*Amber Lee PoV*
Caminho sem rumo pelas ruas escuras da cidade, completamente perdida em mim mesma. O abraço dele me desestabilizou tanto, que eu me peguei querendo acreditar em suas palavras. Seu calor me confortou de uma forma muito intensa. Tive que sair correndo para não desmoronar.
Como ele pôde esconder algo assim de mim? É a minha vida, droga!
Penso em ir para casa e tocar um pouco, então me recordo que esqueci meu teclado na casa dele.
Estou com a cabeça tão cheia… Preciso falar com alguém…
Lembro-me dos meus amigos, principalmente do Rico. Ele sabia toda a verdade e não me disse nada.
Pensei que ele se importasse comigo, ao invés disso, permitiu que eu fizesse papel de idïota!
Decido ir para a casa da Lauren, que também mora no mesmo bairro que eu. Assim que ela abre a porta de seu apartamento e vejo seu rosto sorridente, eu desabo em seu peito aos prantos. Ela fica assustada.
ㅡ Querida! O que foi que o Michael fez com você?
Ela me leva até o sofá e me traz uma xícara de chá de camomila para me acalmar. Depois de tomar alguns goles, eu respiro fundo antes de falar.
ㅡ Foi o Michael, Lauren! Era ele o tempo todo!
ㅡ Do que está falando?
ㅡ O idïota no parque que assustou meus cachorros, o admirador misterioso na vitrine do Butterfly, o amigo do Rico que me arrumou a vaga na McGregor Corporation... Tudo obra dele!
ㅡ Minha nossa! Por essa eu não esperava…
ㅡ Imagine a confusão que ficou na minha cabeça quando eu descobri... Agora eu entendo porque ele sempre foi tão presunçoso comigo. Na certa, estava achando que, se não conseguisse me seduzir, poderia me chantagear com meu emprego… Pior é que o Rico sabia de tudo! Quando eu pôr as minhas mãos nele…
Ela me dá um sorriso torto e arruma nervosamente uma mecha de cabelo solta de seu coque atrás da orelha. Então, a porta do quarto dela se abre devagar e a alta figura do Rico surge. Ele está com bobs na cabeça e uma máscara verde no rosto. Eu teria rido de me acabar, pois sei que Lauren o usa em seus “experimentos” de beleza. No entanto, estou furiosa demais com ele para isso.
ㅡ Ola, ojitos…
ㅡ Eu descobri tudo, Rico! Como pôde mentir para mim tão descaradamente?
Ele suspira desanimado e caminha até mim. Eu me ergo e fico de frente para ele, com os braços cruzados.
ㅡ Eu te falei que eu não quebro promessas, ojitos. Michael me pediu para não contar, então…
ㅡ Então, você deixou que eu fizesse papel de tola! Pelo visto, minha amizade não tem tanto valor assim para você!
Seus olhos se arregalam e ele me segura pelos ombros, com o desespero estampado no olhar.
ㅡ Não é nada disso! Olha, me escute. Não me peça para escolher entre vocês dois, não é justo! Como você se sentiria se eu saísse contando seu segredo por aí, heim?
Agora sou eu quem fica surpresa e me livro de seus braços.
ㅡ Que segredo, Amber Lee?
Olho dele para Lauren, que está completamente perdida na conversa. Não tive tempo de falar para ela dos meus sentimentos pelo Michael, como fiz com o Rico.
Ela vai ficar uma fera comigo por ter contado para ele primeiro…
ㅡ Eu… Eu…
ㅡ Você gosta dele, certo?
Fico chocada e olho automaticamente para o Rico, que ergue as mãos na defensiva.
ㅡ Não me encare assim. Eu não contei nada para ninguém.
ㅡ Nem precisava dizer! ㅡ Lauren se levanta do sofá e se coloca no meio de nós dois, me encarando seriamente. ㅡ Francamente, Amber Lee. Está escrito na sua cara toda vez que você fala dele ou o vê. Eu só estava esperando que você viesse me contar… Pelo visto, você também não valoriza a minha amizade tanto assim.
ㅡ Não!
