Capítulo 3

1300 Words
As horas pareciam ser arrastar diante dos olhos de Laura. Ela perdeu as contas de quantas vezes foi até ao balcão de informações do hospital e perguntou, mas todas as vezes ela sempre recebia a mesma resposta: “Não temos informações sobre a paciente.” Olhando a chuva fina que começava a cair naquele início da madrugada, uma lágrima escorreu pelo seu rosto. Pela primeira vez desde que tudo aconteceu, permitiu-se chorar. Seu peito doía por estar guardando todos aqueles sentimentos dentro de si. Necessitava liberar toda angústia e medo, e chorar era a maneira mais fácil naquele momento. Apoiando sua cabeça nas mãos, chorava baixinho. Laura não queria chamar atenção para si, só queria acordar e ver que tudo não passou de um terrível pesadelo. — Familiares de Núbia Cooper — a voz cansada do médico trouxe Laura de volta ao mundo real. — Sou filha — respondeu, passando as mãos em seu rosto, limpando os vestígios das lágrimas. — Como está a minha mãe, doutor? Ele a olhou de cima a baixo e tentou descobrir sua idade. Laura parecia ser mais nova do que aparentava, mesmo tendo um corpo de dar inveja a outras mulheres. — Quantos anos a senhorita tem? — Dezenove, mas isso não vem ao caso, me diga como está a minha mãe? Ele suspirou e olhou na ficha que tinha nas mãos. — Sou o doutor Félix. — Uma mão grande surgiu na frente de Laura, e mesmo estando impaciente, ela retribuiu o gesto. — Sua mãe chegou aqui em quadro muito grave. Ela ingeriu uma grande quantidade de tranquilizantes. Fizemos uma lavagem estomacal e alguns exames. Ela está muito debilitada; com uma anemia profunda e um quadro de infecção pulmonar. Pelos exames, constatamos que ela era fumante há muitos anos. Laura concordou com tudo. Núbia fora fumante ativa desde seus dezoito anos. Foi nessa mesma época que ela conheceu seu marido, depois de oito anos de casada engravidou e trouxe ao mundo Laura, sua primeira filha. — Posso vê-la? — Não será possível, pelo menos não agora. Tivemos que levá-la para o CTI, está sedada. Assim será melhor para a recuperação dela. Não gostamos de deixar os pacientes em coma induzido, mas quero que entenda que essa era a melhor opção para a sua mãe. O chão parecia se abrir para Laura, e aos poucos ela estava sendo sugada para dentro. Nada fazia sentido. Naquela mesma manhã, ela deixou sua mãe bem e estável em casa, tão estável que não precisou deixar sua irmã com a vizinha. Ela não sabia o porquê daquela reviravolta. Culpava-se por não ter seguido seus instintos. Se martirizava também por não ter ficado com a mãe, ela precisava da filha, e se ela estivesse lá para ajudar, talvez nada daquilo tivesse acontecido. Laura não tinha muito o que fazer naquela sala de espera. Aceitou o conselho do médico e foi para casa. Ela tinha a irmã para cuidar. Caminhou sem vontade até o ponto de ônibus e esperou até que a condução chegasse. Sentada no último banco da condução, encostou a cabeça no vidro e fechou os olhos. Estava cansada, mas não só fisicamente; muito mais emocional. A primeira coisa que ela fez assim que chegou em casa, foi pegar sua irmã que já dormia tranquilamente. A colocou em sua cama e beijou suas bochechas. Voltou para a sala e começou a arrumar toda aquela bagunça. Pegou os cacos de vidros e com cuidado, os jogou no lixo. As fotos onde seu pai sorria ao seu lado, ela fez questão de rasgar e jogar fora. Laura não queria nada que a fizesse lembrar dele. Estava furiosa com ele, e precisaria de tempo para poder colocar as ideias em ordens e confrontá-lo. Tudo arrumado, ela decidiu que estava na hora de um banho. Talvez aquilo a ajudasse um pouco. Laura