39 - Crise no escritório

1786 Words
*Michael PoV* Percebo minhas mãos tremerem sobre o teclado. Mesmo sentado, posso sentir a vertigem assumindo o controle. Retiro o celular do bolso do terno com lentidão. A cabeça pesa. Abro o aplicativo de medição de glicose e solicito uma nova leitura. O número que aparece na tela me assusta, pois o nível é muito baixo. Abro a última gaveta da mesa e pego uma barra de cereal. Tenho andado tão tenso por causa do show e dormido tão pouco, que estou me alimentando m@l. Hoje, por exemplo, não comi nada desde que levantei, e já passa das nove da manhã. Espero uns cinco minutos depois de terminar de comer e refaço a medição. Ainda está baixa. Merd@! Quando essa porr@ está alta, é mais fácil resolver... Disco o ramal do setor médico no modo automático, já repeti isso algumas vezes. Não quero nem imaginar o tamanho do esporro que vou tomar do McGregor. Dessa vez, meu corpo está cobrando o preço de noites m*l-dormidas, alimentação desregulada e estresse. Não consigo sequer falar quando o funcionário do outro lado da linha atende. Os sons desaparecem e a visão escurece. Quando volto a enxergar alguma coisa, percebo não estar mais na minha sala. Estou em uma maca, provavelmente no setor médico da empresa. Passo as mãos no rosto e percebo tubos espetados nas costas delas. Ergo-me para me sentar com um pouco de dificuldade, sinto como se tivesse chumbo na cabeça. Uma mão repousa nas minhas costas para me dar apoio. ㅡ Hei, Denver, devagar! ㅡ Reconheço a voz do Doutor Mikelly, médico-chefe do 20º andar. ㅡ Você andou abusando. ㅡ Já estou bem. ㅡ Tem certeza? ㅡ A voz de Ethan é severa e me faz estremecer. Não ouso sequer olhar para ele. ㅡ Pode nos dar licença um minuto, Mikelly? ㅡ Claro, senhor McGregor. Sigo o médico com olhos suplicantes e meu chefe puxa a cortina da maca na enfermaria para nos dar privacidade com aspereza. Ele cruza os braços diante do peito, seu olhar acinzentado, frio como o aço, pesando sobre mim. ㅡ O que aconteceu, Michael? ㅡ Foi uma bobagem minha. Estava pensando em um monte de coisas mais cedo e não comi nada. Só me dei conta quanto a glicose caiu. ㅡ Pelo amor de Deus! Quer se matar? Poderia ter batido com a cabeça na mesa quando desmaiou no escritório. Ou seria até pior, se você tivesse perdido os sentidos ao volante, pois poderia matar mais alguém além de si próprio. Você não é irresponsável desse jeito. Então, eu pergunto mais uma vez: O que aconteceu? ㅡ Sinto muito, Ethan. Não vai mais acontecer, vou redobrar os meus cuidados daqui por diante. ㅡ Redobrar cuidados não é o suficiente, você tem que eliminar o problema. Diabetes não é brincadeira. Só então o encaro pela primeira vez desde que ele chegou. ㅡ Você acha que eu não sei? Convivo com isso há mais de dez anos. O problema vai ser resolvido depois do show de domingo. ㅡ O que pretende fazer até lá? Talvez, se matar esteja na lista, pois não vejo outra explicação para descuidar da sua saúde. ㅡ Não é isso, é todo um conjunto de coisas. Na verdade, a solução está bem diante de mim, eu só não estou conseguindo lidar... Com o que eu sinto por ela... Guardo o pensamento para mim mesmo e me calo. Não preciso confirmar para ele que meus problemas pessoais estão interferindo no meu rendimento. Meu CEO já percebeu isso. Ele suspira e coloca as mãos nos bolsos da calça. ㅡ Vou pedir para um segurança da empresa te levar em casa, assim você não terá que dirigir. ㅡ Já estou melhor. ㅡ Não foi uma sugestão, Michael. Você está dispensado por hoje. ㅡ Você sabe que, mesmo em casa, não vou ficar parado. Ou vou ligar o computador e monitorar a rede da empresa, ou vou para o estúdio tocar. A diferença é que moro sozinho. Se eu passar m@l lá, não tenho a quem recorrer. Aqui, o doutor Mikelly pode ficar de olho em mim. Ele suspira e dá de ombros. ㅡ Você é uma das poucas pessoas que conseguem argumentar comigo. Tudo bem. Pode ficar. Mas, respeite seu corpo e os sinais que ele te dá, porque outro susto como esse e te mando direto para o hospital. Estamos entendidos? ㅡ Sim, senhor. Havia estado desacordado por cerca de uma ho®a e levou mais outra para o médico me liberar depois de McGregor ter se retirado. Assim que retorno para o meu setor, Daniel e Oscar ficam surpresos. Foram eles que me encontraram desacordado no chão do escritório e acionaram o setor médico. ㅡ Chefe, não acha que deveria ir para casa descansar? ㅡ Não, Daniel. Eu já estou melhor. Porém, esse episódio só serviu para me mostrar como ando sobrecarregado. Então, decidi delegar algumas funções. Você se incomoda de cuidar do quadro de estagiários? Eu sei que já estou pondo a responsabilidade dos servidores sobre você, mas… ㅡ De forma alguma. Pode contar comigo. Eu aceno com a cabeça e viro minha atenção para o Oscar. ㅡ Oscar, como você tem tino para softwares e conhece bem as linguagens de programação, então quero que me ajude