*Michael PoV*
Chego em casa já revirando as gavetas da minha estante.
Onde está? Onde foi que coloquei?
Ao abrir uma pasta, encontro a partitura que escrevi no dia em que conheci Amber Lee. Eu leio as notas que rascunhei com atenção. Depois, retiro do bolso do terno o papel com a letra que ela escreveu. Coloco as duas folhas, uma do lado da outra, sobre a mesa de centro. Um sorriso atravessa meu rosto.
Elas se encaixam perfeitamente...
Pego meu violão e um caderno com pautas em branco sobre a mesa no quarto. Confiro os acordes que rascunhei aquele dia, dedilhando as cordas e cantando o texto dela.
É incrível como duas pessoas, em tempos diferentes, puderam fazer algo único que se completasse tão bem.
Aliso as cordas do instrumento em minhas mãos e olho para as folhas lado a lado. Então, observo a folha pautada onde passei a limpo a melodia que compus e a letra que Amber Lee escreveu.
Será que nós dois poderíamos nos completar assim? Como quando uma melodia casa perfeitamente com uma letra?
Pego o meu celular no bolso da calça e ligo para o nosso produtor.
ㅡ Senhor Winchester? É o Denver. Tenho um bônus para o disco…
*Amber Lee PoV*
Ver as jóias que minha avó me deu, no dia que as emprestei para Lauren, me fez pensar nos meus pais de forma frequente. Há meses não falo com eles, meu pai foi muito incisivo da última vez.
Talvez, se eles souberem que estou prestes a realizar o meu sonho, que não estou em uma aventura qualquer e que trabalho duro, talvez, eles entendam.
Dorothy não fez nenhum comentário mordaz comigo, eu também não lhe dei chance. Eu me certifiquei de estar sempre com o Pete ou com o Michael. Sozinha com ela, nunca. Porém, eu tenho a impressão que, mais cedo ou mais tarde, essa panela de pressão que nós duas estamos cozinhando vai acabar explodindo. Michael é muito atencioso comigo e ela não suporta isso.
Assim que ela vai embora, os rapazes vão para a sala conversar sobre alguma coisa. Eu não presto atenção no que é, estou sozinha no estúdio, com o celular em mãos, pensando nas possibilidades.
Se for como da última vez, vai ser doloroso. Acho que é melhor esperar o disco ser lançado. Assim, vou ter algo plausível para argumentar com eles.
Guardo meu celular na minha bolsa e começo a vestir minha jaqueta. Michael retorna sozinho e eu sorrio para ele.
ㅡ Eu não desliguei tudo, pois não sabia se você ainda iria ficar tocando depois que eu saísse.
ㅡ Tudo bem. Eu…
O telefone dele o interrompe, porém ele não parece contente quando vê na tela a origem da ligação. Ele rejeita a chamada e explica que é sobre trabalho. Realmente, tem gente que não usa o bom senso. Contudo, eu me assusto quando ele lê uma mensagem em seu celular e pragueja.
ㅡ Put@ que pariu!
Ele fica boquiaberto. Não é a primeira vez que ele fala um palavrão na minha frente, eu também sou meio desbocada, porém ele está mesmo incomodado com isso. Quando ele diz que um amigo, que veio pegar um livro com ele, está aguardando lá fora, eu entendo que ho®a de ir embora, mesmo querendo ficar mais um pouco e aproveitar a companhia dele. Pego minha bolsa, mas ele faz uma proposta irrecusável.
ㅡ Olha, não vai demorar. Vou despachá-lo rápido e posso fazer algo para nós comermos. O que acha?
ㅡ Você cozinha? Essa eu quero muito ver.
Deixo minha bolsa de lado e me sento sobre uma caixa. Ele fecha a porta quando sai e eu fico imaginando como seria o Michael cozinhando.
Deve ser muito engraçado.
O meu celular toca e, quando o vejo, fico surpresa ao ler o número do meu pai na identificação da tela.
ㅡ Pai!
ㅡ Eh… Não… Oi, Amber Lee…
Fecho meus olhos ao ouvir a voz do Kevin. Eu o bloqueei e não posso acreditar que, depois de tanto tempo e da forma como me tratou antes, meu pai tenha feito isso comigo. Está claro como o dia que ele quer que o Kevin tente me convencer a voltar.
Isso jamais vai acontecer!
ㅡ Onde está o meu pai, Kevin?
ㅡ Não fique zangada, ele só quer o seu bem.
ㅡ Zangada? Estou put@ da vida! É por essas e outras, que eu fui embora! Nenhum de vocês me respeita!