abriu o registro do chuveiro e deixou que ele esquentasse o máximo possível. Tirou sua roupa suada e a deixou jogada ao chão. Não estava bem, ela sabia disso e qualquer um que a olhasse veria o quanto estava cansada. De olhos fechados e cabeça erguida, ela sentiu as primeiras gotas de água caírem sobre seu corpo. Uma corrente de alívio fez morada em seu corpo. Seus músculos foram relaxando e ela soltou um longo suspiro. Parecia que o banho tinha propriedades mágicas que a faziam relaxar. Ainda no banho, Laura se deu conta de que sua mãe estava internada no hospital central de Nova Iorque, um hospital de grande porte e caro. Ela não tinha pensado em nada disso quando viu sua mãe caída no chão do quarto, apenas ligou e implorou por socorro. Agora que tudo estava se encaixando nos lugares certos, ela se deu conta de que não tinha dinheiro suficiente para pagar os exames da mãe, ela teria que recorrer ao dinheiro que vinha guardando para viajar com o grupo de dança. Uma viagem que estava sendo programada para o final do ano, e ela era uma das dançarinas que iria se apresentar para uma grande companhia de balé. Aquela era a chance de Laura para dar um salto perfeito em sua carreira, mas parecia que o destino não queria que isso acontecesse. Depois de um banho esclarecedor, deitou-se no quarto da irmã, ela não queria passar a noite sozinha. Precisava ter alguém ao seu lado, e esse alguém era Nicolle, que não merecia ter visto a mãe caída no chão, praticamente sem vida. — Ah, Nicolle, como eu queria apagar da sua cabeça o que você viu — lamentou, baixinho ao lado de sua irmã. Com cuidado para não acordá-la, Laura se deitou ao seu lado e ali adormeceu abraçada a irmã. O sol m*l havia raiado e a moça já estava de pé. Preparou o café da manhã da irmã e deixou pronta sua mochila. Mas uma vez ela teria que deixá-la com a vizinha. Hospital não era lugar para levar uma criança pequena, sem contar que estava decidida a transferir sua mãe. A condição financeira delas não as deixavam ter um plano de saúde que cobrisse esses tipos de incidentes, nem outros. Seu pai nunca se dispôs a fazer um, nem para as próprias filhas. Lembrar dele lhe causava náuseas. — Obedeça a senhora Cecília. Tudo bem? — A mamãe vai ficar bem? — Pela primeira vez desde que acordou, Nicolle perguntou sobre a mãe. — Ela morreu? — Não, meu amor. A mamãe não morreu. Ela passou m*l, mas os médicos estão cuidando muito bem dela. Daqui a pouco ela estará aqui com a gente. Agora vai lá brincar com as netas da senhora Cecília. — Laura sentia seu peito apertar. Era como se mentisse para sua irmã. — Vem cá. Me dá um abraço. Nicolle passou seus bracinhos finos ao redor do pescoço de Laura e a beijou no rosto. — Vai dar tudo certo, minha filha — disse Dona Cecília ao se despedir de Laura. Com a cabeça a mil por hora, pegou o primeiro ônibus que viu, nem se importou com a superlotação, ela queria chegar cedo e rápido ao hospital. Tinha muitas coisas para resolver no dia e o ônibus era o de menos. O barulho alto das pessoas falando em seu ouvido a deixou com dor de cabeça. Parecia que a cada parada que o motorista fazia mais e mais pessoas entravam no coletivo. Não cabia mais ninguém, mas mesmo assim, ele insistia em parar. Laura chegou a cogitar em descer alguns pontos antes, mas ela já estava ali, então o que seria mais cinco paradas? Assim que desceu do ônibus, respirou fundo. Aquele com certeza tinha sido um percurso complicado. Laura deixou isso de lado e se dirigiu para a entrada do grande hospital: um prédio de mais de trinta andares todo espelhado por fora.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD