17 - Everlasting

2080 Words
*Michael PoV* Termino de me vestir, abro um estojo para retirar uma palheta e então olho para a minha Fender... E me lembro daquela garota impertinente. O cheiro dela parece que ficou entranhado em mim. Essa percepção me aborrece. Nunca perdi tanto tempo pensando em uma mulher. Talvez eu tenha exagerado um pouco, contudo, por que ela tinha que ser tão irritante? Tão deliciosamente irritante... Já chega, Michael! Esqueça essa mulher! Passo um kajal preto, delineando meus olhos azuis claros. Saio do camarim, seguindo pelos bastidores. Encontro com Pete pelo caminho. Ele está só. ㅡ Está mais calmo agora? ㅡ Você deixou minha Telecaster abandonada. ㅡ Foi m@l, parceiro. Só que era muita coisa para arrumar. Resolvo deixar o assunto morrer. Não quero me aborrecer mais do que já estou. Sigo para o palco, vestindo a alça da minha Telecaster ao redor do peito pelo caminho. Pete checa sua bateria enquanto afino meu instrumento, dedilhando as cordas. É uma sensação maravilhosa tocar de novo. Estar no palco de novo. ㅡ Sentiu falta disso, não foi, Michael? ㅡ Pode apostar que sim. Um sorriso se estica nos meus lábios, mais para mim mesmo do que para ele. Deixo a Fender em pé em seu apoio e corro meus olhos pelo salão. Então a vejo novamente, me observando. Escondo meu sorriso, porém é inevitável olhar para ela. É quase uma necessidade. Garota, esse seu olhar é um chamado ao pecado. Dou-lhe um sorriso tórrido. Certamente ela está fantasiando comigo. Com esse ar de menina inocente, aposto que ficaria vermelha instantaneamente se eu sussurrasse em seu ouvido todas as obscenidades que eu faria contigo... Apesar da Lauren estar junto, a ruiva e Rico conversam de forma muito íntima, o que não me agrada nem um pouco. Volto a prestar atenção nos equipamentos. A melhor coisa para tirar uma garota da cabeça, é ocupar a mente com trabalho. Checo os amplificadores e depois o microfone, além de chamar o Rob rapidamente para ver se ele já colocou no gatilho o pendrive que fiz com arranjos extras para as músicas. Somos apenas três na banda, então alguns efeitos ajudam a encorpar a apresentação. Dorothy chega e me abraça com força. Ela abre um enorme sorriso, naquele rosto rebelde emoldurado por cabelos verdes curtos. Acho que ela fez uma nova tatuagem, mais uma no meio de tantas que possui pelo corpo. De qualquer forma, imponho uma certa distância assim que é possível, pois não quero que ela confunda as coisas. Bom, mais do que ela já confunde. ㅡ Que viagem longa essa que você fez! Vai ser assim o tempo todo? Como fica a banda? ㅡ Foi realmente longa, porém necessária. Não creio que eu vá viajar tão cedo agora. Tenho muito trabalho aqui em Nova Iorque. Também não quero ficar tanto tempo sem tocar. Pisco para ela e a observo. Parecia irritada quando chegou, mas agora está dócil. Sei que é por causa da minha presença. Por causa do que ela sente por mim desde a adolescência, embora eu jamais tenha correspondido. Não quero que ela ache que tem alguma chance comigo, apesar disso ser uma missão impossível. Vive se jogando em mim ou tendo uma crise de ciúmes por nada. Simplesmente, não a vejo da forma como ela gostaria e não seria justo fingir para agradá-la. Minha preocupação com ela são seus vícios. Temo que ela acabe se matando de tanta droga algum dia. Sinto ter razão ao perceber seu olhar perdido e pupilas dilatadas. Com certeza, usou alguma coisa antes de vir e eu suspiro lentamente. ㅡ Dorothy, você tem condições de tocar? Ela assopra uma mecha de cabelo para afastá-la do rosto e me olha com deboche. ㅡ Quer parar de bancar o meu pai? Não que eu tenha tido um... Estou bem e posso tocar! ㅡ Tem certeza? Ela bufa e revira os olhos. ㅡ Tenho! Vou ver o meu baixo, já que você parece estar mais a fim de me dar um sermão! Balanço a cabeça negativamente enquanto ela vai pegar seu instrumento. Sempre foge do assunto quando eu a pressiono. Será que ela não