com a rede. ㅡ Será um prazer, chefe. Ele bate continência e eu sorrio. Acertamos alguns detalhes e eles se retiram. Assim que a porta se fecha, coloco os fones e volto a me ocupar com o sistema por algum tempo. Uma sombra paira sobre a minha mesa e eu levanto o olhar. Por um momento, desejei que fosse Amber Lee. Com os fones no ouvido, não vi Rico entrar. Não imagino o que ele possa querer. Retiro os fones e me levanto, apertando a mão dele. ㅡ Está precisando de alguma coisa, irmão? ㅡ Sim, comer. E você também. Vamos? Olho para o relógio na tela e só então vejo ser 12h30m. Algo me diz que ele não veio até aqui só para ter minha companhia para o almoço. Como prometi ao McGregor que seria mais cuidadoso, confirmo em silêncio e saio com meu amigo. Saímos para almoçar no Butterfly e, assim que fazemos nossos pedidos e o garçom se afasta, eu o interpelo. ㅡ Vai, desembucha. Ele inspira fundo e coloca as mãos sobre a mesa. O assunto deve ser sério. ㅡ Eu queria conversar sobre a Amber Lee. Eu sabia... ㅡ Não há nada para falar. ㅡ Está tudo bem entre vocês? ㅡ Rico, corta a conversa fiada. Ela fez queixa de mim para você? ㅡ Só do seu mau humor e do seu jeito cavalar de incentivá-la. Além daquela mentira. Ela quase cortou a minha cabeça. Respiro fundo e solto o ar bruscamente. ㅡ Você não deveria se meter nisso, cara. Não te diz respeito. ㅡ Tem razão. Não tenho nada a ver com a forma como você lida com a Everlasting ou a sua vida. Porém, tenho tudo a ver quando faz uma chica como a Amber Lee sofrer. Ela sempre foi apaixonada por música. Perdi a conta das vezes que a peguei cantarolando ou batucando um teclado imaginário em sua mesa ou na sala de descanso. Ela levou cada bronca da Katherine por isso... Eu achei que estava fazendo um bem enorme à ela ao indicá-la para a banda. Ultimamente, só a vejo em uma pilha de nervos tão extrema, que faz com que eu me arrependa amargamente. Nem todo mundo funciona à ferro e fogo, Michael. Você não pode tratá-la como faz com a maluca da Dorothy. ㅡ Eu sei... Ele abre os olhos surpreso e eu baixo o olhar para a mesa. Seus braços se cruzam na altura do peito, esperando que eu continue, o que eu não faço. ㅡ Porr@, mano, qual é o seu problema com a Amber Lee? Ela por acaso é tão ruïm assim, que você está com pena de tirá-la da banda? ㅡ Não, ela é perfeita. Talvez, um pouco crua e inexperiente, mas é perfeita. Só então levanto meu olhar e o encaro. Depois de alguns segundos, ele abre a boca em um “oh” e começa a rir como uma gralha. Chega a bater com o punho sobre a mesa. É constrangedor. Fico encarando-o, esperando que termine. Depois de uns dois minutos, ele limpa uma lágrima de riso no canto do olho. ㅡ Jamais imaginei ver você de quatro por uma chica. ㅡ Não estou de quatro por ela, seu idïota. Agora sou eu quem cruza os braços. ㅡ Está certo. Vou fingir que acredito. Só não entendo uma coisa. Se vocês se gostam, por que brigam tanto? Nesse momento, não consigo conter meu interesse. ㅡ Ela disse a você que gosta de mim? Ele dá de ombros e desconversa. ㅡ Sabe, na minha opinião, os dois deveriam se sentar e conversar com sinceridade, colocar tudo em pratos limpos. Poderia até acontecer algo legal entre vocês. O problema de vocês é justamente esse orgulho sem sentido. ㅡ Não é orgulho, Rico. É bom senso. Quando foi que você me viu namorar alguém? Cortejar uma garota? Acho que nem sei como se faz isso, nunca precisei. Você já pensou em como seria constrangedor para nós dois ter que tocar juntos, depois de um romance m@l sucedido? ㅡ Mais que agora? Sinceramente, do jeito que a coisa está, não sei como poderia ficar pior. Aliás, eu sei. Você em algum momento vai fazer a grosseria final e espantá-la de vez, não só da banda, como também da sua vida. Bufo resignado, pois, no fundo, sei que ele tem razão. Só não faço ideia de como começar. ㅡ Acho que é tarde demais para isso, Rico. Já causei muito estrago. Ela se apaga toda vez que estou por perto. ㅡ Não há ninguém que possa ter feito um estrago maior que eu, Michael. A diferença é que Amber Lee está viva. Se você deixá-la escapar, te deserdo como amigo. Ele consegue me tirar um sorriso do canto da boca. Sei que falou da Helena, coisa que normalmente não faz. Se tocou nesse assunto tão doloroso para ele, é porque realmente está tentando me abrir os olhos. Lembro-me das palavras da Amber Lee no primeiro dia de ensaio. Que estava realizando um sonho. De repente, sinto-me como se estivesse pisando em seus sonhos, da mesma forma que a Dorothy fez comigo e Pete. Eu suspiro lentamente, jogando minha cabeça um pouco para trás. ㅡ Eu sou um idïota… ㅡ Diga-me uma novidade agora, cerebro. ㅡ Não force a barra, Rico... Ele sussurra um “Si, señor” e o garçom chega com nossa comida. Eu preciso mudar completamente minha atitude. É a única forma de termos alguma chance.
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