7 - Noite de pesadelos

1838 Words
*Michael PoV* ㅡ Vem brincar comigo no balanço, Mike? ㅡ Não, Rapha! Eu quero ir no carrossel! O garotinho de cabelos e olhos castanhos cruza os braços e faz um biquinho de birra para mim. ㅡ Não gosto do carrossel, fico tonto! Eu vou ficar no balanço! ㅡ Seu medroso! Mostro a língua para ele, que ri ao invés de se aborrecer. Trocamos alguns socos de brincadeira, em meio a gargalhadas. A última lembrança feliz que tenho, antes do meu espírito ser dilacerado. ㅡ Eu brinco no balanço, enquanto você fica no carrossel. Esse é o momento em que eu deveria ter dito não. O momento em que eu deveria ter ficado perto dele. Minutos depois, viria o momento em que o mundo desabaria sobre a minha cabeça. ㅡ Tudo bem, Rapha. Vou te vigiar de lá, entendeu? Ele bate continência e se pendura naquele banco suspenso por correntes, enquanto eu sigo para o carrossel distante uns cem metros. Subo em um cavalo colorido e o brinquedo não demora muito para começar a girar, com sua música viciante invadindo meus ouvidos. Eu rio, achando que sou o dono do mundo e que vou conquistar algum país, montado em meu cavalo que sobe e desce. Vejo meu irmão brincando naquele balanço, indo cada vez mais alto, toda vez que o carrossel gira. Até ele não estar mais lá. ㅡ Rapha? Eu praticamente me jogo para fora do brinquedo em movimento, o que faz o atendente me chamar de maluco. Eu não dou importância, nem mesmo para o joelho que machuquei na queda. Corro mancando até chegar no balanço o mais rápido que minhas pequenas pernas permitem. Ele não está lá. ㅡ Raphael, isso não tem graça! Levo minhas mãos até a nuca e fico olhando em todas as direções. Lágrimas de medo e desespero lavam meu rosto. Minha garganta fica seca e apertada. ㅡ Raphael, cadê você? ***** Acordo assustado, suando frio e sem conseguir respirar direito. Eu me viro, esquecendo que havia pegado no sono no sofá, e acabo caindo de cara no chão. ㅡ Porr@! Rolo para ficar de barriga para cima e aliso a minha testa. Com certeza vou ter um belo g@lo pela manhã. O apartamento está às escuras e as sombras são sufocantes. Elas parecem querer me engolir vivo. Moro no terceiro andar de um edifício na Décima Primeira Avenida no Chelsea. O que eu gosto daqui é o fato de ser bem perto do Rio Hudson. Em noites como essa, quando os pesadelos me consomem e as sombras tentam me sufocar, ou eu me interno no estúdio para tocar, ou saio para o observar o rio. Talvez, um dia, eu encontre meu irmão nas mesmas águas que o levaram. O meu celular sobre a mesinha de centro me dá outro susto, acendendo de repente e reproduzindo uns dos meus solos de guitarra infernais que eu havia colocado como toque. Hoje não é o meu dia… Quando vejo o nome do Rico na tela, que marca quase meia-noite, fico preocupado e atendo rapidamente. Ele não me ligaria tão tarde se não fosse algo sério. ㅡ Rico, o que foi? ㅡ Uma merd@ enorme! Estou com a Lauren no Mount Sinai West, acompanhando uma amiga. Aquele filho da put@ do Fabian quase a matou! Se eu não tivesse chegado a tempo… Ele se interrompe com um grunhido alto. Fazia tempo que eu não o sentia com tanta raiva de alguém. Não vou dizer que acho o Fabian um santo. Contudo, matar uma pessoa? Parece surreal. ㅡ Chego em dez minutos e você me explica direito o que aconteceu. Pego as chaves do carro e a carteira sobre a mesa e saio correndo. Desço os três lances de escada em um pulo, por não ter paciência para esperar o elevador. Ainda bem que o hospital é perto daqui. Estaciono o carro do outro lado da rua, oposto às portas de emergência do hospital. Uma lufada de ar gélido faz meu corpo travar diante da placa com uma enorme cruz vermelha. Já a vi tantas vezes durante a infância e a adolescência, que ficou marcada no meu corpo como um local seguro. Eu só não gostava das milhares de perguntas e me mantinha calado ou mentia para não enfurecer o Sunny. Hoje em dia, isso pouco importa. Ele não pode mais me atingir. Jogo o turbilhão de sentimentos que esse lugar desperta em mim para o fundo das minhas memórias. Meu amigo precisa de mim e não posso me dar ao luxo de perder o foco. Eu cruzo as portas de vidro e vou direto para o balcão da recepção. Então, fico parado como um idïota, enquanto a atendente me encara. Como é que eu vou achá-los aqui se não sei o nome da amiga deles? ㅡ Michael! Olho na direção do corredor e vejo Rico correndo ao meu encontro. Só agora eu consigo respirar mais tranquilamente, pois tenho a impressão de ter segurado o fôlego o caminho todo. ㅡ Rico! O que di@bos aconteceu? Ele me puxa para um canto e fala baixo para não perturbar os demais. ㅡ Tanto eu como você sabemos que o Fabian pula a cerca. Sempre tive pena da Alicia, mas não era da minha conta. Porém, o que ele fez hoje não tem perdão, Michael. Ele acusou uma chica inocente de seduzi-lo e tentar matá-lo, quando, na verdade, ele havia invadido o quarto dela para se aproveitar. Ela escapou por sorte, acertou a cabeça dele com um abajur e fugiu. A história acende um alerta na minha cabeça. ㅡ Espere, ele me disse que ela se ofereceu para ele. ㅡ Mentira porca que ele inventou para esconder a verdade! Ele forçou a barra e ela só se defendeu. Isso foi no primeiro dia dela aqui na cidade. Ela estava refazendo a vida e começou a trabalhar no Butterfly depois. Você acredita que aquele can@lha descobriu e fez ela ser demitida com um monte de mentiras? Eu franzo a testa, custando a acreditar que alguém pudesse ser tão burro assim. Fabian nunca foi um gênio, no entanto isso está parecendo roteiro de novela mexicana. ㅡ Olha, Rico, talvez a garota tenha culpa. Fabian não iria se arriscar desse jeito, mentindo para o dono de outro restaurante e perder sua reputação caso a verdade viesse à tona. ㅡ Não, Michael, ela é inocente. ㅡ Como você pode afirmar com tanta certeza? ㅡ Por que eu ouvi ele se gabar disso enquanto tentava estuprá-la no beco atrás do Butterfly, depois de ter nocauteado a Lauren. Eu quase caio para trás e me encosto na parede. Não consigo sequer fechar a boca de tão surpreso que estou. Conforme eu absorvo a informação, raiva e nojo começam a fervilhar no meu sangue. ㅡ Por favor, me diz que você arrebentou a cara dele… ㅡ Ele vai ter que usar dentadura se quiser mastigar de novo, porque eu acabei com seus dentes. Meu olhar recai sobre suas mãos e vejo os machucados nas juntas, com resquícios de sangue coagulado. Ele realmente bateu com muita força. Um sentimento de satisfação brota dentro de mim, entretanto eu ainda acho pouco. Esse c®etino não sabe o que o espera. Posso ser insensível, grosso, estüpido, além de ter partido metade dos corações femininos dessa cidade, porém nunca, nunca mesmo, eu acharia que esse tipo de violência é justificável, porque não é. Ainda me lembro de quando a minha mãe não queria nada com o Sunny, mas ele a forçava mesmo assim só porque ela era pro$tituta. E eu só fui entender as lágrimas dela depois que ela foi embora. ㅡ Elas… Estão bem? Ele suspira, bagunçando ainda mais os cabelos e aponta com o queixo em uma direção. ㅡ Elas estão na enfermaria. Lauren levou três pontos na testa. Ela se jogou nele quando o viu assediando a amiga. Mas, ele a jogou no chão e a chutou na cabeça. A ojitos ficou pior. Ele bateu nela pra valer, Michael. Quando eu os encontrei, ela estava quase inconsciente e ele em cima dela, rasgando sua roupa com uma faca! ㅡ Filho da put@ miserável! ㅡ Começo a andar de um lado para o outro, pensando no que fazer para a vida daquele safado virar um infe®no. Então, eu percebo algo que ele disse. ㅡ Ojitos? Você chamou a garota de ojitos? ㅡ Ah! ㅡ Ele coça a nuca, meio sem graça. ㅡ Ela tem olhos muito bonitos mesmo. Nós acabamos ficando amigos. Pena que agora ela esteja com um problema sério. ㅡ Que problema? Ela entrou em coma? ㅡ Não, está acordada, mas o dono do Butterfly a demitiu por causa das mentiras do Fabian. A polícia baixou lá, foi um caos. Com esse escândalo, ele não quer ela de volta mesmo sabendo da verdade. A coitada tinha dois empregos, não tem família nem ninguém aqui. Eu saí da enfermaria porque não aguentava mais vê-la chorar nos braços da Lauren. Se eu tivesse desconfiado daquela história que o Fabian contou e tivesse agido, essa pobre garota não teria sido prejudicada agora. Sinto-me responsável por ela de alguma forma. ㅡ O que ela faz? Rico me encara confuso. ㅡ Além de servir mesas e ter tocado teclado maravilhosamente durante o happy hour no Butterfly? Enquanto ele apoia o queixo sobre uma mão, pensando, eu fico boquiaberto. É a tecladista? Aquela mesma que eu ouvi da rua? Só com a mera lembrança de sua performance, meu coração dá um salto inexplicável dentro do peito. ㅡ Marketing. Isso. Ela disse que era formada em Marketing, Michael. Mas, não tem experiência. Respiro fundo, para manter o meu tom de voz o mais firme possível. ㅡ Peça o currículo dela e entregue para o Mortimer na McGregor Corporation. Ela poderia trabalhar no seu setor. Os olhos dele brilham e eu acho engraçado. ㅡ Vou ganhar uma amiguinha de trabalho que não é chata? Estou no céu! ㅡ Se a Lauren te escuta… ㅡ Lauren não conta, somos irmãos. Ela é como um homem para mim, eu sou como uma mulher para ela e nós dois somos héteros. O esforço que eu faço para não cair na gargalhada faz meu estômago doer, entretanto seu ar esnobe, com os braços cruzados ao redor do peito, estão me fazendo pôr a prova o meu autocontrole. ㅡ Você é uma figura, parceiro… ㅡ Só me diga uma coisa. Como você vai convencer o Edward a contratar uma chica inexperiente e desconhecida? ㅡ O McGregor vai. Tenho certeza que ele vai ajudá-la depois que eu falar com ele. ㅡ Essa é a vantagem de ter um amigo nas graças do jefe! Ele me dá um tapinha nas costas e eu decido ir embora quando ele vai verificar como elas estão. Elas vão ficar bem, pelo o que ele falou. Se o problema da amiga dele agora se resumir ao emprego, meu CEO vai resolver. Estranhamente, ele jamais me n&gou qualquer coisa. Não creio que irá começar agora, ainda mais quando souber que é por uma boa causa.
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