ㅡ Que modos são esses? Não estou te reconhecendo…
Quando eu morava com meus pais e frequentava a alta sociedade, eu me comportava e falava como a perfeita lady que eu nunca nasci para ser. Deve ser um choque para ele escutar um palavrão sair da minha boca, algo que nunca me ouviu dizer.
ㅡ Kevin, eu tenho que desligar. Estou ocupada, no momento.
ㅡ Já é tarde… O que pode ser tão importante, que você não pode me dar nem dez minutos do seu tempo? Eu não mereço uma explicação? Você sumiu no meio da noite, Amber Lee! Nós ficamos desesperados, fomos até a polícia!
A mágoa em suas palavras desmonta minhas defesas.
Ele tem razão. Eu sequer deixei um bilhete… Nunca fui apaixonada por ele, mas cedi à pressão que nossas famílias faziam para nos envolvermos. Sinto-me como uma pro$tituta.
ㅡ Sinto muito.
ㅡ É bom que sinta mesmo. Tudo o que nós passamos juntos desde pequenos… Como você pôde me abandonar daquele jeito tão frio?
ㅡ Kevin, eu realmente não estava bem. Eu me sentia tão sufocada…
ㅡ Sufocada? Eu te sufocava? Não tenho culpa se a sua mãe te proibiu de tocar!
ㅡ Não, não tem... Sua culpa está em ter concordado e apoiado! Vocês fizeram um complô e pisaram nos meus sonhos sem qualquer cuidado!
ㅡ Ah, seus sonhos… ㅡ Há um certo sarcasmo e desdém em suas palavras que começam a me irritar. ㅡ Está falando da música? Isso é uma coisa sem futuro e…
ㅡ Estou gravando um disco com uma banda de metal.
Praticamente, vomito as palavras, rezando para que ele entenda.
ㅡ Metal?
ㅡ Isso mesmo, uma banda de metal progressivo…
Começo a me aborrecer, pois ele soa como se eu fosse uma louca varrida.
ㅡ Pelo amor de Deus, Amber Lee! Isso é música do di@bo!
ㅡ Não é música do di@bo! Você não entende?
ㅡ Entendo que você está precisando se tratar! Como pode trocar sua família e eu por essa maluquice?
Um grunhido me escapa, enquanto ando de um lado para o outro.
Não adianta. Ele é tão limitado quanto os meus pais.
ㅡ Quer saber? Esquece! Não me ligue mais!
Desligo o celular e o jogo dentro da bolsa. Fico andando em círculos, segurando as lágrimas. Quando meus olhos recaem sobre o meu teclado, eu me lembro da verdadeira razão pela qual eu luto. Eu me lembro do homem que me ajudou a alcançar os meus objetivos.
Michael jamais me aprisionaria como eles querem fazer…
Sou puxada para o meu instrumento, como se estivesse enfeitiçada por ele.
Michael admira o meu talento, me estimula e vai cantar uma das minhas músicas… Ele acredita em mim.
Meus dedos pousam sobre as teclas e eu fecho os olhos. Uma lágrima cai de cada um, porém o restante é drenado pela melodia que eu canto.
When I look at my life
(Quando olho para a minha vida)
Wanna see myself shine on the dance floor
(Quero me ver brilhar na pista de dança)
But I won't get it right until I stop asking why
(Mas não vou conseguir fazer direito até parar de me perguntar por que)
And just let it go
(E apenas deixar fluir)
Sometimes I take a look at my life
(Às vezes, eu dou uma olhada na minha vida)
I take a look at my life
(Eu dou uma olhada na minha vida)
And say, oh, oh
(E digo, oh, oh)
Wanna get it, yeah
(Quero pegá-lo, yeah)
Gotta get it, don't need a pot of gold
(Vou pegá-lo, não preciso de um pote de ouro)
Falar com o Kevin hoje só me deu mais certeza do que sinto por Michael. Nosso começo não foi dos mais empolgantes, porém, a cada dia, ele se mostra um homem melhor e me cativa com sua dedicação por mim e sua paixão pela música. Com ele, me sinto completa.
Looking for the rainbow
(Estou procurando pelo o arco-íris)
To break the storm inside of me
(Para aplacar a tempestade dentro de mim)
The rainbow to take
(O arco-íris para limpar)
The clouds that are hiding me
(As nuvens que me escondem)
All I want is someone to heal the heart of me
(Tudo o que quero é alguém para curar esse meu coração)
The rainbow, it could be the start of me
(O arco-íris, poderia ser o começo de mim)
ㅡ Então, little bunny? Pronta para comer?
Eu praticamente salto de lado com o susto que levo ao ouvir a voz do Michael.
Espero que ele não tenha me escutado cantar. Seria muito embaraçoso. Não sou cantora, apenas sei o básico que a minha avó me ensinou para não fazer feio…
*Michael PoV*
ㅡ Eu não sei não, Michael. A Dorothy não vai gostar nada disso.
