Isabella
Eu compreendi muito cedo que o luxo era uma ilusão de liberdade.
Na verdade, muitas vezes era o oposto: uma espécie de gaiola dourada, desenhada para desviar o olhar das grades.
Depois de três dias na cobertura, eu já havia memorizado a sinfonia de ruídos do lugar e, principalmente, seu silêncio. Esse silêncio não trazia paz. Era a prova da vigilância constante. Era o silêncio pesado que se instala quando tudo está perfeitamente organizado, mas para a conveniência de outra pessoa.
Acordei com a cortina se abrindo sozinha, como se a manhã tivesse permissão e eu não. A luz entrou com delicadeza, mas eu senti como invasão. O ar condicionado estava na temperatura perfeita. A cama, arrumada por mãos invisíveis. A roupa separada no cabide, com etiqueta de alfaiataria.
Tudo pronto para mim. Nada escolhido por mim.
Quando saí do quarto, já havia café na mesa. Frutas cortadas em pedaços simétricos. Um prato que eu nunca pedi. Um relógio caro na parede marcando o tempo que não me pertencia.
E então eu vi.
Um pequeno ponto escuro no canto do teto, acima da sala de estar. Discreto demais para ser decoração. Imóvel demais para ser qualquer outra coisa.
Uma câmera.
Meu coração apertou de um jeito que não foi medo. Foi indignação. Foi um tipo de humilhação que se espalha por dentro como fumaça.
Eu caminhei devagar, fingindo normalidade, e parei embaixo dela. Levantei o rosto, encarando o vidro minúsculo. A lente parecia me olhar de volta.
Minha garganta secou.
Procurei mais.
Havia outra perto da porta principal. Outra no corredor. Outra, quase escondida, no canto da cozinha. Não eram câmeras de “segurança” comuns. Eram olhos estrategicamente colocados. Olhos que sabiam exatamente onde eu pisaria.
Eu senti uma náusea leve, aquela sensação de estar sendo observada mesmo quando ninguém está por perto. O tipo de sensação que faz a pele arder.
Foi aí que entendi: aquela casa não era só grande. Era inteligente.
E eu era o objeto de estudo.
A governanta apareceu como se tivesse sido invocada pelo meu desconforto. Era uma mulher mais velha, postura impecável, rosto sereno demais para alguém que vivia nesse nível de tensão. O nome dela, eu já tinha ouvido duas vezes: Dona Célia.
— Bom dia, senhora Hale — ela disse, com educação impecável.
O sobrenome de novo. Sempre o sobrenome, como um lembrete.
— Bom dia — respondi, controlando a voz. — Quem abriu as cortinas?
— O sistema — ela disse, simples. — Está programado.
— Programado por quem?
Dona Célia hesitou só um segundo. Um segundo pequeno, mas eu peguei.
— Pelo senhor Ethan — ela respondeu.
Claro.
Eu encarei a mesa posta como se ela fosse uma provocação.
— E essas câmeras? — a pergunta saiu mais rápida do que eu queria.
A governanta manteve o rosto neutro, mas o olhar baixou um milímetro. Isso, nela, foi quase um alarme.
— São de segurança, senhora. O senhor Ethan é… cuidadoso.
Cuidadoso.
Palavra bonita para controle.
Eu caminhei até o corredor e apontei para a câmera mais próxima.
— Isso grava?
— Sim, senhora.
— E alguém assiste?
Dona Célia fez uma pausa.
— Apenas quando há necessidade.
A minha raiva subiu quente, ardendo no peito.
— Necessidade de quê? De ver se eu estou respirando do jeito certo? — Minha voz tremeu, e eu odiei isso. — Eu não sou uma criminosa.
— Ninguém disse que é — ela respondeu, calma.
A calma dela me irritou ainda mais, porque parecia o tipo de calma de quem já aceitou que aquela casa tem dono e que o dono decide tudo.
Eu ouvi passos atrás de mim. Seguranças. Sempre eles. Sempre a presença silenciosa. Eu não precisava olhar para saber que estavam ali.
A penthouse inteira era um lembrete de que eu não estava sozinha nem quando estava.
Eu voltei para o quarto com a sensação de estar entrando numa vitrine. Fechei a porta e me apoiei nela, respirando fundo. Meu celular oficial estava na mesa, brilhando com o nome “Equipe de Comunicação” em chamadas perdidas. Eu não atendia. Eu não respondia. Eu não queria ser moldada por gente que me via como “imagem”.
Peguei meu telefone antigo, o que eles não tinham conseguido tirar de mim na primeira noite porque eu implorei pela minha mãe. Ele estava escondido no fundo da mala, como um segredo.
Quando liguei, a tela acendeu com uma notificação antiga — sem sinal, sem rede. Mesmo assim, eu o segurei como se fosse um pedaço do meu mundo.
E então senti.
A porta do closet estava entreaberta.
Eu tinha certeza de que deixei fechada.
O coração disparou. Eu abri de uma vez, esperando encontrar alguém. Não havia ninguém. Só roupas alinhadas, sapatos caros, bolsas que eu nunca teria coragem de comprar.
