Ethan
Três dias desde a assinatura no cartório, desde o flash estourando do lado de fora como fogos para um casamento que não existia, desde a frase que eu sussurrei ao pé do ouvido dela — e que, de certa forma, ainda ecoava no meu próprio crânio como um aviso.
A rotina voltou do jeito que sempre volta: impiedosa, precisa, sem espaço para romance.
Às seis e vinte, eu já estava no meu escritório. Às seis e vinte e cinco, a equipe de comunicação entrou com a pasta do comunicado oficial. Às seis e trinta, o primeiro relatório do mercado foi projetado na tela: flutuações mínimas, reação positiva, analistas repetindo a palavra que eu precisava que repetissem.
Estabilidade.
O mundo corporativo é supersticioso. Ele não acredita em competência; acredita em narrativa. Um homem solteiro no topo é risco. Um homem casado é “âncora”. Ridículo, mas funcional.
— A nota sai em cinco minutos — informou Naomi, minha diretora de comunicação, com a tranquilidade de quem dorme pouco e manda muito. — Tom neutro, sem romantização. Foto oficial já aprovada. O board recebeu a versão final.
— O board não recebe. O board é informado — eu corrigi, sem elevar a voz.
Ela assentiu, sem discutir. Bom.
Mason encostou na parede, mãos cruzadas, atento como sempre.
— O perímetro da penthouse foi reforçado. Mudamos dois funcionários do turno noturno. Ainda não fechamos o vazamento.
A palavra “vazamento” tinha um gosto específico: traição.
— Fechem — eu disse. — Antes que o vazamento feche a gente.
Naomi deslizou o tablet na minha direção. O título do comunicado estava limpo, calculado: Hale Holdings confirma casamento do herdeiro e continuidade do plano estratégico.
Perfeito. Frio. Funcional.
Eu assinei com um toque.
— Publiquem.
No instante seguinte, o mundo começou a reagir como um organismo previsível: jornalistas fazendo o mesmo texto com palavras diferentes, colunas sociais tentando encontrar drama onde eu não dei, investidores respirando aliviados como se uma aliança anulasse a possibilidade de falência moral.
Meu tio Gregory me ligou às sete e dez.
— Parabéns, Ethan — ele disse, e eu ouvi o sorriso dele mesmo sem ver. — O mercado gostou. O conselho… também.
— O conselho não gosta. O conselho engole — respondi.
Ele riu, curto, fingindo que era brincadeira.
— Só cuidado com a escolha. A moça… não é do nosso meio.
— Por isso funciona.
Desliguei antes que ele dissesse mais alguma coisa inútil.
Eu estava prestes a abrir o dossiê da reunião com os j*******s quando Naomi pigarreou, o gesto mínimo que, nela, significava problema real.
— Ela apareceu — disse, e virou o tablet para mim.
A tela mostrava uma coluna social com foto antiga: eu e Valentina Sloane, impecáveis, sorrindo para câmeras como se fôssemos um casal de catálogo. O título era veneno embrulhado em cetim: “Ex-noiva de Ethan Hale quebra silêncio após casamento-relâmpago.”
Eu li o trecho central sem mover um músculo. Valentina “desejava felicidades”. Valentina “se preocupava com a empresa”. Valentina “sempre soube que Ethan era um homem de compromissos”. Entrelinhas: eu era incapaz de sentir, Isabella era uma intrusa, e meu casamento era uma jogada desesperada.
— Ela está tentando provocar reação — Naomi disse.
— E vai falhar — eu respondi. — O público só acredita em emoção quando ela vem com lágrimas. Valentina nunca chora em público.
Mason deu um passo.
— Quer que eu…
— Não. — Eu cortei. — Valentina não é ameaça. É barulho. E barulho, às vezes, serve.
Naomi me olhou, entendendo o que eu não precisei explicar: um escândalo controlado pode ser um guarda-chuva para encobrir algo pior. Se o mundo estiver ocupado com a ex-noiva, ele olha menos para o que acontece dentro da minha casa.
O verdadeiro perigo sempre foi interno.
Meu telefone vibrou.
Outro alerta.
E, dessa vez, a tela trouxe o tipo de notícia que não se apaga com comunicado.
Uma foto de Isabella.
Ela estava saindo do carro, perto do hospital, o rosto meio virado, a mão levantada como se tentasse proteger os olhos do flash. Ao lado, dois seguranças. A legenda não era só maldosa. Era c***l de propósito:
“Nova Sra. Hale foge de perguntas. Clima tenso em visita suspeita.”
“Interesseira ou vítima? Detalhes do passado da ‘escolhida’.”
Eu senti algo raro: uma pressão sob as costelas, como se por um segundo o meu corpo tivesse esquecido que eu fui treinado para não reagir.
— Quem soltou isso? — perguntei, a voz baixa.
Mason já estava com o notebook aberto.
— Não foi paparazzi comum. O ângulo é de alguém que sabia o horário e o trajeto. Isso é… dirigido.
Dirigido. O mesmo padrão do bilhete. O mesmo cheiro de mão por trás.
Naomi já digitava.
— Eu posso derrubar a narrativa em duas horas. Soltamos uma agenda filantrópica, mostramos que ela estava no hospital por causa de doações da fundação Hale, reposicionamos como “compromisso social”. E…
— Não use a mãe dela como propaganda — eu disse, antes que ela terminasse.
Naomi travou por um segundo. Ela não esperava essa linha. Ninguém esperava.
Eu não era o tipo de homem que se importava com detalhes humanos. Eu me importava com eficiência. E, ainda assim, a ideia de colocar a doença da mãe dela na vitrine me pareceu… suja demais, até para mim.
— Então a gente protege sem expor — ela ajustou, profissional. — Vamos atacar a fonte: pedido de retirada por violação de privacidade e ameaça de processo. E soltamos fotos oficiais novas, hoje. Controladas. Sem brecha.
— Faça — eu disse. — E eu quero o nome de quem passou o horário do hospital.
Mason assentiu.
Eu levantei e caminhei até a janela. Lá embaixo, a cidade parecia indiferente, como sempre. Manhattan não sente culpa. Manhattan só consome.
A imagem de Isabella na tela não me saía da cabeça. Não pela maldade — eu já vi maldade suficiente para não me surpreender — mas pela forma como ela parecia… cercada. Pequena no meio de uma história que não pediu para viver.
Eu não escolhi Isabella por compaixão. Eu escolhi por cálculo.
Mesmo assim, quando alguém tenta ferir o que carrega meu nome, eu não racionalizo. Eu reajo.
— Tragam Isabella para a rota segura hoje — eu disse a Mason, sem olhar para ele. — Sem improviso. Sem brechas.
— Ela não vai gostar — ele avisou.
— Não é sobre gostar.
Eu peguei o casaco, já sentindo a sala se reorganizar ao meu redor como um exército silencioso.
Naomi falou, cautelosa:
— Você vai pra penthouse?
— Vou.
Porque a contenção de danos exige mais do que apenas gerenciar a imprensa.
Exige cortar as fontes do problema.
E alguém, muito próximo, acabara de estender a mão e invadir meu espaço.