Thomas sempre acreditou que o tempo o havia deixado mais maduro — mais preparado para as verdades duras da vida.
Mas nada o preparou para o golpe silencioso que veio de Thamires.
Ele descobriu por acaso.
Um comentário solto do irmão, uma foto antiga nas redes, uma conversa que ele não deveria ter ouvido.
Thamires tinha alguém. Um namorado. Um homem de outro estado, com quem ela ainda mantinha contato.
A princípio, Thomas não quis acreditar.
Negou para si mesmo, como quem tenta empurrar a dor para um canto do peito e fingir que não a sente.
Mas a verdade, uma vez vista, não se apaga.
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No fim de semana seguinte, quando chegou à casa da mãe, Thamires estava lá.
Sorriso no rosto, brincando com o cachorro, como se nada tivesse mudado.
Ele fingiu também. Cumprimentou-a, jantaram juntos, conversaram sobre banalidades.
Mas havia algo diferente em seu olhar — mais frio, mais contido.
Quando a mãe subiu para dormir, ficaram sozinhos na varanda.
— Você ficou estranho — disse ela, cruzando os braços. — Aconteceu alguma coisa?
Thomas respirou fundo, sem olhá-la.
— Nada que eu já não soubesse.
Ela arqueou as sobrancelhas, desconcertada.
— O que isso quer dizer?
Ele se virou, encarando-a com calma.
— Quer dizer que eu descobri que você não é só “minha”, Thamires.
Por um instante, o silêncio foi mais pesado que qualquer grito.
Ela desviou o olhar, envergonhada.
— Eu nunca prometi nada, Thomas.
Ele assentiu, com um meio sorriso amargo.
— Eu sei. E é por isso que eu também não prometo mais nada.
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A partir dali, o que havia entre eles mudou.
Já não havia expectativa, nem promessas, nem planos.
Só o corpo que insistia em lembrar do que o coração queria esquecer.
Quando Thomas vinha aos fins de semana, era sempre igual:
olhares cruzados, um toque que dizia tudo o que a boca não dizia, uma noite silenciosa e cheia de verdades caladas.
De manhã, ela agia como se nada tivesse acontecido.
E ele fingia não se importar.
Mas no fundo, sabia que cada vez que dormia com Thamires, uma parte dele se perdia um pouco mais.
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Durante a semana, em Caruaru, tentava se convencer de que era apenas isso — um acordo informal entre dois adultos.
Mas o vazio o perseguia.
Trabalhava mais, saía menos, e quando chegava em casa, sentia a solidão encostar no ombro como uma velha conhecida.
Escreveu no caderno:
> “Achei que estava livre das correntes, mas percebo que só troquei o material delas.
Antes, eram feitas de culpa.
Agora, são feitas de desejo.”
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Certa noite, após mais uma visita à casa da mãe, ele acordou antes do amanhecer.
Thamires dormia ao seu lado, o rosto sereno.
Por um instante, quis acreditar que havia algo ali — que talvez ela o amasse, mesmo que não dissesse.
Mas logo a lucidez voltou.
Levantou-se devagar, vestiu a camisa e olhou para ela uma última vez.
— A gente só se encontra quando se perde — murmurou.
Saiu do quarto, atravessou o corredor e foi até o quintal.
O céu começava a clarear, e ele respirou fundo, sentindo o vento da manhã.
Ali, sozinho, percebeu que a verdadeira liberdade não estava em se livrar das pessoas — mas em se livrar da necessidade de ser salvo por elas.
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Naquela semana, ao chegar em Caruaru, Thomas decidiu:
não voltaria no próximo fim de semana.
Nem no outro.
Era hora de quebrar essas últimas correntes invisíveis — as que não se veem, mas apertam mais do que qualquer culpa antiga.
E, pela primeira vez, ele não se sentiu vazio.
Sentiu-se vivo.
Pronto para um novo começo — e, dessa vez, sozinho por escolha, não por destino.