Capítulo 10 — Fantasma no Espelho

1313 Words
Ethan O sonho sempre começava do mesmo jeito: silêncio demais, luz demais. Eu estava no corredor do hospital, mas ele não era um hospital comum. Era limpo como uma sala de reuniões, branco como um contrato. O piso refletia meus passos como um espelho comprido, e, no reflexo, eu nunca via apenas a mim. Via meu pai. Ele caminhava à minha frente, de terno, como se ainda estivesse indo para o escritório. Como se ainda tivesse um amanhã. Eu tentava chamá-lo, mas minha voz não saía. Tentava correr, mas o chão virava água—uma água escura que prendia minhas pernas. E quando eu finalmente alcançava o ombro dele… Ele virava o rosto. E não era o rosto dele. Era o meu. Mais jovem. Mais vulnerável. Com olhos que ainda acreditavam em gente. Eu acordei com o ar preso na garganta, como se eu tivesse sido puxado para fora de um afogamento. O quarto estava escuro, e a cidade lá fora piscava como um animal insones luzes, sirenes distantes, vida acontecendo sem pedir autorização. Minha mão foi direto ao relógio. Duas e treze. O número me atingiu com um desconforto específico, porque o corpo guarda datas e horas como cicatrizes. Foi às duas e treze que eu recebi a ligação, anos atrás. Foi às duas e treze que meu mundo deixou de ter chão. Eu levantei sem fazer barulho. Não por cuidado com alguém eu estava sozinho, mas por hábito. Silêncio sempre foi uma forma de controle. No banheiro, a luz fria acendeu no mesmo instante em que eu entrei. Sensores. Rotinas. Programações. Uma casa feita para obedecer. Eu encarei o espelho. E o espelho devolveu o que eu sempre devolvo ao mundo: um homem impecável até quando está quebrado. O rosto firme, o maxilar fechado, o olhar seco. A imagem de alguém que não se permite falhar. Mas naquela madrugada, havia uma rachadura. Não era visível para ninguém. Era interna. E era exatamente ali que a lembrança se infiltrava. O flash veio sem pedir licença. O cheiro de chuva na noite do escândalo. A sala da Hale Holdings com telas ligadas e vozes altas. Meu pai sentado à cabeceira, mãos unidas, aquela calma que ele usava quando queria parecer maior do que a tempestade. — Eles querem sangue — ele disse. — E, quando querem sangue, inventam feridas. Eu lembro da forma como ele me olhou naquela noite. Não foi um olhar de CEO. Foi um olhar de pai. E isso, hoje, me irrita. Porque eu sei o quanto custa olhar alguém com ternura em um mundo que vive de arrancar ternura da carne. — Você não pode confiar em todo mundo, pai — eu disse. Ele sorriu. Um sorriso breve, triste. — Eu confio nas pessoas certas. Uma hora depois, o escândalo explodiu. Um vazamento de e-mails. Uma planilha de pagamentos que não existia no sistema oficial. Uma foto granulada, tirada de longe, dele entrando num hotel com alguém que nunca foi identificada. E, como se isso não bastasse, a acusação que mais doeu: desvio de verba da fundação da família. Era mentira. Mas mentira bem montada é mais forte do que verdade m*l defendida. O conselho se reuniu de madrugada. Gregory, com olhos de santo e mãos de carrasco. Eleanor, com a frieza de quem entende a matemática do desastre. E o CFO, um homem que meu pai chamava de irmão sentado ao lado, silencioso demais para ser inocente. — Precisamos proteger a empresa — disseram. Proteção sempre foi a palavra favorita de quem quer tomar algo. Meu pai não gritou. Ele nunca gritava. Ele apenas pediu tempo. Pediu auditoria. Pediu uma chance de provar. E foi aí que a traição ficou clara. O CFO levantou e apresentou “provas adicionais” que ninguém havia pedido. Gregory concordou rápido demais. O conselho votou rápido demais. A imprensa soube rápido demais. E eu entendi, pela primeira vez, que o