*Michael PoV*
Amber Lee aponta um dedo para mim, antes que possamos dar um único passo para fora do estúdio.
ㅡ Oh, Céus! Olhe só para você! Está todo molhado!
ㅡ Estou bem.
ㅡ Negativo. Tire essa camisa, vai ficar resfriado assim.
Ela age mais rápido que eu. Pega a barra da minha camisa e a puxa para cima. Eu termino o serviço que ela começou e retiro totalmente a peça de roupa. Seu olhar sobre os músculos do meu peito e abdômen é descarado. Eu me faço de inocente.
ㅡ Sei que você gosta do meu corpo, mas assim me deixa constrangido, little bunny.
Amber Lee limpa a garganta e tenta disfarçar, muito m@l por sinal.
ㅡ Convencido...
Eu rio e a guio até a cozinha. Ela se apoia na bancada da pia, após largar sua bolsa e jaqueta no sofá. Então, sorri quando eu simulo um arremesso de Basquete com a minha camisa molhada e acerto em cheio a máquina de lavar na área. Ela bate palmas e eu abro a geladeira, pegando algumas coisas.
ㅡ Não sou nenhum mestre gourmet, porém temos pão, salame, presunto e queijo.
ㅡ Está ótimo. Embora eu quisesse ver o grande Michael Denver cozinhar.
ㅡ Little bunny, vai por mim. Não iria querer ver essa tragédia.
Ela finalmente ri de forma descontraída.
ㅡ Ah, então existe algo que o senhor perfeição não saiba fazer…
Seu tom é de brincadeira, uma provocação, e eu decido dar o troco.
ㅡ Eu compenso em... ㅡ Dou uma olhada maliciosa para ela, medindo seu corpo de cima a baixo. ㅡ Outras áreas... ㅡ Ela abre a boca, porém, antes que diga algo, eu a corto. ㅡ Pode pegar duas cervejas para nós?
Exibo as coisas que seguro, para mostrar como estou enrolado, e ela acena com a cabeça, depois de suspirar. Enquanto eu corto o queijo, ela pega as bebidas, as abre e me entrega uma garrafa. No primeiro gole, eu quase engasgo e confiro o rótulo.
ㅡ Merd@...
ㅡ Algo errado?
ㅡ Essa é com álcool.
ㅡ Sim, é uma cerveja.
Ela fala brincando, com o tom mais entendido do mundo.
Acho que vou ter explicar melhor.
ㅡ Não, digo, as minhas são sem.
ㅡ Oh... Sinto muito.
ㅡ Tudo bem, você não tinha como saber. Eu tenho diabetes, então álcool para mim é um veneno. Como gosto de uísque, não tomo nada alcoólico para poder ter esse prazer, mas somente em ocasiões sociais e com moderação.
ㅡ Eu nem sei o que dizer. Você sente alguma dor?
Eu dou risada de sua ingenuidade.
ㅡ Não é doloroso, porém pode ser perigoso se eu perder o controle sobre a minha glicose. Eu tenho um medidor implantado no meu antebraço, que eu troco de tempos em tempos. Ele envia leituras periódicas para um aplicativo no meu celular. Desde que eu mantenha hábitos saudáveis, não corro nenhum perigo.
ㅡ Nossa, agora me sinto m@l por beber na sua frente…
ㅡ Eu não me importo, então não quero que preocupe essa sua linda cabecinha, está bem?
Ela bate continência e eu acabo rindo novamente da sua irreverência.
ㅡ Sim, senhor! Eu estava achando que você era alguma esponja alcoólica, por sempre tomar cerveja e nunca ficar bêbado! ㅡ Ela toma a garrafa da minha mão, a coloca de volta na geladeira e, após conferir o rótulo, pega outra sem álcool para mim. ㅡ Eu tomo aquela quando terminar a minha.
A piscadinha cheia de charme que ela me dá quase me derruba.
Ela não faz a menor ideia de como mexe comigo.
Pela meia ho®a seguinte, fizemos uma bagunça inimaginável e não montamos nenhum sanduíche. Fomos comendo os frios à medida que os cortávamos. Pude perceber que ela é tão desengonçada quanto eu na cozinha. Eu rio, enquanto a observo esquartejando o salame.
ㅡ Vai rindo, seu tonto! Você não é muito melhor que eu!
Ela reclama, sacudindo a faca no ar, como se fosse um sabre de luz. Eu fico horrorizado.
ㅡ Você vai acabar cortando os dedos fora! ㅡ Coloco minha garrafa sobre a bancada. ㅡ Aqui, eu vou te mostrar como se faz.