percebe que está se destruindo? Vejo algumas fãs se aproximarem do palco. Ho®a de assumir meu papel. Sento-me sobre um banquinho e prendo uma mecha de cabelo atrás da orelha. Faço todo um charme teatral, enquanto distribuo sorrisos e cumprimentos à distância. Não posso n&gar que gosto da atenção, da tietagem, das garotas que se jogam aos meus pés prontas para tudo. Porém, às vezes, quando estou sozinho e desmonto meu personagem, percebo o quanto é cansativo. De vez em quando, olho de soslaio para a amiga do Rico. Não sei nem por qual razão. Seu jeito de me desafiar e me desejar ao mesmo tempo despertou a minha curiosidade. Vejo meu amigo abraçá-la pela cintura para guiá-la pela multidão até o palco. Isso me incomoda mais do que gosto. Aceno para ele, ignorando-a. Não parece que ele esteja a fim dela, porém ele é meu amigo. Não seria legal seduzir a paquera dele. De repente, me pego desejando que esse não seja o caso deles dois. As luzes começam a enfraquecer, sinal para o início da apresentação. Esvazio minha mente de todos os pensamentos. Estive esperando esse momento por meses. O momento de estar onde pertenço, onde me sinto completo e em paz. A escuridão envolve o recinto e eu me aproximo do microfone. ㅡ Um, dois, três... As luzes se acendem e cintilam ao nosso redor. Sinto como se tivesse tomado uma injeção de adrenalina no meio do peito. A sensação de euforia me toma por inteiro, enquanto solto minha voz no microfone e arranco os acordes da minha Fender. É um frenesi de emoções dentro de mim que sequer consigo conter. É simplesmente sublime. Dorothy e Pete embarcam comigo nessa atmosfera elétrica que se forma ao nosso redor. Sempre nos entendemos bem no palco. Somos como uma família, a única que conheci. Ouço meu nome sendo gritado histericamente pela multidão de garotas aos pés do palco. Claro que retribuo a atenção. Pisco para algumas, seguro rapidamente as mãos de outras, no meu movimento de vai e vem. Eu não paro um minuto sequer. Jogo com a minha alma aqui no palco, como se uma entidade se apossasse de mim toda vez. Um misto de prazer e raiva. As fãs percebem parte disso, porém não a razão. E isso as instiga mais e mais. No entanto, nenhuma delas me conhece. Então, meu olhar recai sobre ela novamente. Parece uma sina. Ela está no meio da multidão, olhando diretamente para mim, me causando um delicioso arrepio outra vez. Apesar de tantas mulheres ao seu redor, ela parece única. Sinto sua pele ruborizar conforme demoro minha atenção sobre ela. Talvez seja só a minha imaginação, não dá para ter certeza a essa distância. Parece duvidar que eu a esteja observando, tanto, que olha ao seu redor. Sua animação é diferente das demais fãs. Ela não está se derretendo ou gritando histericamente. É como se ela entendesse o significado que a música tem para mim. Como se funcionasse do mesmo jeito para ela. Vejo-me cantando e tocando especialmente para ela. Uma sensação totalmente diferente para mim. Nunca uma mulher me instigou tanto. Amaldiçoo meu amigo por tê-la colocado no meu caminho. Quando o show termina, estou exausto e, ao mesmo tempo, extasiado. Jamais vou me cansar disso. Nós três seguimos para os bastidores para nos refrescar. Ao retornarmos para o salão, uma multidão de tietes nos embarreira. Ossos do ofício. Perdi a conta das vezes que fui apalpado em lugares impróprios publicamente. Eu gosto da fama, da atenção, embora, às vezes, eu gostaria de ser admirado apenas pelo o que eu sou. Como uma pessoa, não uma fantasia. Finalmente conseguimos chegar em uma mesa. M@l me sento e uma tiete se apossa do meu colo e do meu peito. Ela parece ter quatro braços e suas mãos acariciam irritantemente os meus cabelos. Digo irritante porque ela não está acariciando o Michael, eu. Está vivendo sua fantasia, sou apenas um fetiche, um brinquedo. De canto de olho, vejo Rico e sua amiga ruiva no balcão do bar. Dou uma desculpa para me livrar desse molusco e