Capítulo 24 – Entre o Pecado e a Liberdade

757 Words
O tempo passou como quem apaga pegadas na areia. Os meses em Olinda se tornaram um período de cura silenciosa, mas também de descoberta. Thomas, agora mais calmo, começou a sentir algo que há muito tempo não sentia: vontade de viver. Tudo começou com uma mensagem simples no celular — um antigo amigo do banco, André, o convidando para sair. “Vai ter um encontro do pessoal no bar do Recife Antigo. Bora?” Thomas hesitou. Bares, risadas, música… tudo aquilo que a igreja sempre dizia ser “do mundo”. Mas, pela primeira vez, ele não quis fugir do mundo. Quis fazer parte dele. O Bar do Porto estava cheio naquela sexta-feira. Luzes amarelas, cheiro de cerveja gelada, e uma banda tocando sucessos antigos. Quando Thomas entrou, o coração bateu mais rápido — não por culpa, mas por lembrança. André levantou o copo, sorrindo. — Rapaz, até que enfim! Pensei que tinha virado monge! Thomas riu. — Já fui pior… quase um padre de terno e Bíblia na mão. As gargalhadas foram sinceras. Aquela noite o fez lembrar que ainda havia leveza, mesmo depois da culpa. Conversou, riu, contou histórias do banco, até cantou um trecho de uma música quando o garçom brincou com o microfone. E pela primeira vez em muito tempo, não se sentiu hipócrita. Sentiu-se vivo. Depois disso, as saídas se tornaram mais frequentes. Um almoço com os amigos, um jogo de futebol na televisão, um passeio pela praia à noite. Nada grandioso, apenas o redescobrir do simples. Certa noite, ao voltar para casa, encontrou tia Rosa esperando com o semblante tranquilo. — Tá voltando tarde, hein? — brincou. Thomas sorriu, ainda com o som das risadas ecoando nos ouvidos. — Fui tomar uma cerveja com o pessoal. — E como foi? — Foi… bom. — Ele respirou fundo. — Esquisito no começo, mas bom. A tia assentiu, como quem entende mais do que diz. — Sabe o que é isso, meu filho? Isso é saudade de si mesmo. As palavras dela o acompanharam até o travesseiro. E, naquela noite, ele dormiu sem o peso da culpa. Algumas semanas depois, Thomas recebeu uma ligação da mãe. A voz dela, firme, mas amorosa, veio do outro lado da linha. — Tô sabendo que tu tá na casa de Rosa. Por que não vem pra cá um tempo? — Pra casa? — É. Teu quarto ainda tá igual. Ele pensou por um instante. A mãe sempre fora uma mulher simples, temente a Deus, mas diferente de Eloísa — tinha fé sem julgamento. — Talvez seja bom. De volta ao Recife, o reencontro com a mãe foi silencioso e cheio de ternura. Ela o abraçou com força. — Tu emagreceu, menino. — Perdi mais que peso, mãe. — respondeu, rindo. — Mas tô tentando me achar. A casa cheirava a café e a bolo de milho. O mesmo aroma que o fazia sentir-se seguro quando criança. Naquela noite, jantaram juntos. Ela falou da vizinhança, das mudanças na igreja, do pastor novo. Thomas ouviu tudo com um sorriso. — E tu? — perguntou ela. — Vai voltar pra igreja? Ele pensou antes de responder. — Não agora. — Tá certo. — disse ela, tranquila. — Deus também mora fora das paredes, viu? Nos dias seguintes, Thomas começou a reconstruir a rotina. Ajudava a mãe nas compras, arrumava o jardim, saía para correr no calçadão. De vez em quando, encontrava André ou outro colega do banco, tomavam uma cerveja, riam de bobagens. Às vezes, alguém cochichava quando o via. “Olha lá, o que largou a mulher e a igreja…” Mas ele já não se importava. Descobrira que o julgamento alheio só tem poder quando a gente ainda acredita que deve algo a alguém. Certa tarde, sentado na varanda, olhou o pôr do sol refletindo nos prédios. Pensou em Eloísa. Não com dor, mas com um carinho melancólico. Ela sempre seria parte de quem ele foi — mas não do que estava se tornando. Pegou o caderno e escreveu: “Não existe pecado em ser livre. O pecado é mentir pra si mesmo. E eu menti por tempo demais.” À noite, ligou o rádio e sorriu ao ouvir uma música antiga do coral. Não desligou. Cantou baixinho, sem vergonha, sem pedir perdão. Era o mesmo homem de antes — só que agora cantava não para ser aceito, mas para existir. E, pela primeira vez desde que deixara tudo para trás, Thomas sentiu-se em casa. Não apenas na casa da mãe — na própria pele.
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