perigo mais eficiente é o que usa terno e fala baixo. Quando eu saí daquela reunião, meu pai me segurou pelo braço no corredor. — Ethan — ele disse, e a mão dele tremia um pouco. — Não faça isso virar guerra. — Já virou — eu respondi. Ele quis dizer algo. Eu vi. Algo que talvez fosse pedido de perdão por ter me criado dentro de uma arena. Mas ele não disse. Ele apenas me olhou como se quisesse memorizar meu rosto. Na manhã seguinte, veio a notícia. “Acidente.” Foi o que escreveram. Um termo limpo, confortável, feito para caber em nota oficial. Meu pai “sofreu um acidente” a caminho do aeroporto. Um carro derrapou. Um caminhão. Uma fatalidade. O mundo ama fatalidades. Fatalidades não têm culpado. Eu estive no hospital, mas já era tarde. Eu vi o lençol cobrindo o corpo. Eu vi os jornalistas do lado de fora, como abutres bem vestidos. Eu vi Gregory com expressão de luto bem ensaiada, abraçando minha mãe como se fosse família e não fizesse. E, naquela mesma semana, o escândalo se fixou como marca: Hale Holdings, corrupção, traição. Meu pai morreu com a reputação sangrando. Eu não chorei em público. Eu não chorei em particular. Eu fiz o que sempre faço: transformei dor em método. De volta ao espelho, anos depois, a imagem do meu pai parecia pairar atrás de mim. Não como fantasma sobrenatural eu não acredito em misticismo mas como a memória que se recusa a morrer porque ainda dói. Eu aproximei o rosto do vidro, encarando meus próprios olhos. Vulnerabilidade é um convite. Um convite para que alguém entre e destrua. Eu fiz um voto íntimo naquela noite, no hospital, olhando para o lençol branco: Nunca mais. Nunca mais confiar sem prova. Nunca mais amar sem controle. Nunca mais deixar alguém conhecer o lugar exato onde eu sangro. O telefone vibrou, e o som cortou o banheiro como lâmina. Voltei para o quarto. A tela mostrava: Mason. Atendi na primeira chamada. — Fale. — Recebemos o relatório final da varredura — ele disse, direto. — Não é a imprensa. Não é paparazzi aleatório. Não é hacker de aluguel comum. Eu sentei na beira da cama, a mente já recalculando tudo. — Então é o quê? Uma pausa breve, como se a resposta tivesse peso. — A ameaça vem de dentro. As palavras bateram em mim com um eco antigo. O mesmo padrão. A mesma assinatura invisível. O mesmo tipo de inimigo que não precisa invadir porque já tem chave. Eu fechei os olhos por um segundo. A imagem do espelho voltou, meu pai atrás de mim, e eu senti uma raiva fria—uma raiva útil, limpa, quase calma. — Nomes — eu pedi, baixo. — Ainda não. Mas temos lista de acesso: funcionários, horários, rotas. E… alguém mexeu nas câmeras internas ontem à noite por sete minutos. Sete minutos. Tempo suficiente para uma mensagem. Uma foto. Uma manipulação. — Quero a casa fechada — eu disse. — Troque senhas. Troque turnos. Troque lealdades, se precisar. — E Isabella? — Mason perguntou. Eu olhei para a porta do meu quarto, como se pudesse ver através das paredes até o corredor onde existiam portas trancadas e segredos enterrados. Isabella era parte do meu plano. Mas agora ela também era parte do meu risco. E, pior: parte do meu nome. — Ela fica sob proteção total — eu respondi. — E sob observação total. — Ela vai odiar isso. — Ódio é previsível — eu disse, sentindo o voto antigo se firmar outra vez dentro de mim. — Vulnerabilidade, não. Desliguei. Fiquei sentado no escuro, ouvindo a cidade respirar lá fora, e entendi uma coisa com clareza brutal: Eu não estava vivendo um casamento. Eu estava repetindo uma guerra. E, desta vez, eu tinha colocado uma mulher no meio do fogo uma mulher que não sabia onde ficava a saída… e que já começava a procurar portas.
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