Nesse momento, a feição aborrecida dela se desfaz e ela começa a rir do meu desespero.
ㅡ Você precisava ver a sua cara! ㅡ Lauren me segura pelas mãos e me leva de volta para o sofá, onde nos sentamos. ㅡ Bom, agora você sabe como é estar na posição do Rico. Você está sendo muito dura com ele, meu bem.
Fico embasbacada com essa virada de eventos e quase não encontro a minha voz. É uma vergonha enorme que me toma, pois, no fundo, eu sei que posso contar com o Rico para o que der e vier.
ㅡ Eu… Eu… ㅡ Liberto um pesado suspiro e encaro meu amigo esplastado naquela coisa verde. ㅡ Desculpe, Rico… Fiquei tão aturdida com a verdade, que joguei minha frustração em cima de você…
Ele acena com a cabeça, concordando. Então, Lauren me dá outra pedrada.
ㅡ Será que você não está sendo muito dura com o Michael também? Afinal, como você soube disso tudo?
Engulo em seco e tiro alguns fios rebeldes do rosto.
ㅡ Ele deixou escapar, durante o ensaio, que me viu tocar no Butterfly e eu liguei os fatos. Ele não teve outra escolha a não ser me contar.
ㅡ Entendo… Olha, quer saber? Você teria pensado diferente se soubesse na época o que ele fez? Você disse que só queria agradecer ao seu benfeitor, mas, será que, bem no fundo, você só não queria ficar devendo um favor para um homem?
ㅡ Eu ouvi o que falou do Michael. ㅡ Rico se mete na conversa e minha atenção volta para ele. ㅡ Que ele estava planejando te chantagear com o favor que te fez se não conseguisse te seduzir. Se fosse assim, não teria sido mais fácil fazer isso desde o começo? Michael tem inúmeros defeitos, eu admito, porém falta de caráter não é um deles. Por isso ele me pediu segredo, para que você não pensasse m@l dele. Ele não estava errado. Você está julgando erroneamente o que ele fez de boa vontade e sem interesse algum. Ele sequer te conhecia, ojitos, quando me disse que ia pedir ao McGregor para te dar um emprego.
Fecho os meus olhos e respiro fundo. Não consigo raciocinar direito, tudo está revirado na minha cabeça. Então, as palavras sussurradas dele ao pé do meu ouvido retornam como um bumerangue cortante e me fazem estremecer.
“ㅡ Eu não me chamo Fabian Caster… Só porque ele fez aquela merd@ com você, não quer dizer que eu vá fazer o mesmo.”
Lembro-me também da forma como ele disse que sentia muito pelo o que eu tinha passado. Foi sincero, nem mesmo Michael poderia fingir tão bem.
ㅡ No fundo, eu acho que você está procurando uma desculpa, amiga.
Arregalo os olhos e encaro Lauren.
ㅡ Desculpa? Para o quê?
ㅡ Para fugir do que sente por ele. É muito mais do que apenas “gostar”, querida.
Eu me levanto indignada e sigo na direção da porta, catando minha bolsa pelo caminho.
ㅡ Eu não sinto nada disso pelo Michael! Você está delirando! Vocês dois!
Saio batendo a porta e, quando me encontro na rua, puxo o ar com todas as forças.
Não estou apaixonada por ele! Não estou!
Continuo a caminhar até estar segura dentro da minha própria casa. Jogo-me na cama e sufoco meu grito contra o travesseiro.
A quem eu quero enganar? Só se for a mim mesma… No entanto, eu e Michael não combinamos, não há nada que nos mantenha unidos. É melhor me ater ao profissionalismo e deixar o que sinto por ele morrer…
*Michael PoV*
Fico zanzando pela sala, sem saber o que fazer. Penso em pegar meu celular e ligar para Amber Lee, contudo, a julgar pela forma como ela saiu daqui, duvido que vá me atender. No final, a ansiedade me vence e eu saco o meu aparelho do bolso da calça. Pete interfere, colocando a mão sobre a tela.
ㅡ Parceiro, dê um tempo para ela. Amber Lee precisa de espaço agora.
