05 - mais de uma ótica

2491 Words
Dulce Maria  Entrei no carro e fiquei ainda mais tensa por estar a poucos metros de distância dele. O que tinha nesse homem que me deixava tão nervosa? O jeito sério dele deveria me afastar, não me atrair. Eu podia ver em cada linha do seu rosto que ele carregava uma bagagem pesada em sua vida e que isso com certeza afetaria qualquer um que se aproximasse. E mesmo assim eu me via tentada a saber mais.  — Sobre o que você viu ontem, imagino que tenha pensado muita besteira. — ele começou a dizer sem olhar para mim, com uma das mãos segurando firme o volante. — E não importa o que deduziu, aquilo não era da sua conta. — abri levemente os lábios. Isso foi totalmente grosso. — Ainda não entendi o que eu estou fazendo aqui, senhor Von Uckermann. — tentei ser o mais séria que eu conseguia. — Minha filha simpatizou bastante com você, disse que é a melhor professora que já teve. — eu sorri com a informação, mas meu sorriso morreu ao ver que ele continuava na defensiva. — Não interessa que acabe criando vínculo com a Amber, tem coisas que ela não precisa saber. — agora ele me encarou. — Esqueça o que viu.  — Não é da minha conta. — eu disse enquanto o encarava de volta.  — Ótimo. — Deve ter sido muito sério. — desviei o olhar para a aliança em seu dedo. Ele notou o meu olhar e fechou a mão num punho.  — Não deveria ser tão curiosa. — sua voz ficou mais grave. — Isso pode lhe trazer problemas.  — Está me ameaçando? — arqueei as sobrancelhas em surpresa.  — Só dando um conselho. Preocupe-se com a sua vida. — Uau... — sussurrei para mim mesma. — Se era só isso... — coloquei a mão sobre a maçaneta para abrir a porta.  Ele não olhou para mim nem falou mais nada até que eu saísse de seu carro. Assim que bati a porta, ele acelerou e saiu do estacionamento. Tinha algo de muito errado com aquele homem e o universo estava me dando vários sinais para não meter o nariz onde não fui chamada. Mas uma coisa eu tinha que admitir, eu estava curiosa e eu não controlava a minha curiosidade.  [•••] Só teria aula no terceiro turno, seria com o primeiro ano. Fui até o teatro afim de me preparar para o trabalho e aproveitar aquelas primeiras horas livres para meditar um pouco. Depois da tensão que Christopher Von Uckermann deixou em mim, eu precisava relaxar.  Entrei no teatro pelas portas dos bastidores e assim que pisei no palco avistei Isabela deitada no chão enquanto olhava para o teto. Ela estava com a cabeça apoiada em sua mochila e parecia preocupada com algo.  — Bela? — ela se ergueu num susto e respirou ofegante enquanto olhava para mim. — Você deveria estar na sala de aula.  — Eu sei, desculpe. É que eu não estava me sentindo bem e vim para cá. Eu gosto daqui.  — O que houve? — me aproximei dela. — Está passando m*l?  — Não. — sorriu. — Não é nada físico. Eu sei, você vai dizer que eu deveria estar na aula mesmo assim.  — Não, claro que não. — deixei minha bolsa no chão e sentei ao lado dela. — As dores espirituais são tão importantes quanto as físicas. Eu vou deixar você ficar aqui comigo, mas só no primeiro horário, ok? — ela assentiu. — E tem que me prometer que vai assistir todas as outras aulas do dia. — Eu prometo. — sorriu.  — Você quer conversar? — ela tornou a ficar com a expressão fechada e desviou os olhos de mim. — Se não quiser, a gente pode continuar o que você estava fazendo. — olhei para cima. — O que tem de interessante no teto?  — Você é mesmo estranha. — riu. — Desculpe, eu não deveria falar assim.  — Tudo bem, eu sei que sou estranha. — dei de ombros e ri junto com ela.  — Eu tive problemas com a minha mãe. — parece que a minha estranheza a incentivou a se abrir comigo. — Ela sempre está ocupada demais, mas ontem me prometeu que jantaria comigo. Bem, ela não apareceu. — suspirou. — Saiu no início da noite e provavelmente voltou de madrugada, porque eu nem a vi chegar. Às vezes eu tenho vontade de pegar as minhas coisas e só sair de casa, procurar um lugar onde as pessoas realmente se importem comigo.  Me perdi nos meus pensamentos por alguns instantes. A mãe dela não havia aparecido porque estava com Christopher Von Uckermann. E se ela só teria voltado de madrugada, muito provavelmente eles resolveram o pequeno conflito que presenciei e decidiram que era melhor t*****r.  Era estranho eu sentir um pouco de inveja ao imaginar os dois se embrenhando debaixo dos lençóis? Claro que era estranho, tudo sobre mim era.  — Dulce? — Bela me olhava com estranheza depois de eu passar longos segundos em silêncio.  — Desculpe, eu estava apenas refletindo.  — E no que pensou?  — Eu... — na sua mãe transando com o pai da sua amiga. — Sobre os seus problemas, claro. Eu quero te ajudar.  — Ok. — olhou-me esperando que eu falasse mais  — Certo... — respirei fundo. Vamos lá universo, me dê uma ideia, qualquer coisa útil. — Meus pais! — estalei os dedos como se tivesse descoberto algo. Bela franziu a testa e continuou a me observar. — Eu sempre tive uma ótima relação com eles. — comecei.  — Não sei onde isso me ajuda. — ficou ainda mais confusa.  — Ainda não cheguei lá. Eu saí de casa aos quinze anos, não porque eu quis fugir de algo e procurar um rumo, mas porque eles me expulsaram. Eu fui obrigada a amadurecer quando eu era só uma adolescente.  — Você tinha a minha idade. — ficou boquiaberta. — Mas se você tinha uma ótima relação com eles, por que eles fizeram isso?  — Porque eu me meti em uma enrascada e eles não quiseram me perdoar. Mas não importa o que eu fiz, eles eram os meus pais, deveriam me proteger e não me jogar aos lobos. Eu tive muita sorte por ter encontrado pessoas que me ajudaram a seguir em frente, mas a maioria das pessoas nessa situação sempre acabam m*l. — segurei as mãos dela e a olhei com atenção. — O que eu quero dizer com isso é que a vida é imprevisível. Nem sempre as coisas são como nós achamos que é. Eu tinha pais amorosos, mas que me largaram à própria sorte. Quem imaginaria isso?  — Está dizendo que a minha mãe pode ser legal apesar de me ignorar às vezes?  — Estou dizendo para não ver o mundo por uma só ótica. As pessoas não são uma coisa só, elas são uma caixinha de surpresa que esconde muitas coisas e muitas dessas coisas ninguém espera ver dentro delas. E falando como alguém que teve que sair de casa na sua idade, posso afirmar com convicção que isso não é nada bom. Você tem um lar, tem comida na mesa, está sempre bem vestida e cheirosa. — fiz cócegas nela, que sorriu se esquivando. — Não abdique de algo que tantas pessoas sonham em ter. As coisas com a sua mãe podem vir a melhorar, nada dura pra sempre. — Ver o mundo por mais de uma ótica. — falou e eu assenti. — As coisas que você diz quase não fazem sentido, mas eu entendi. — piscou. — Obrigada, Dulce.  — Imagina. — sorri. — Você poderia não contar a ninguém sobre o que eu disse.... sabe... sobre o meu passado? — Não se preocupe, vai ser um segredo só nosso. — ela ergueu o dedo mindinho e eu enlacei o meu ao dela.  Não era comum que eu me abrisse dessa forma com outra pessoa, na verdade eu não fazia isso há mais de dez anos. E com toda certeza era muito menos comum que eu falasse sobre o meu passado com uma adolescente. Mas senti que Bela precisava daquilo, precisava saber que sair de casa não era a solução e que causaria ainda mais problemas. Resgatar essas memórias pareceu ser a coisa certa a se fazer. — Bela? — da porta do auditório, nós vimos Amber. — Não te vi na aula, fiquei preocupada. — começou a vir até nós. — Você está bem?  — O mesmo de sempre. — Bela deu de ombros. — Não se preocupe, a Dulce conversou comigo, me sinto muito melhor.  — Você vai ficar aqui? — sua pergunta pareceu insinuar que ela também queria matar a primeira aula.  — Eu ia convidar a Bela para meditar, você também quer? — perguntei. Céus, eu estava mesmo convidando uma aluna a matar aula? Eu seria uma péssima mãe.  — Claro! — Amber sorriu largamente e veio até o palco apressada.  Nós sentamos em círculo e eu comecei a tirar minhas coisas da bolsa. Posicionei os cristais ao redor de nós, peguei os incensos que usaria e coloquei um mantra para tocar em meu celular.  — Você sempre carrega essas coisas? — Bela perguntou.  — Nunca se sabe quando vai precisar afastar algo. — eu disse tranquilamente.  — Realmente funcionam? — Amber pegou um dos cristais.  — Mas é claro. Se vocês quiserem, podem levar alguns depois que terminarmos.  — Sim! — Bela comemorou.  — Eu vou adorar ter um desses! — Amber disse.  Expliquei para elas como controlar a respiração durante a meditação, a melhor posição e no que deveriam mentalizar. Passamos alguns minutos meditando e paramos quando o sinal para o segundo horário tocou.  Elas escolheram os cristais depois de eu explicar o que cada um fazia e então os colocaram em seus bolsos.  — Uau! — Bela exclamou. — Isso relaxa mesmo, eu adorei! Vou fazer mais vezes.  — Também quero fazer mais. — falou Amber depois de levantarmos. — Obrigada por nos deixar ficar, Dulce.  — Eu que agradeço pela companhia. Foi muito bom ter esse momento com vocês. Agora vão assistir a segunda aula, ok? — as duas assentiram e começaram a se afastar. Passei a próxima hora de bobeira na internet e quando finalmente chegou a hora da minha aula, eu comecei fazendo um exercício simples com os alunos, principalmente porque não queria dificultar as coisas para Amber. Foi apenas um exercício de relaxamento.  Começamos com um jogo de imitações onde os desafiei a escolherem um animal e interpretarem ele. O teatro se encheu de risos contagiantes com todos eles se divertindo. Eu me sentia cada vez mais ligada a eles e muito mais acolhida entre os alunos do que entre os professores.  Quando a aula terminou, todos começaram a se dispersar e me cumprimentar com um "namastê". Eu estava feliz por tê-los contagiado com isso.  — Dulce? — Amber aproximou-se de mim depois que todos saíram.  — Oi, querida. — sorri.  — O meu pai te contou sobre a minha perna, não foi? — desanimou-se.  — Ele achou ser necessário me contar.  — Você não precisa pegar leve comigo só por causa disso, eu me movo perfeitamente bem, como qualquer garota da minha idade. Meu pai só é preocupado demais. A tia Annie disse que ele ficou assim depois do acidente.  — O seu acidente?  — É. — ela suspirou e sentou numa das cadeiras da primera fileira do auditório. Sentei ao lado dela e esperei que ela falasse. — Eu tinha dois anos, não me lembro de absolutamente nada daquele dia, só sei o que me contaram.  — Pode falar. — a encorajei.  — A minha mãe estava dirigindo e eu estava no banco de trás. Um motorista bêbado atravessou o sinal e nos acertou. Um dos estilhaços da janela do carro atravessou o meu joelho e eles tiveram que amputar a minha perna. Foi um milagre que eu saísse viva sendo tão pequena. O meu pai sempre está dizendo como eu sou forte. — sorriu com os olhos marejados.  — Você é mesmo muito forte. — fui sincera.  — Eu tenho que ser, por mim e por ele. A minha mãe morreu naquele acidente e por mais que ele não goste de falar sobre isso, todos sabemos que ele nunca conseguiu superar.  — Espera, a sua mãe, ela... — isso mudava tudo o que eu deduzi. — Ele ainda usa a aliança de casamento como se ela ainda estivesse aqui.  — Ah, meu Deus... — eu podia dizer que estava levemente chocada.  — Ele nunca mais teve uma namorada, minha tia diz que ele repele as mulheres propositalmente. Ele realmente acha que tentar com outra pessoa desonraria a memória da minha mãe.  — Tem certeza que ele não tem uma namorada? — minha curiosidade falou mais alto.  — Tenho. Muitas mulheres bonitas dão em cima dele sem nem se importar se a filha dele está perto ou não. — ela riu. — Ele nunca olha para elas, só dispensa gentilmente e quando elas insistem ele praticamente as enxota de perto dele.  — Mas ele deve ter amigas, não? Como a mãe da Bela.  — É, basicamente. — deu de ombros. — A tia Belinda era a melhor amiga da minha mãe, eram inseparáveis. Ela continuou frequentando a nossa casa mesmo depois do acidente, apoiou bastante todos nós. Eu e Bela crescemos praticamente juntas.  — Entendi. — ok, Peregrín não era amante dele, o que tornava tudo ainda mais esquisito. — Fico feliz que me deixe conhecê-la dessa forma. — falei gentilmente. — Você tem uma luz forte em volta da sua áurea. — dedilhei o rosto dela e ela sorriu. — Ter você perto é uma dádiva, Amber.  — Que bom que eu te conheci. — ela jogou os braços sobre meus ombros e me abraçou. A abracei de volta sentindo o meu coração quentinho.  No horário de almoço, eu contei para Maite o que ouvi de Amber, mas resolvi guardar para mim o pequeno incidente com Christopher no estacionamento. Ela notaria no mesmo instante o quanto aquele homem me abalava, então era melhor eu não dizer nada até descobrir o porquê.  Nós duas acabamos concordando que vimos as coisas por um ângulo errado. E de repente a situação entre Christopher e Belinda se tornou ainda mais interessante por não sabermos o que aconteceu. Céus, eu era curiosa demais!  "Não deveria ser tão curiosa. Isso pode lhe trazer problemas."  A voz dele ecoou na minha cabeça. Ele parecia mesmo ser perigoso, talvez eu devesse apenas esquecer sua existência e continuar vivendo a minha vida. Mas o fato de ele ter tecnicamente me ameaçado só me fez querer saber ainda mais o que se passou, o que ele realmente tinha com Belinda. Droga, Uckermann, eu poderia ter esquecido essa história se você não fizesse parecer que ela era tão importante!
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