*Michael PoV*
Observo-a voltar para o hotel em silêncio. A porta lateral da van se abre e Dorothy sai de dentro dela, esfregando os olhos.
ㅡ Nossa, dormi como uma pedra. Tive a impressão de ter escutado uma gritaria.
Eu respiro fundo e coloco as mãos nos bolsos.
ㅡ Não foi nada. Vá pegar seus pertences no hotel. Estamos de saída.
Vejo Pete voltar da praia. Ele olha um momento na direção do hotel e me encara com tristeza.
ㅡ Parceiro, eu juro que...
ㅡ Estamos indo embora. ㅡ Eu me viro e me afasto. Ele coloca a mão no meu ombro e, antigamente, eu teria sentido alívio por esse gesto. Hoje, no entanto, só sinto raiva e uma vontade enorme de espancar o cara que conheço desde a infância. Ele me encara silenciosamente por alguns segundos e retira o braço, como lendo a decepção nos meus olhos. ㅡ Vou cuidar do check-out.
Fico um tempo no salão do hotel e a vejo sair porta afora com sua bagagem sem olhar na minha direção. Vou até o quarto e arrumo minha mochila de roupas. Paro na entrada do cômodo, olhando para o seu interior.
O que começou como a promessa do paraíso, acabou se tornando a certeza do inferno de uma forma c®uel e repentina.
Respiro fundo e tranco a porta.
ㅡ Depois eu é que sou a cabeça-dura...
Deixo minha mochila cair com o susto que levo. Dorothy está diante de mim, de braços cruzados, me encarando duramente. Sua mala está encostada na parede e me adianto em pegá-la.
ㅡ Eu ajudo você.
ㅡ Não precisa. Você e sua namorada brigaram feio.
A essa altura do campeonato, nem sei mais se tenho uma namorada…
ㅡ Você escutou, não foi?
ㅡ Foi impossível não ouvir, vocês praticamente gritaram um com o outro o tempo todo e ainda teve o soco que você deu na van. ㅡ Ela descruza os braços, repousando-os na cintura, e dá uma breve risada desgostosa. ㅡ Ouvi inclusive quando ela pediu a minha cabeça...
Merd@...
ㅡ Dorothy, eu não quero que nenhuma das duas saia da banda. ㅡ Levanto as mãos para o alto em desespero. ㅡ Porr@! Por que é tão difícil para vocês duas se entenderem?
ㅡ Olha, eu só posso falar por mim. Porém, pelo o que eu percebi, ela está morrendo de ciúmes. Nesse ponto, eu dou razão à ela.
Franzo a testa, completamente surpreso.
ㅡ Isso é novidade... Desde quando você toma o partido dela?
ㅡ Bom, vamos colocar de uma forma que você talvez entenda. Vamos inverter a situação. Se você e o Rico tivessem brigado por causa dela e ela tivesse ido atrás dele, te deixando sozinho a noite toda, como você se sentiria?
ㅡ Não é a mesma...
ㅡ Quantas vezes você ligou para ela para avisar que estava bem?
ㅡ Não deu para ligar… Estava tentando te encontrar, achei que ela estivesse segura com o Pete. Apaguei de cansaço depois que você dormiu e quando acordei a bateria do celular acabou.
ㅡ Eu fico lisonjeada, mas você também pisou na bola, Michael. Ela se sentiu completamente ignorada. O que você teria feito no lugar dela?
ㅡ Seja lá o que fosse, eu certamente não ficaria de put@ria com a melhor amiga dela!
Pego minha mochila do chão e retorno para a van, sem lhe dar chance de falar qualquer outra coisa. Já estou de saco cheio. Eu só quero cair na estrada e esquecer tudo isso um pouco, se for possível.
Amber Lee já está sentada na parte de trás da van, Pete está encostado na porta do carona, de braços cruzados. Ele se endireita quando me vê. Parece querer me dizer algo, contudo ele se cala. Ela sequer olha para mim, está concentrada em seu celular.
Que seja!
Eu jogo minha mochila no chão da van e assumo o volante. Dorothy chega e coloca suas coisas na parte de trás. Pete abre a porta do carona e faz menção de entrar.