ㅡ Mas… E se ela sair da banda e não quiser me ver nunca mais?
Um sorriso convencido surge no rosto dele, o que me irrita profundamente.
ㅡ O que mais te preocupa? Que ela saia da banda ou que não queira mais te ver?
ㅡ Não é a mesma coisa?
ㅡ São duas coisas bem distintas, Michael. Ela pode continuar na banda, de forma profissional, e te ignorar. Acho que é disso que você tem mais medo.
Engulo em seco com essa perspectiva. Ser ignorado é algo que te deixa impotente, sem chão. O ar me escapa ao pensar que ela possa continuar tocando com a gente, porém não consigo imaginar uma realidade onde ela me despreze totalmente.
Seria pior que a morte…
Foi uma noite na qual não consegui dormir. Amber Lee não saiu da minha cabeça um segundo sequer. No trabalho foi a mesma coisa. Ficava pior conforme as ho®as passavam e o horário do ensaio se aproximava. Não liguei para ela. Fiz o que Pete sugeriu, lhe dei espaço. A coisa mais difícil que já fiz em toda minha vida. Lutei o tempo todo contra mim mesmo.
Agora, aqui estou eu, andando de um lado para o outro na sala do meu apartamento, esperando por ela. Meus olhos não desgrudam da porta, na esperança de vê-la passar por ela. Confiro o celular, vendo que já passou do horário do ensaio uns quinze minutos.
Ela nunca se atrasou… Será que ela não virá?
Quando penso em discar o número dela, a campainha toca. Corro para a porta e a abro sem fôlego, apenas para me decepcionar ao ver o Pete. Eu rosno um palavrão por entre os dentes e me afasto da porta. Ele entra com cautela, olhando ao redor.
ㅡ Amber Lee ainda não chegou, não é?
ㅡ Não…
Minha resposta sai espremida pela garganta e eu cruzo os braços, batendo um pé nervosamente no chão. Mais dez minutos passam, antes que a campainha toque outra vez. Engulo minha ansiedade e abro a porta. Dessa vez, é ela. Seu olhar cor de jade me atravessa como uma lança.
ㅡ Sinto muito pelo atraso. Fiquei até mais tarde no trabalho por causa de um projeto urgente do Edward.
Aceno com a cabeça e abro espaço para ela entrar. Não sei o que pensar dessa Amber Lee fria e carrancuda diante de mim. Ela segue diretamente para o estúdio sem esperar por mim ou pelo Pete, que troca olhares tensos comigo.
ㅡ Ela ainda está uma fera, parceiro. É melhor se desculpar com ela.
ㅡ De novo? O que mais eu posso fazer? Ficar de joelhos e implorar pelo perdão dela? Eu não fiz nada errado, Pete.
ㅡ Suas desculpas não foram bem pelo o que você fez, Michael. Você só foi empático com o que ela passou. Suas grosserias e mentiras foram o que nos colocaram nessa situação caótica para início de conversa. Mas, se você quer se enganar e achar que não foi nada…
A ironia dele me deixa irritado e eu bufo, seguindo para o estúdio com ele em meu encalço. Vejo Amber Lee já em seu teclado, olhando para seu instrumento como se fosse sua tábua de salvação. Decido abandonar um pouco o meu orgulho e me desculpar, afinal o fato dela ter aparecido já é alguma coisa.
ㅡ Amber Lee, eu quero que saiba que eu…
Ela levanta uma mão na minha direção sem me encarar e eu me calo.
ㅡ Estou aqui para ensaiar, Michael. Só isso. Não vou quebrar a minha palavra e deixar vocês na mão. Eu também quero que isso dê certo. Então, podemos começar?
A frieza em sua voz me faz suspirar desanimado. Contudo, o que eu esperava? Tenho que dar graças a Deus por ela não ter chutado o balde. O resto, espero que se resolva com o tempo e ela me perdoe. Pelo menos, só o fato dela estar aqui, já me conforta de certa forma.
Você vai ver, little bunny. Vou te provar que não sou o c@nalha que você pensa.