Eu passei os olhos pelas prateleiras e encontrei uma coisa pequena, metálica, escondida num canto, atrás de uma caixa.
Um sensor.
Meu estômago revirou.
Eles estavam monitorando até o closet.
Eu soltei uma risada baixa, amarga. A humilhação veio como um soco: até meus silêncios tinham testemunhas.
Foi nesse momento que a raiva virou decisão.
Eu saí do quarto e fui até o escritório que eu tinha visto no primeiro dia, mas que não me atrevi a entrar. Bati na porta uma única vez — não por respeito, mas por aviso.
Ethan estava lá, sentado diante de duas telas, a gravata solta, olhar de aço. Ele levantou os olhos, e eu senti de novo aquele choque: a presença dele muda a temperatura do ambiente.
— Você está fora do seu setor — ele disse, sem tirar o foco de mim.
Setor. Como se eu fosse parte de uma fábrica.
— Eu descobri as câmeras — respondi.
Ele não piscou.
— Ótimo. Então você também descobriu que eu não brinco com segurança.
— Segurança? — eu avancei um passo, sentindo meu sangue ferver. — Você está me vigiando, Ethan. Isso é diferente.
Ele se recostou na cadeira, lento, como se eu fosse um entretenimento controlado.
— Você está com meu sobrenome. Você virou alvo. Eu não vou permitir brechas.
— E você acha que eu sou a brecha? — Minha voz falhou por um segundo. — Eu sou a pessoa que está sendo engolida por esse lugar.
O olhar dele ficou mais sombrio, mas a voz permaneceu fria.
— Você assinou sabendo quem eu sou.
— Eu assinei para salvar minha mãe — eu cuspi a verdade. — Não para virar um peixe num aquário.
O silêncio ficou denso. Por um momento, eu pensei que ele fosse me mandar sair. Que fosse me esmagar com autoridade e me lembrar de novo que eu “sou dele”.
Mas eu não recuei.
— Eu quero limites — eu disse, firme. — Câmeras fora do meu quarto, do meu banheiro e do meu closet. Eu quero privacidade mínima. Eu quero poder andar sem sentir que tem olhos na minha nuca. E eu não vou aceitar que seu “cuidado” vire tortura.
Ethan me encarou por alguns segundos que pareceram minutos. Ele estava calculando. Eu via isso como quem vê um predador escolher o melhor ângulo.
— Você quer privacidade? — ele perguntou, baixo.
— Eu quero dignidade.
A palavra pareceu irritá-lo. Talvez porque dignidade não se compra. Não se impõe. Dignidade se reconhece.
Ele se levantou, e o movimento dele foi como uma porta batendo. Deu a volta na mesa, aproximando-se até ficar perto demais. Eu senti o perfume dele, senti o peso da presença, senti aquela tensão elétrica que sempre nascia entre nós, como se raiva e atração fossem fios do mesmo circuito.
— Você não entende o que está acontecendo — ele disse, e havia algo perigoso na calma. — Alguém vazou informações. Alguém quer te usar para me atingir.
— Então proteja a mim sem me prender — eu devolvi.
Ele ficou tão perto que eu precisei levantar o queixo para não parecer menor.
— Você acha que eu prendo por prazer? — ele sussurrou.
Eu não respondi. Porque a verdade era: eu não sabia. E isso me assustava.
Ethan se afastou, voltando para a mesa com passos controlados.
— Eu vou considerar reduzir câmeras em áreas pessoais — ele disse, como se fosse concessão rara. — Mas você não anda sem escolta. E você não abre portas que eu não autorizei.
Meu coração bateu mais forte.
Portas.
Aquela porta trancada no corredor escuro.
— Que portas? — perguntei, fingindo casualidade.
Ele ergueu os olhos devagar.
— Você sabe quais.
Um frio percorreu minha espinha. Ele sabia que eu vi. Ou alguém viu por ele.
Eu me virei para sair antes que minha raiva virasse lágrima porque eu me recuso a chorar na frente dele.
No corredor, Dona Célia me esperava, como se soubesse que eu precisava de ar. Ela não disse nada por alguns segundos. Só caminhou ao meu lado até a sala.
Quando os seguranças se afastaram um pouco, e a distância foi suficiente para o silêncio virar segredo, ela tocou levemente minha mão.
E, com um movimento rápido, quase invisível, deslizou algo na minha palma.
Uma chave.
Pequena. Fria. Metálica.
Eu olhei para ela, o coração disparando.
Dona Célia não me encarou diretamente. A voz saiu baixa, como um aviso que podia custar caro.
— Existem coisas nesta casa que não são para a senhora… — ela pausou, e o olhar dela finalmente encontrou o meu, sério. — …mas algumas portas trancadas não estão aqui para proteger o senhor Ethan.
Eu fechei a mão em torno da chave, sentindo o metal marcar minha pele.
E, naquele instante, a penthouse inteira pareceu uma casa de vidro de verdade.
Porque eu entendi uma coisa com clareza brutal:
Se todo mundo me vigiava…
Alguém também estava tentando me salvar.