ㅡ Você não.
Meu tom é severo e nem olho para ele. Ouço-o suspirar e entrar na parte de trás da van, enquanto Dorothy se senta do meu lado na frente. Resolvo ignorar a presença de todo mundo e me concentro apenas na estrada durante um bom tempo, mesmo que, às vezes, imagens dos dois se divertindo, ou dele tirando a roupa dela, cruzem a minha mente.
Maldição!
*Amber Lee PoV*
Finjo ter algo interessante no celular quando Michael retorna. Não quero olhar para ele agora, que expulsa o Pete da frente da van para ter a companhia da Dorothy enquanto ele dirige. Patético.
Não aconteceu nada, não é? Eu seria muito burra se caísse nessa conversa!
O veículo parte e eu me sinto sufocada com o silêncio que toma conta do ambiente. Decido mandar uma mensagem para o Rico. Ele tem o dom de animar a gente em qualquer situação. No entanto, a resposta dele me surpreende.
“O que o idïota do Michael fez dessa vez, ojitos?”
“Nada. Só estava com saudades.”
“Sei… Faz quase um mês que vocês saíram e você não teve saudades de mim até agora. Desembucha.”
Michael liga o rádio da van e a música que toca só me deixa mais angustiada. Eu suspiro derrotada e decido contar o que aconteceu para o Rico. Levo um esporro como resposta.
“Você fez o quê? Ficou doida?”
“Ele mereceu, Rico!”
“Ojitos, conselho de homem e amigo. Não se usa o melhor amigo do namorado para se vingar! É um golpe muito baixo! Teria sido mais humano chutar as bolas dele!”
Um sorriso fraco surge nos meus lábios de forma involuntária.
“Eu tive vontade…”
“O que eu faço com você, senhorita cabeça quente? Como estão as coisas entre vocês?”
“Não estão. Sequer estamos olhando um para o outro.”
“Isso não é certo… Vocês devem conversar e resolver suas pendências. Imagine as merd@s que estão passando pela cabeça dele agora?”
“Não queira nem saber o que passou na minha…”
“Vocês parecem duas crianças birrentas. Vou dar uma surra em cada um quando chegarem.”
Pete se aproxima de mim para conversar, sentado no chão da van. Deixo a conversa com Rico de lado. Não era bem o que eu esperava de qualquer forma.
ㅡ Você me meteu em uma enrascada dos di@bos, Amber Lee…
ㅡ Desculpe por isso, Pete. Não queria te usar daquela maneira, mas ele já estava nos acusando com o olhar antes de tudo. Não consegui segurar a minha língua.
ㅡ Era só não ter posto lenha na fogueira! Fale com ele.
ㅡ De jeito nenhum!
ㅡ Por favor…
Eu grunho irritada e olho para o motorista. Percebo o peso de seu olhar pelo retrovisor me recriminando. Desvio minha atenção para o chão e falo aos sussurros com Pete.
ㅡ Você acha que adiantaria alguma coisa? Ele está convencido que tivemos algo.
ㅡ Por que será, heim?
ㅡ Isso não me ajuda, sabia?
ㅡ Então, é melhor pensar em algo rápido, pois, pelo rumo que a situação tomou, ele vai chutar o balde logo. Você quer perdê-lo?
ㅡ Para ele correr para ela na primeira oportunidade e me deixar sozinha de novo?
Ele rosna e cruza os braços, me encarando seriamente. Seus lábios murmuram “mula empacada” e eu decido voltar ao celular.
“Não adianta tentar me ignorar, ojitos. Vou te atormentar por dias e você sabe perfeitamente do que sou capaz.”
É, eu sei… Estou ferrada…
*Michael PoV*
Adele começa a tocar no rádio e eu aumento um pouco o som, mesmo não sendo um apreciador do gênero. Qualquer coisa para tirar minha atenção dos pensamentos que me consomem. Eu me sinto destruído.
