você não vai pegar?
ㅡ Como?
Ela revira os olhos, rosnando por entre os dentes.
ㅡ Além de cega, é burra também? A minha bolsa!
Fecho meu rosto em uma carranca. Na verdade, eu estava disposta a pegar a bolsa sem que ela pedisse, entretanto, depois dessa demonstração desnecessária de falta de educação, quero mais é que ela e seus implantes explodam.
ㅡ Você por acaso não tem mão?
ㅡ É claro que tenho!
ㅡ Então, pegue essa porcaria você mesma!
Saio esbarrando em seu ombro, dessa vez de propósito. Ela fica furiosa, bate o pé na calçada e me xinga. Eu não dou corda e vou embora, deixando-a fazer papel de histérica sozinha.
Eu, heim! Que absurdo!
O Butterfly é um restaurante bonito, limpo, porém não é muito requintado. Tem, por especialidade, comida italiana, embora sirva pratos japon&ses e lanches rápidos também. Muitos funcionários da McGregor Corporation almoçam aqui, além de gostarem de curtir um happy hour após o trabalho. A senhorita Mace até contratou alguns músicos para esse horário específico.
Passo praticamente uma boa ho®a, com mais dois funcionários, do lado de fora prendendo as luzes brancas, que piscam em um ritmo sincronizado. Fazemos o contorno da vitrine, do toldo e porta de entrada e das três árvores ao longo da calçada. Coloco um adesivo escrito "Boas Festas" no vidro e penduramos mais enfeites, como pinhas, guirlandas e azevinhos. Eu adoro essa época do ano, onde a magia e o espírito de Natal parecem despertar o que há de melhor nos corações humanos. Menos naquela louca da bolsa e naquele idïota do parque.
O happy hour inicia às dezessete ho®as em ponto. Clientes começam a chegar e se acomodar. O movimento aumenta e eu fico com os pés doendo de tanto que ando pelo salão para anotar pedidos e servir mesas. Porém, é por uma boa causa.
Um casal me chama a atenção. Não é a primeira vez que os vejo aqui e nunca tive a oportunidade de atender a mesa deles, pois eles nunca se sentaram no meu setor de atendimento. Hoje, no entanto, é diferente. A moça é loira com grandes olhos azuis, bonita e muito bem maquiada. O rapaz é completamente o oposto, apesar de ter uma beleza rústica. O cabelo bagunçado castanho e as roupas de motoqueiro agarradas ao seu corpo marombado, me dizem que ele deve ser problema. Ele até deixa o capacete da moto sobre a mesa, o que já é uma gafe sem tamanho. Porém, é um cliente e não posso me dar ao luxo de n&gar atender.
Anoto seus pedidos de bebidas e petiscos. Assim que retorno e coloco tudo em sua mesa, o rapaz fica me encarando de um jeito muito estranho. Discretamente, passo a língua pelos dentes e evito sorrir, com medo de ter algo preso neles.
ㅡ Nunca vi um tom de verde assim tão vivo. Parece que estou olhando para uma floresta.
Ele está com o rosto apoiado sobre as mãos e os cotovelos sobre a mesa, me encarando intensamente. É perturbador.
Isso foi uma cantada? Ah, não!
ㅡ Deve ser a luz, senhor. Acontece frequentemente com olhos verdes.
Minha resposta é desprovida de emoções e minha expressão é séria, para que ele perceba que não estou disposta a flertes. No entanto, ele parece não entender minha linguagem corporal.
ㅡ Nada! Eles são exóticos mesmo, não é, Lauren?
ㅡ Concordo com o meu amigo Rico. O seu cabelo tem um tom muito bonito de vermelho também. É natural?
A tal Lauren me encara com olhos brilhantes e as mãos sobre o peito, como se estivesse esperando uma revelação divina. É até cômico.
ㅡ É natural, senhorita.
Ela dá um gritinho de euforia e seu acompanhante ri do jeito fofo dela.
