Capítulo 4

1112 Words
— Bom dia, por gentileza, eu quero notícias da paciente Núbia Cooper. — Laura esperou para que a outra recepcionista a respondesse. Com certeza já deveriam ter trocado de plantão. — O doutor Félix irá atendê-la. — Desculpa, mas você não sabe nada a respeito sobre a minha mãe? — Nervosa, Laura pressionou. — Somente o médico de plantão poderá informá-la. — A recepcionista de cabelos vermelhos e pele branca, olhou para trás de Laura e sorriu. — O doutor Félix está vindo. Laura virou-se, irritada e foi até o médico que a encarava com um semblante derrotado. — Como está a minha mãe? Posso vê-la? Quero respostas. Félix suspirou e delicadamente deu a notícia que ninguém deseja ouvir. — Infelizmente, sua mãe faleceu hoje pela manhã. Se antes o chão parecia estar se abrindo e sugando Laura aos poucos, agora ele definitivamente a tinha tragado para baixo. Acabara de ouvir que a mulher que mais lhe importava faleceu. A mesma mulher que a carregou durante nove meses. Aquela que brigou com o marido quando ele soube que ela faria dança e foi contra. Sua guerreira havia se rendido e perdeu a batalha. Laura se esqueceu de onde estava e correu pelo corredor, sem direção. Ela queria ver com os seus próprios olhos, queria ver se era verdade o que tinha ouvido. Félix correu atrás de Laura e a alcançou. A trouxe para seus braços e deixou que ela chorasse por sua perda. Infelizmente, ele passava por aquilo todos os dias, era inevitável, mas aquela menina havia mexido como ele. — Minha mãe... — O choro e a dor embaralhavam sua fala. Quanto mais ela tentava falar, mais chorava. — Minha mãe... minha mãe morreu! Com ajuda das enfermeiras, Félix e sua equipe levaram Laura até um quarto para descansar. Ela não estava doente, no entanto, precisava se acalmar para poder agilizar os papéis do enterro da mãe. Um medicamento foi prescrito para que ela se acalmasse; nada aliviaria sua dor. Parte dela havia morrido. Um buraco enorme abriu em seu peito. Era uma dor sem explicação, algo que jamais ninguém conseguiria preencher. — Senhorita Cooper, sou Emília Stron. — Uma mulher vestida de azul-escuro entrou no quarto. Seus cabelos loiros combinavam perfeitamente com sua pele branca feito porcelana. — Sinto muito por sua perda. Sei o quanto é difícil, mas temos que tratar de alguns assuntos burocráticos. Sou assistente social do hospital e quero saber qual plano de saúde e funerária a senhora Núbia possuía? A jovem encarou a mulher à sua frente e não respondeu nada. A assistente social perguntou novamente, mas não obteve resposta. Laura estava em choque. Sua ficha ainda não tinha caído. — Senhorita Cooper? — Emília tentou mais uma vez. — Se a senhorita não estiver em condições de cuidar desse assunto, terei que entrar em contato com outro parente. — Sou a única responsável. — Com dificuldade, Laura conseguiu falar. — Não temos plano de saúde e nem funerária. Emília, que antes mostrou-se amigável, bufou e revirou os olhos. Ela detestava o seu trabalho, odiava ter que lidar com pessoas do nível social de Laura, contudo, tinha que manter a postura profissional. Emília nem sempre odiou seu trabalho, mas havia dias que ela desejava nunca ter escolhido aquela profissão. — Peço que passe no balcão de informações e negocie a melhor maneira de pagar pelo tempo que sua mãe ficou aqui. Infelizmente, não posso fazer muito. Trabalhamos com planos e se soubéssemos que a senhora Núbia não possuía nenhum, seria impossível deixá-la aqui. Me desculpe. Se Laura estivesse em condições emocionais boas, ela teria pulado em cima da loira e arrancado fio por fio daqueles cabelos com as mãos. Mas o que ela fez, foi levantar e passar por Emília como se ninguém estivesse ali. Seguiu até o balcão de informações e assim que chegou à conta do hospital já estava pronta. Parecia que ela andava com um letreiro escrito na testa EU SOU POBRE em letras garrafais. — Tudo isso? — perguntou, assustada. — Está tudo explicado. Internação, exames, quarto e remédios. — A recepcionista indicou com dedo. — Dinheiro ou cartão? Laura sabia que sairia caro uma consulta naquele hospital, ela só não imaginava que seria explorada daquela maneira. Mesmo que possuísse um bom plano de saúde, ainda assim não conseguiria uma internação ali. — Dinheiro. — Então, Laura puxou sua carteira e tirou o cartão de debito, todo o dinheiro que havia juntado com o seu trabalho de babá, e pagou. Ficou apenas com a quantia certa para pegar o ônibus de volta para casa. — Como faço para ver minha mãe? — No momento o corpo está no IML. Assim que a funerária que a senhorita escolher chegar ao hospital, eles a levarão para realizar os procedimentos para o enterro — informou a recepcionista. — Sei que é um momento difícil, mas preciso saber, pretende doar os órgãos da senhora Núbia? Laura não fazia ideia de como aquela pergunta poderia machucar até que ouviu. — Sim. — respondeu, sem ânimo, porém certa de que sua mãe aprovaria sua decisão. Juntando o resto das suas forças, Laura arrastou seus pés para fora do local. Eram quase uma hora de distância do hospital para sua casa de ônibus, tempo o suficiente para ela pensar em como faria dali para frente. Ela só tinha uma saída, ligar para seu pai. Com suas mãos trêmulas, ela pegou seu celular na bolsa e discou o número dele. “O número digitado não existe.” Laura franziu o cenho. Conferiu se o número estava certo e ligou novamente. “O número digitado não existe.” Ela tentou mais uma vez e a mesma resposta foi ouvida. Ele havia cancelado seu número, cortando de vez qualquer vínculo com a família. Laura estava sozinha no mundo, era somente ela e sua irmã. Sem mãe e abandonada pelo pai. Uma adolescente que teria que amadurecer cedo demais, tomando para si as responsabilidades que até o momento, não eram dela. Ela desceu do ônibus, e passou direto pela porta da dona Cecilia. Necessitava de um tempo sozinha para pensar. Assim que parou em frente à sua porta, uma carta colada chamou sua atenção. Uma pequena chama de esperança se acendeu dentro dela, talvez seu pai estivesse explicando tudo através daquela carta. Ela a pegou e viu que não era uma simples carta, e sim uma ordem de despejo. Seu pai não pagava o aluguel havia quatro meses, e aquele era o último aviso. Laura entrou em desespero, viu que de fato estava sozinha e de brinde, seu pai lhe deixara uma dívida. Ela se perguntou o que mais lhe faltava acontecer.
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