Fico atrás dela e seguro suas mãos. Não foi a melhor ideia do mundo. É como daquela vez que a ajudei com o computador. Só que agora, tenho plena consciência do que sinto e não é muito confortável, apesar de ser extremamente prazeroso. Ela respira fundo e balbucia. É quase um sussurro.
ㅡ Eu sei cuidar de um salame...
Eu me aconchego ao seu corpo e repouso meu queixo em sua clavícula.
ㅡ Little bunny, quando você diz coisas como essa, fico imaginando que cuidados seriam esses...
Ela prende o fôlego e eu fico roçando meu nariz na pele do seu pescoço. Fecho meus braços em torno de sua cintura.
ㅡ Você é um pervertido...
ㅡ O que posso fazer se a sua boca é atrevida?
Mordo de leve o lóbulo de sua orelha e ela tenta suprimir um gemido. Desço minhas mãos por suas coxas e pressiono seu traseiro contra a frente do meu corpo. É quando tudo dá errado.
ㅡ Pare!
Ela afasta as minhas mãos, se vira para mim e me empurra para trás. Fico tão chocado com a reação dela, que recuo até a parede.
ㅡ O que deu em você, Amber Lee? ㅡ Ela baixa o olhar e suas mãos ficam mexendo nervosamente na bainha do seu short. ㅡ Responda, cass&te!
Ela se assusta com meu grito e esbraveja.
ㅡ Eu não sou uma v@dia! Só porque eu me empolguei algumas vezes, isso não te dá nenhum direito!
Fecho os meus olhos um minuto e faço uma contagem mental para tentar manter a calma. Não é muito eficaz.
ㅡ Simplesmente não entendo o jogo que você está fazendo. Depois desse tempo todo, realmente achou que eu faria algo que f0desse a sua preciosa virtude? Pro infe®no! ㅡ Fecho a cara e me aproximo dela, tanto, que ela tem que levantar a cabeça para olhar nos meus olhos. Achei que fosse gritar de novo, contudo, estranhamente, minha voz é calma e fria como o gelo. ㅡ Você achou que eu realmente te trataria como uma v@dia? Que te comeria na pia da minha cozinha, para te descartar depois? Essa é a minha casa, não um putei®o! Quando você não quiser que eu te toque, apenas diga “não”! Eu sempre te respeitei e estou decepcionado por perceber que você é incapaz de ver isso! Feche a porta quando sair!
Eu saio a passos largos e sigo para o meu quarto. Bato a porta com tanta força, que ela quica no portal e não fecha. Bato de novo, dessa vez com um chute, e percebo a merd@ que fiz.
Porr@! Quebrei a dobradiça!
Jogo-me de costas sobre a cama, os pés para fora, e cubro os olhos com um braço.
Quem ela pensa que eu sou? Um estuprador? Fod@-se!
*Amber Lee PoV*
É… Dessa vez, a minha neurose ferrou com tudo…
Penso em ir embora depois desse fiasco. Não sei como me explicar sem me expor. No entanto, não me parece justo deixá-lo desse jeito. No fundo, eu sei que ele não faria nada que eu não quisesse.
Ele merece uma explicação e que eu me desculpe ao menos.
Respiro fundo e vou até a porta entreaberta de seu quarto e noto a dobradiça quebrada.
Ele realmente ficou muito put0…
Entro com cuidado e o vejo deitado de barriga para cima sobre a cama, com um braço cobrindo os olhos. Eu me aproximo devagar e me sento ao seu lado. Ele bufa, visivelmente chateado, sem tirar o braço do rosto.
ㅡ Michael...
ㅡ Vá para casa, Amber Lee. O ensaio acabou.
É mais sério do que imaginei. Nem me chamou de little bunny.
ㅡ Eu sei... Eu sinto muito...
ㅡ Vá para casa!
Dessa vez ele grita, descobrindo os olhos e se levantando para me encarar. Nossos rostos ficam tão próximos, que sinto sua respiração pesada nos meus cabelos.
Ele bem que podia facilitar as coisas um pouco, né? Voltar a ser o grosseirão de antes não ajuda!
ㅡ Que merd@, Michael! Eu estou tentando me desculpar, porém você é difícil!
ㅡ Mais que você? Nesse ponto você ganha de lavada!
ㅡ Você está se comportando como um b@baca de novo, sabia?
ㅡ Parabéns! Descobriu o óbvio! Posso ficar sozinho agora?
Eu deveria sair correndo diante de sua ira ou continuar batendo boca, como já fiz tantas vezes no passado. Contudo, isso não nos fez bem algum. Ele mudou sua atitude, assim como eu, e foi quando tudo pareceu se encaixar. Foi quando ele começou a se abrir comigo.
Não vou permitir que se tranque em sua concha de novo…
ㅡ Sei o que você está fazendo e não, não vou te deixar sozinho, Michael.
Ele me encara com incredulidade.
ㅡ Quem é você? Não, sério. Foi abduzida e colocaram um clone no seu lugar? Antigamente, você já estaria querendo cortar o meu pescoço…
Eu sorrio e ajeito uma mecha do seu cabelo atrás de sua orelha. Ele parece se acalmar com esse meu gesto.
ㅡ Olha só quem fala... O senhor irritante em pessoa.
Ele ergue uma sobrancelha zombeteira e franzo a testa. Lá vem a provocação.
ㅡ Bom, pelo menos serviu para te levar para a minha cama.
Acho que nem tudo está perdido. Ele está brincando comigo, como costuma fazer sempre que precisa quebrar a tensão.
Decido entrar na brincadeira, é como nós nos entendemos, além da música. Reviro os olhos e dou um leve soco em seu peito. O efeito é imediato. Ele se deixa cair na cama, rindo.
ㅡ Viu o que eu disse, Michael? Será que você consegue falar três frases sem se gabar ou tirar sarro da minha cara?
ㅡ E acabar com a diversão?
Eu rio junto com ele e me deito ao seu lado, olhando o mesmo ponto invisível que ele no teto, ambos de mãos cruzadas sobre as próprias barrigas. Um silêncio esquisito, porém sem ser desconfortável, paira entre nós. Inspiro profundamente, criando coragem para pôr para fora o que tanto me perturba.
ㅡ Olha, me desculpe. Eu me assustei. A primeira vez que aquele imb&cil me assediou, eu estava deitada na cama. Ele chegou por trás de mim, tampou a minha boca com uma das mãos e enfiou a outra por debaixo da minha roupa. Demorei para entender o que estava acontecendo. Ele... Ele enfiou um dedo em mim… Mordi a mão dele o mais forte que pude e ele me soltou. Acertei a cabeça dele com a primeira coisa que vi, foi um abajur. Catei as minhas coisas e saí correndo, pois eu achava que tinha matado ele. Vaguei sem rumo por ho®as pelas ruas, era o meu primeiro dia na cidade. Eu não conhecia ninguém. Então, quando as suas mãos tocaram as minhas coxas, enquanto você estava atrás de mim, foi como ser jogada dentro daquele pesadelo de novo. Eu surtei…
Ouço-o suspirar e engulo o bolo na minha garganta.
ㅡ Amber Lee, sinto muito pelo o que aconteceu com você, mas eu não sou…
Eu o interrompo, antes que ele tenha mais alguma ideia absurda. De forma alguma vou deixá-lo imaginar o pior.
ㅡ Eu sei que você não é ele, Michael. Você tem sido gentil e paciente, quando qualquer outro já teria me mandado pastar. Há momentos em que parece que está tudo bem. Em outros, qualquer detalhe desencadeia uma lembrança que eu prefiro esquecer. Não entenda de forma errada. Não estou fazendo nenhum tipo de jogo com você, eu só… Acho que ainda tenho algumas sobras do sistema de auto defesa que criei depois daquilo…
*Michael PoV*
Quando a voz embargada dela quebra no final, eu quebro junto. Eu me viro na cama, ficando de frente para ela, e a puxo contra mim. Seu corpo treme um pouco com os soluços que ela não consegue conter. Beijo seus cabelos e fico acariciando suas costas.
ㅡ Está tudo bem, little bunny… Se eu puder evitar, eu juro que nunca mais ninguém vai encostar um dedo em você. Agora, pare de chorar porque eu não aguento isso.
Ela respira fundo e levanta seu olhar marejado para mim.
ㅡ Ainda não disse se aceita as minhas desculpas...
Eu suspiro e desenho a linha do seu queixo com o meu polegar. Ela me observa ansiosamente.
ㅡ Eu também te devo desculpas, por não ter percebido que te fiz lembrar de algo horrível.
ㅡ Não foi sua culpa! Foi minha! Eu fui burra o suficiente para cair na conversa fiada dele!
De repente, eu me lembro daquele momento, cinco anos atrás, quando Ethan me encontrou e perguntou se o Sunny tinha me batido. Eu menti na época, pois me sentia culpado, com medo e envergonhado. O que vejo nela hoje, é algo parecido.
De forma alguma vou deixá-la carregar isso sozinha.
ㅡ Um cara excepcional me disse uma vez, que vítimas de abuso costumam se culpar. Não faça isso com você, little bunny. Você merece muito mais que viver nas sombras de um passado triste. Não deixe ninguém apagar a sua luz.
Não faço ideia de onde tirei essas palavras. Acho que a convivência com Ethan deve ter tido algum efeito em mim. O que importa é que foi tudo sincero e o sorriso que ilumina seu rosto é belíssimo.
ㅡ Quando você quer, é até adorável…
ㅡ Oh, por favor… Isso não combina comigo.
ㅡ Você que pensa. ㅡ Nós nos sentamos na cama e ela passa as mãos pelo rosto. ㅡ Já que estou sendo sincera, devo dizer que falei com meu ex hoje.
Meu coração dá uma parada brusca e eu engulo em seco.
ㅡ Você ligou para ele?
ㅡ Não. Ele me ligou do telefone do meu pai.
ㅡ O que ele queria?
Ela dá de ombros e suspira.
ㅡ O de sempre: Me controlar como costumava fazer. Eu nunca tive forças para ir contra ele ou os meus pais, por isso eu fugi. E não vejo razão nenhuma para voltar, apenas para ficar.
Agora o meu coração volta a bater, tão forte e tão rápido, que me deixa tonto. Eu fecho os meus olhos um momento, buscando fôlego para fazer a pergunta.
ㅡ Eu poderia ser uma dessas razões para você ficar?
Mordo internamente minha bochecha. Um sorriso discreto cruza seus lábios e ela me encara com uma alegria renovada.
ㅡ Na noite em que eu dormi aqui, pela manhã, você me perguntou se você seria uma opção melhor que o Kevin. Eu não te dei uma resposta direta, porém, sim, você é.
Engasgo com um riso eufórico, que sai descontrolado da minha garganta. Não consigo acreditar no que acabei de ouvir.
ㅡ Eu sou um namorado melhor?
*Amber Lee PoV*
Acho sua reação engraçada, até porque, não confirmamos nada.
ㅡ Nós não somos namorados, Michael…
Ele dá um sorriso pelo canto da boca e se levanta, indo até o guarda-roupa. Pega uma sacola de presente e volta a se sentar ao meu lado.
ㅡ Tem razão… Vamos consertar isso.
Ele coloca a sacola nas minhas mãos. Fico confusa, mais ainda quando encontro uma caixa de veludo azul-marinho, com uma flor de lírio branco presa nela, além de outra caixa que conheço muito bem.
ㅡ O que o conjunto de safiras da minha avó, que eu emprestei para a Lauren, está fazendo com você?
ㅡ Eu precisava das medidas e pedi a Lauren que me trouxesse um anel seu.
ㅡ Medidas? Para quê?
ㅡ A razão está na outra caixa. Abra e descobrirá.
Ele tem esse ar, que apesar de ser um pouco convencido, também emana um certo nervosismo. Coloco a minha herança de família em um criado-mudo ao lado da cama e pego a outra caixa. Quando a abro, vejo um par de anéis com pulseiras presas neles, tudo em prata. Os anéis são idênticos e talhados com três linhas, onde pequenos brilhantes ficam dispostos, como notas musicais em uma partitura. Deles sai uma fina corrente que se prende às pulseiras, estas adornadas com pequenos pingentes nos formatos de claves musicais. Uma pulseira tem somente a clave de Sol, a outra, a clave de Fá, e são a coisa mais linda que eu já vi.
ㅡ O q… ㅡ Limpo minha garganta para conseguir falar, já com meu estômago revirado pela revoada de borboletas nele. ㅡ O que significa isso?
ㅡ Anéis de compromisso com pulseiras. Quer namorar comigo, little bunny?
Ainda bem que estou sentada ou teria caído. Não posso dizer o mesmo do meu queixo.
Ele… Ele me pediu em namoro?
Michael começa a esfregar as palmas uma na outra, me encarando ansiosamente. Suspira e passa uma mão nervosa pelos cabelos.
ㅡ Seu silêncio é constrangedor, sabia?
ㅡ Oh… Eu… É que nós… Nem dormimos juntos…
ㅡ Dormimos naquele dia, não foi?
ㅡ Não nesse sentido… No outro sentido…
ㅡ Little bunny, s&xo não é um palavrão, muito menos um tabu. Precisamos fazer s&xo antes de oficializar um namoro? Por mim, tudo bem.
ㅡ Michael!
Dou-lhe um tapa em seu ombro e ele ri. Volto a analisar os objetos em minha mão, completamente tomada pela emoção.
ㅡ Então?
Eu o encaro com um sorriso que não cabe no meu rosto.
ㅡ Sim.