We could've had it all
(Nós poderíamos ter tido tudo)
(You're gonna wish you never had met me)
(Você vai desejar nunca ter me conhecido)
Rolling in the deep
(Rolando nas profundezas)
(Tears are gonna fall, rolling in the deep)
(Lágrimas irão cair, rolando nas profundezas)
You had my heart inside of your hand
(Você teve o meu coração em suas mãos)
(You're gonna wish you never had met me)
(Você vai desejar nunca ter me conhecido)
And you played it to the beat
(E você brincou com ele, no ritmo da música)
(Tears are gonna fall, rolling in the deep)
(Lágrimas irão cair, rolando nas profundezas)
Não é uma escolha de música muito feliz, que só me deixa mais para baixo.
Pete... Amber Lee... Eu jamais imaginei que... Como será daqui para frente? Temos que ficar constantemente juntos por causa da banda. E, no momento, é difícil suportar a presença de qualquer um dos dois.
Olho rapidamente para ela através do retrovisor. Está sorrindo fracamente para seu celular.
Seu sorriso é capaz de me derrubar sem o menor esforço.
Volto minha atenção para a estrada, com uma horrível e amarga sensação.
Nossa história m@l começou e, agora, parece que já acabou...
Escuto-a gemer e a observo pelo retrovisor. Pete está perto dela, sentado no chão. Os dois cochicham um para o outro. Volto a sentir o ciúme me corroendo por dentro, enquanto ela me encara um momento.
Esses dois... Sempre foram muito íntimos, muito amigos... Só o idïota aqui não queria ver... Aquela maldita música me fez pensar que ela me amava. Acho que estava errado.
De qualquer forma, não consigo evitar imaginar sobre o que tanto falam. Talvez, estejam marcando algo pelas minhas costas ou trocando segredinhos ridículos de amor.
Eu acho que vou enlouquecer! Vou ter que ignorar os dois. É a única maneira de aguentar tudo isso.
A viagem de volta foi feita em um silêncio quase mortal, pois tive que desligar o rádio, que parecia querer aumentar a minha fossa. Foi quase um mês para ir até Miami, por causa das escalas que tínhamos que fazer durante o percurso para nos apresentar, quando, na verdade, é uma viagem de menos de vinte quatro ho®as de carro.
Eu dirijo por ho®as, só para me manter ocupado. Concentrar-me na estrada é melhor que ficar pensando nos dois e no que pode ter acontecido entre eles.
Merd@ de obsessão estüpida!
Quando meus músculos parecem querer gritar, alterno a direção com a Dorothy, ficando no carona. Depois, Pete assume o volante e eu vou para a parte de trás da van. Talvez, seja um bom momento para tentar salvar os destroços dessa relação. Entretanto, Amber Lee não pensa duas vezes antes de pular para o banco na frente ao lado dele.
Se é assim que ela quer... Assim será...
De volta a Nova Iorque, fazemos um último show de encerramento da turnê. Devo confessar que em péssimas condições emocionais. Estou ignorando tudo e todos ao meu redor. Dedilho alguns acordes na minha Fender, enquanto me concentro no backstage.
Acho que, no final, só posso contar com a música mesmo.
Estou frustrado e com raiva. Vejo Amber Lee passar para ir para o seu instrumento. Meus olhos a seguem como se estivessem grudados em suas costas. Respiro fundo e subo no palco. Hoje, não estou a fim de me segurar. O baixo é indiferente, a bateria desaparece e o teclado é irritante. Concentro-me apenas no público e na minha guitarra. É só o que eu tenho, é só o que sempre tive. Embarquei em um sonho bobo, como se fosse um adolescente apaixonado. Olho para ela e nossos olhares se cruzam por um instante.
Eu não preciso de amor.
Praguejo internamente quando chega a vez da canção dela. Música para mim sempre foi sinônimo de prazer e sublimação. Porém, não hoje. Eu só quero que essa tortura acabe. Cuspo as palavras com raiva, a Telecaster é como um escudo para me defender das notas do teclado.
Estava sozinho antes dela, posso continuar assim.
Despeço-me do público ao final do show e saio do palco sem falar com nenhum memb®o da banda.
Não vejo a ho®a de chegar em casa e ficar só. Acabar com esse tormento. Se eu não a vir, talvez consiga aplacar a dor no meu peito.