ㅡ Lauren, assim você vai assustar a nossa ojitos aqui.
ㅡ Ojitos?
Fico confusa com a forma que ele me chama. Apesar disso, não me sinto ofendida, pois parece legal.
ㅡ Ele estava procurando alguém para dar esse apelido, acho que você é a vítima, meu bem. É um termo carinhoso em espanhol, para se referir a alguém com belos olhos.
ㅡ Ah!
Eu dou um sorriso sincero. Conforme o tempo vai passando, percebo que ele não estava me cantando. Ele tem um jeito muito meigo, o que contrasta bastante com sua aparência. Lauren também é um doce de pessoa, alguém com quem você faria amizade facilmente. Entre um atendimento e outro, acabo me vendo envolvida pelos dois.
Ainda não fiz amigos aqui, tirando a senhorita Mace, mas como ela é minha chefe, não gosto de misturar as coisas. Na verdade, acho que nunca tive amigos. Sempre era alguém com um potencial lucrativo que meu pai queria que eu conhecesse. Nada amoroso, é claro, uma vez que eu era prometida para o Kevin. Talvez, por isso, eu me sinta tão envolvida por esses dois. É a solidão da minha alma gritando por coisas que nunca teve, como uma amizade sincera.
Assim que termino de servir outra rodada de bebidas na mesa deles, vejo Lauren de cara emburrada para Rico. Ela está tão chateada que joga um pedaço de pão nele. Ele não se importa e começa a rir, o que contagia sua amiga. Eu também acabo rindo, porém me interrompo quando sinto alguém me cutucar nas costas. É a senhorita Mace. Ela parece chateada e Lauren tenta me defender.
ㅡ A culpa é toda minha. Fiquei monopolizando a sua garçonete o tempo todo.
Minha gerente suspira e suaviza a expressão.
ㅡ Não é isso. O tecladista se desentendeu durante o intervalo com os outros integrantes e se mandou. Vou ter que suspender o show antes do previsto… ㅡ Ela então se vira para mim. ㅡ A não ser que alguém o substitua.
Logo entendo aonde ela quer chegar e entro em pânico. Ela sabe que gosto de música e viu meu teclado nas vezes que veio me visitar para me ajudar a treinar a Mylla. Sacudo minhas mãos diante do corpo, como se n&gasse um crime capital.
ㅡ Nem pensar!
ㅡ Amber Lee, eu sei que você toca. Ninguém compra um teclado profissional só por impulso, quando trabalha em dois empregos para juntar dinheiro. Por favor, eu preciso de ajuda. Encerrar a apresentação mais cedo vai fazer com que clientes saiam mais cedo também. São apenas 19h50m e seria uma pena.
ㅡ Mas, eu…
Nesse momento, Rico se intromete e eu gostaria de me esconder em um buraco.
ㅡ Você sabe tocar, ojitos? Ah, por favor! Eu quero ouvir!
ㅡ É que faz muito tempo…
O golpe de misericórdia vem de Lauren.
ㅡ Vai ser legal, amiga! Se alguém se atrever a te vaiar, vai sentir o meu salto no meio da testa!
Amiga…
Foi a palavra que pesou no final. Sei que ela falou de forma inconsciente, porém… Ela me atingiu em cheio. Respiro fundo e encaro minha gerente.
ㅡ Preciso de uns cinco minutos para ler as partituras e me situar.
A senhorita Mace suspira aliviada e me abraça.
ㅡ Obrigada, querida.
ㅡ Vou fazer sua maquiagem enquanto você lê! ㅡ Levo um susto quando Lauren sai da cadeira e me agarra pelo braço. ㅡ Também vou arrumar o seu cabelo, esse r@bo de cavalo não faz jus a essa bela cor! Vai ficar mais linda do que já é!
Devo estar vermelha como um pimentão maduro. Minha chefe vai pegar as partituras e avisar os outros músicos sobre mim. Eu e Lauren seguimos para o banheiro, onde ela puxa um kit de maquiagem completo da bolsa e começa a me embonecar. A senhorita Mace chega com os papéis, que eu examino, enquanto Lauren "dá um jeito" nos meus cabelos. Ela os solta do r@bo de cavalo e faz uma prancha rápida para colocar os fios no lugar. Não faço ideia de como coube tanta coisa em sua bolsa.
Fico mais tranquila com as músicas, são clássicos que eu conheço, algumas até cheguei a tocar lá em casa como Frank Sinatra, Elvis Presley e outros sucessos.
Quando Lauren finaliza e me olho no espelho, não me reconheço. Batom vermelho, bochechas coradas, esfumaçado neg®o ao redor dos olhos. O contraste do antes e depois é surpreendente e quase quero chorar.
Eu vivia arrumada assim, antes de embarcar nessa aventura. Por causa da correria diária, eu relaxei. Nem as unhas faço mais.
Olho para Lauren e a abraço, completamente agradecida por ela me lembrar de que sou uma mulher bonita e mereço me cuidar. Então, chega o momento de subir no pequeno palco do restaurante e tocar. Vejo meus dois novos amigos com os olhos brilhando e fazendo sinal positivo para mim de sua mesa. Só a torcida deles é suficiente.
Apenas respire, Amber Lee… Respire…
A primeira canção é "Fly me to the moon" do Frank Sinatra. Aguardo a minha deixa com as mãos trêmulas. A banda é só instrumental e um trompete faz a parte da voz, com meu teclado fazendo uma espécie de backing vocal. Em minha cabeça, a lembrança da minha avó ao meu lado no piano de cauda vem à tona com força total, dando-me ânimo renovado para mandar o medo embora. Quanto mais meus dedos deslizam pelas teclas, mais aquele sentimento de estar completa, enterrado dentro de mim, aflora. É como se eu viajasse junto com as notas.
Em um determinado momento, me sinto sendo vigiada. Obviamente, há inúmeros pares de olhos sobre mim, porém essa sensação é diferente. É como se houvesse uma presença chamando por mim. Viro minha cabeça a tempo de ver uma figura masculina de longos cabelos neg®os e gorro se afastar da vitrine. Foi rápido, mas pude perceber que era um homem. Havia algo familiar nele, no entanto não consigo me lembrar de onde o possa conhecer. Não tenho tempo para buscar em minhas memórias, já que a música volta a me envolver e aquela presença se dissipa.
A música termina e saio do meu transe mediante os aplausos ecoando pelo salão. Rico e Lauren estão de pé, me aplaudindo freneticamente. Os rapazes da banda me dão sorrisos de aceitação e logo iniciamos a música seguinte. E mais outra. Até chegarmos ao final do repertório. Minha alma está lavada e até me sinto um pouco triste por acabar. Toquei por praticamente uma hor@ sem parar e tocaria por muito mais tempo. Quando saio do palco, a senhorita Mace me abraça quase aos prantos.
ㅡ Oh, querida! Isso foi maravilhoso. Você tem um talento fantástico!
Fico muito sem graça com os elogios, principalmente quando Rico me tira do chão em um abraço apertado. Assim que ele me solta, é a vez de Lauren me abraçar também. Olho esperançosa para a vitrine, não sei nem por qual razão. Porém, ele não está lá.
Será que era um admirador? Seria legal ter um fã…
Então, a voz do proprietário do restaurante se faz audível atrás de nós e me tira da minha bolha de satisfação.
ㅡ Amber Lee Taste! No meu escritório agora!
Eu arrepio com a voz grave e ameaçadora dele. Minha gerente tenta me acalmar, dizendo que ele provavelmente só quer me colocar como fixa no happy hour e está aborrecido por perder uma garçonete no processo. Eu tenho minhas dúvidas.
Assim que entro em sua sala, me deparo com um outro homem sentado diante da mesa do proprietário. Eu arregalo os olhos e minha voz sai gritada de desespero.
ㅡ O que você está fazendo aqui?