Capítulo 12 – O Retorno

827 Words
O silêncio do apartamento de dona Marta nunca havia sido tão pesado. As paredes, cheias de quadros bíblicos, pareciam vigiar. O ar estava impregnado de julgamento. Eloísa sentava-se no sofá, as mãos entrelaçadas no colo, o olhar fixo na porta. Desde que Thomas saíra, não tivera uma noite inteira de sono. A dor ainda latejava, mas junto dela havia uma esperança estranha, quase teimosa, de que ele voltaria. Naquela noite, voltou. Quando a porta se abriu, Eloísa conteve a respiração. Thomas entrou devagar, com uma mala pequena na mão e os olhos baixos. Não parecia o mesmo homem que partira semanas antes. Estava abatido, os ombros curvados, a pele marcada pelo peso das escolhas. — Eu errei — disse, antes que qualquer palavra fosse dita. A voz era baixa, mas firme. — E não vou tentar me justificar. Eu perdi vocês. Perdi minha casa, minha família, minha fé… e percebi que nada fora daqui me preencheu. Eloísa respirou fundo. O coração queria correr até ele, mas a mente gritava as feridas que ainda doíam. — Thomas… eu não esqueci. Não foi pouco o que aconteceu. Você me quebrou por dentro. Ele se ajoelhou diante dela, os olhos marejados. — Eu sei. E não espero que seja fácil. Só peço uma chance para tentar reconstruir. Eu prometo que nunca mais vou te trair. O silêncio durou alguns segundos, interrompido apenas pelo som distante de uma panela na cozinha. Dona Marta, que ouvia tudo, surgiu na sala com o rosto endurecido. — Promessa de adúltero não vale nada — cuspiu. — Quem trai uma vez trai de novo. Eloísa levantou a mão, pedindo que a mãe se calasse. Pela primeira vez, foi a voz dela que decidiu. — Mamãe, essa escolha é minha. Thomas ergueu os olhos para ela, em súplica. — Me perdoa, Eloísa. Eu não quero outra vida. Eu quero você. As lágrimas escorreram pelo rosto dela. O peito ardia de raiva, de dor, mas também de amor. No fundo, sabia que ainda o amava, apesar de tudo. — Então volte, Thomas. — A voz dela saiu embargada, mas clara. — Volte para casa. Mas não me faça carregar essa dor de novo. Ele segurou a mão dela, beijando-a com reverência, como quem recebe uma segunda vida. Dona Marta não se conteve. — Vocês estão brincando com Deus! Esse casamento já foi amaldiçoado pelo pecado! Eloísa virou-se para a mãe, firme. — Basta, mamãe. Não é a senhora que vai decidir. O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Pela primeira vez, Marta não encontrou palavras. Eloísa a encarava com olhos que, apesar de vermelhos de choro, estavam firmes. Thomas, ainda ajoelhado, sentiu que aquele momento era mais poderoso que qualquer culto. Pela primeira vez, Eloísa o escolhera por si mesma, e não porque alguém mandara. Naquela noite, Thomas voltou ao quarto. As paredes eram as mesmas, a Bíblia ainda estava sobre a mesinha, mas tudo parecia diferente. Deitou-se ao lado de Eloísa, que ainda chorava em silêncio. Ele não ousou tocá-la, apenas estendeu a mão e repousou sobre a dela. — Eu vou reconquistar sua confiança — murmurou. — Nem que leve o resto da vida. Ela não respondeu. Mas não afastou a mão. Os dias seguintes foram de reconstrução lenta. Eloísa ainda o olhava com desconfiança, mas havia gestos pequenos que mostravam a tentativa: preparar o café, sentar-se ao lado dele no sofá, cantar juntos no coral. Dona Marta, inconformada, continuava a lançar olhares de reprovação, mas já não tinha o mesmo poder. A filha havia decidido — e, mesmo contrariada, a mãe não podia desfazer isso. Na igreja, o retorno foi frio. O pastor não permitiu que Thomas voltasse ao coral imediatamente. Alguns irmãos o cumprimentavam de forma protocolar, outros apenas desviavam o olhar. Ele sentia cada julgamento como uma pedra lançada, mas suportava em silêncio. Sabia que, desta vez, não poderia fugir: teria de carregar a cruz das próprias escolhas. Numa noite qualquer, já deitados, Eloísa se virou para ele. O quarto estava escuro, mas sua voz era clara. — Eu vou tentar, Thomas. Mas eu preciso que você me ajude. Preciso que me prove, todos os dias, que não sou só mais uma obrigação para você. Thomas se aproximou, os olhos marejados. — Você nunca foi obrigação. Foi salvação. E eu deixei escapar. Mas não vou deixar de novo. Ela o abraçou, ainda com medo, ainda com dor, mas com a esperança de que, talvez, fosse possível recomeçar. Na varanda, sozinha, dona Marta observava a cidade silenciosa. A filha havia escolhido perdoar, e isso a deixava em conflito. Parte dela queria acreditar na restauração, mas outra parte ainda repetia que o pecado não podia ser apagado. No fundo, porém, sabia que perdera o controle. Eloísa já não era apenas a filha obediente: agora era uma mulher que, mesmo entre correntes, começava a escolher por si. E, pela primeira vez, Marta temeu que sua voz não fosse mais a única ecoando dentro daquela casa.
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