ㅡ Por isso estou te pedindo para tirá-la da equação. Por favor, Pete. Fico te devendo essa.
Ele me encara com um ar convencido e eu sei que vou me arrepender mais cedo ou mais tarde. No entanto, qualquer coisa vale a pena para fazer isso por ela.
ㅡ Tudo bem. Eu me viro com a Dorothy amanhã.
Eu lhe dou um forte abraço.
ㅡ Obrigado, parceiro.
Nós nos separamos e ele aponta com o queixo para o corredor que leva ao estúdio no meu apartamento. Dorothy já se foi há uns dez minutos, contudo Amber Lee ainda está lá dentro.
ㅡ Eu sei que já te disse isso... Ela é uma garota legal. Tente não machucá-la.
ㅡ Não tenho essa intenção, Pete, pelo contrário.
Ele coloca uma mão no meu ombro e sorri.
ㅡ Espero que sim. Já estava na ho®a de você sair da sua casca. Mas, saiba que, se a magoar, eu quebro a sua cara.
Não entendo de onde vem tanto zelo assim por ela.
ㅡ Eu não sou um troglodita e aprendo rápido. Por que você tem tanto interesse nela?
Seu sorriso desaparece e ele franze a testa, ofendido. Compreendeu o que insinuei.
ㅡ Meu interesse nela vem do fato do meu melhor amigo e irmão estar apaixonado por ela. Então, o que for bom para ela, será bom para você também.
ㅡ Só isso?
Ele suspira profundamente, olhando um instante para o teto, e depois me encara.
ㅡ Só. Boa noite, parceiro.
Ele vai embora e eu fecho a porta. Retorno para o estúdio e a vejo vestindo sua jaqueta. Ela sorri quando me vê.
ㅡ Eu não desliguei tudo, pois não sabia se você ainda iria ficar tocando depois que eu saísse.
ㅡ Tudo bem. Eu...
O meu celular começa a tocar e eu praguejo a interrupção. Mais ainda quando vejo o número do Sunny na tela.
Estava demorando...
Eu rejeito a chamada e ela me encara curiosa.
ㅡ Algum problema, Michael?
ㅡ Só um fornecedor que não sabe o seu lugar. Veja se isso é ho®a de me ligar.
É o melhor que consigo inventar no momento. Não quero que esse homem volte a participar da minha vida, muito menos agora que ela está entrando. Então, meu aparelho vibra na minha mão. Uma nova mensagem.
“Filho, estou aqui na portaria do seu prédio.”
ㅡ Put@ que pariu!
ㅡ Michael? O que foi?
Olho para ela boquiaberto. Nós dois somos desbocados, porém estou querendo criar um clima romântico.
ㅡ Eu... Eu havia esquecido que tinha marcado de entregar um livro para um conhecido. Só que eu fiquei enrolando porque o cara é muito chato. Ele acabou vindo aqui em casa e está lá na portaria.
ㅡ Bom, não se prenda por minha causa.
Vejo-a pegar sua bolsa e fico decepcionado por essa noite ser interrompida por causa daquele c®etino.
ㅡ Olha, não vai demorar. Vou despachá-lo rápido e posso fazer algo para nós comermos. O que acha?
ㅡ Você cozinha? Essa eu quero muito ver.
Ela se senta sobre uma caixa e coloca a bolsa de lado. Eu sorrio e fecho a porta quando saio. Pode ser que eu grite com aquele filho da mãe. Pelo menos, no estúdio, ela não irá escutar.
Chego na rua bufando de raiva, que não se aplaca nem um pouco ao vê-lo encostado na lateral do prédio. Está com uma aparência não muito melhor do que quando o vi pela última vez. Cabelos grisalhos desgrenhados e barba por fazer. Roupas esfarrapadas e sujas. O pior é que posso sentir o cheiro da bebida, mesmo a dez passos de distância. Ele sorri timidamente quando me vê, enterra as mãos nos bolsos e se aproxima uns dois passos.
ㅡ Oi, filho...
ㅡ Sunny, eu não tenho tempo para suas crises de existência hoje, está bem?
ㅡ Você é um maldito ingrato...
ㅡ Como é que é?
Reduzo a distância entre nós e o que eu desconfiava se torna certeza.
Merd@! Ele está bêbado!
Ele funga e coça o nariz.
ㅡ Você não vai me convidar para entrar na sua casa?
ㅡ Não. Estou com visita.
ㅡ Está com vergonha do seu pai?
ㅡ Não há como eu ter vergonha do que não tenho. De quanto você precisa?