vou até eles. Apoio-me no balcão, fingindo um ar desinteressado, apesar de sentir essa necessidade extrema de saber o que acontece realmente entre esses dois. Eu a encaro e é como se eu fosse atravessado por um tiro. Sequer consigo piscar. Se feitiçaria existe, essa mulher é uma bruxa! Fico esperando que ela fale alguma coisa, qualquer coisa. Afinal, é assim que tudo acontece. No máximo eu digo um “Oi.” A mulherada se derrete e eu ganho a noite. Contudo, ela apenas me encara, me atravessando com um olhar matador. Não é fatal, tipo “mulher fatal”. É matador. Sinto como se ela enxergasse através de mim e soubesse cada segredo sórdido meu que desejo nunca desenterrar. Rico não parece se incomodar com nossa intensa troca de olhares. Isso é bom. Sei que causei má impressão no backstage quando a encurralei contra a parede, porém... Será que foi tão ruïm assim? Resolvo ser o primeiro a quebrar o clima tenso. ㅡ Você gostou? Ela arregala os olhos e torce os lábios em um bico irritado. ㅡ Minha opinião te interessa? Acho que realmente foi ruïm. Encolho os ombros e passo uma mão por meus cabelos tentando relaxar. Que droga, Michael! Quando foi que uma garota te deixou tão tenso? De qualquer forma, não pretendo deixar que ela se sinta por cima. ㅡ Você pareceu interessada. Sei que ela gostou, estava escrito em seu rosto. Não consigo evitar um sorriso zombeteiro. Então, ela me quebra. ㅡ Sim, não foi tão ruïm. Se eu tivesse levado um tiro na cabeça, não teria sido tão eficaz. Que porr@ é essa de “não foi tão ruïm”? Bom, vamos brincar, já que é o que parece que ela quer. Faço todo um teatro, me demonstrando ofendido. Chego a colocar a mão no peito. ㅡ Isso é tudo? Percebo que minha atuação a irrita. Ótimo! ㅡ Tudo bem, tudo bem... Você é muito talentoso. Melhor assim? Sorrio sinceramente para ela e resmungo algo que nem eu mesmo entendo. Acho que foi um “Oh” de surpresa e a encaro solenemente. Por um milésimo de segundo, me perco em seu olhar e esqueço-me de onde estamos. É possível que alguém perca a cabeça nos olhos de outra pessoa? Pois é assim que me sinto agora. Completamente tragado e arrebatado por ela. Observo sua boca tão deliciosa por um instante. Vejo-me desejando esses lábios na minha pele. Quando meu olhar encontra o dela novamente, Rico, o bocudo, entra no circuito. ㅡ Vejo que você parece fascinado pela minha amiga. Você sabia que ela toca piano? Porr@, Rico! De onde saiu isso? Desvio meu olhar dela e o encaro. Ele está fazendo aquela cara travessa e eu entendo tudo. Ele não está a fim dela. Está tentando bancar o cupido. Que coisa ridícula! Desde quando eu, Michael Denver, preciso de cupido? Contudo, a julgar pelo o que já vi dessa garota, é melhor ir com calma. ㅡ Que tipo de música você toca? Ela me observa confusa. ㅡ Oh... Hum... Para falar a verdade, estou meio enferrujada, foram muito anos sem tocar, mas... Um pouco de tudo, de música clássica ao rock. Não posso deixar de brincar com a situação. É mais forte que eu. Alguém que não se especializa em algo que faça, não pode ser levada a sério. Ainda mais tratando-se de música, o que para mim é como o soro da vida. Deixo escapar um pouco de desdém na minha pergunta. ㅡ Então, você tem talentos desconhecidos? Seus olhos verdes me encaram com certo desinteresse. ㅡ Você é maníaco depressivo? O quê? Quem essa maluca pensa que é? Seu ar de auto satisfação, de quem me pegou de guarda baixa, é suficiente para que eu chute o balde do limite da educação. Quando estou prestes a lhe dar uma resposta à altura, sinto a mão do Pete no meu ombro. ㅡ Parceiro, vamos tomar um drinque no Star Club. Você vem? Ho®a da vingança. Eu olho ao redor, examinando todos os pares de olhos femininos sobre mim, deixando bem claro para essa doida varrida que é ela quem está perdendo e que sou eu quem escolhe aqui. ㅡ Tudo bem. Não há mais nada mais interessante nesse lugar mesmo.
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