Ele estica o pescoço, olhando as janelas do prédio, o que me deixa irritado. Depois, ele sorri ridiculamente, como se fosse meu cúmplice.
ㅡ Seu malandro... Está com uma garota, não está?
ㅡ Sunny, por favor...
Eu meio que rosno por entre os dentes. A expressão dele muda. Uma que conheço muito bem.
ㅡ Escute aqui, seu moleque... Ainda sou seu pai e...
ㅡ É muito fácil querer o título agora, depois de tudo o que já me fez! O que você esperava? Que eu te recebesse de braços abertos?
ㅡ Eu esperava que você fosse mais compreensivo. Eu sei que fiz muita merd@. Porém, olha só o homem bem sucedido que você se tornou! Eu não mereço crédito?
Eu rio desdenhosamente.
ㅡ É, você tem muito crédito... Dou-te crédito pelas surras, dentes e ossos quebrados, ou então por todas vezes que levei a culpa por você ter falhado em manter a mamãe dentro de casa. O que eu sou e o que eu conquistei, não foi graças à sua criação de merd@!
Ele avança na minha direção com o punho fechado. Eu apenas desvio, ele soca o ar e cai na calçada de forma desengonçada. Sunny permanece no chão, como um saco de lixo rasgado, sem me encarar. Nessas ho®as, a culpa me invade. Suspiro para o alto e me ajoelho diante dele. Ele começa a se lamentar.
ㅡ Sinto muito, filho... Eu só queria ser um pai melhor...
ㅡ Vou te colocar em um táxi...
Ergo-me e olho ao redor. É quando percebo a chuva caindo, alguns raios cortando o céu. Finalmente um táxi passa e faço sinal. Coloco o velho no banco de trás, dou o endereço para o motorista e dinheiro mais que suficiente para a corrida. Quando o carro some da minha vista, não posso deixar de sentir um aperto no peito. Eu olho para o alto, sentindo as gotas frias no meu rosto.
É um pouco tarde para isso, Sunny... Não consigo te perdoar...
Volto para o meu apartamento e paro um momento diante da porta do estúdio. Respiro fundo para me acalmar e abro a porta devagar. Então, a ouço sem querer ao telefone.
ㅡ Isso mesmo, uma banda de metal progressivo...
Sua voz é impaciente. Não consigo entrar, pois não quero interrompê-la e deixá-la constrangida. A conversa parece dura.
ㅡ Não é música do di@bo! Você não entende?
Ela grunhe irritada, enquanto anda de um lado para o outro com o celular na orelha. Não sei o que fazer e fico parado atrás da porta.
ㅡ Quer saber? Esquece! Não me ligue mais!
Amber Lee desliga o aparelho e o coloca na bolsa. Não sei com quem ela falava, porém posso perceber que ficou muito perturbada, praticamente a beira das lágrimas. Ela vai até seu teclado e o liga.
Ela faz a mesma coisa que eu para se acalmar. Mergulha na música...
De repente, ela começa a cantar enquanto toca. Não é algo do nosso repertório, embora a música soe familiar. Deve ser alguma canção que ela goste e que não faça parte dos meus artistas preferidos.
Rico havia me dito que a voz dela era linda, mas isso... Eu jamais imaginaria. Sua voz é potente e timidamente rouca, uma mistura muito s&xy. É uma doce armadilha impossível de escapar.
No refrão ela liberta sua voz totalmente. Eu fecho os olhos, encostado na parede, escutando-a. A emoção que ela emana enquanto canta é transcendente, assim como o meu amor por ela. Eu amaldiçoo o fato de não conseguir dizer-lhe como me sinto. Puxo o ar longamente e, quando o solto, decido que devo dar um passo adiante com ela.
O presente que mandei fazer para ela já está pronto de qualquer forma. É angustiante continuar assim, já nem sei mais o que estou fazendo. Eu também quero alguém para curar o meu coração. Encontrei isso nela. Posso dizer, sem sombra de dúvida, que Amber Lee é o arco-íris que faltava na minha vida.
Entro agindo como se tivesse acabado de chegar.
ㅡ Então, little bunny? Pronta para comer?
Ela se assusta e para de tocar.
ㅡ Credo, Michael! Não sabe bater?
ㅡ Dentro da minha própria casa? O que estava tocando?
ㅡ Nada. Provavelmente você não conhece.
ㅡ Assim você me magoa... ㅡ Coloco uma mão no peito, falsamente ofendido. ㅡ Vamos?
Ela sorri timidamente e sai de seu instrumento.
ㅡ Você não vai me matar envenenada, não é?
ㅡ Prometo que vai ser indolor.
Faço um sinal de juramento diante do meu peito e seguimos para a cozinha.