Capítulo 7 — Primeira Noite, Porta Fechada

1230 Words
Isabella O elevador subiu em silêncio, e eu juro que senti a cidade ficando menor a cada andar — como se, lá embaixo, ainda existisse um mundo onde eu podia atravessar a rua sem escolta, comprar pão sem ser observada, respirar sem pedir permissão ao ar. Quando as portas se abriram, eu vi a penthouse. Era grande demais para ser lar. Era bonita demais para ser acolhedora. Tudo tinha linhas perfeitas, vidro, metal e uma organização tão meticulosa que parecia feita para impedir bagunça… ou gente. A iluminação era baixa, calculada, e o chão refletia meus passos como se quisesse me denunciar. Dois seguranças ficaram do lado de fora. Mason falou alguma coisa no rádio. Ethan caminhou à frente, tirando o paletó com um gesto que parecia ensaiado para não parecer humano. Ele não olhou para mim de imediato. Não porque não me viu — ele via tudo — mas porque não precisava confirmar presença do que já considerava sob controle. Helena tinha dito “será tranquilo”. Mentira. Tranquilo é quando não existe tensão no ar. Aqui, a tensão era elétrica. — Seu quarto é aquele — Ethan apontou, sem emoção, para um corredor à direita. — Banheiro privativo. Closet. O que você precisar, pede para a governanta. A palavra seu não soou como gentileza. Soou como delimitação de território. Como se ele estivesse desenhando linhas invisíveis: aqui você pode existir. Ali, não. — E o seu? — perguntei antes que eu conseguisse me segurar. Ethan me olhou, e foi como sentir uma porta se fechando por dentro. — Do outro lado — respondeu. — Nós não vamos encenar i********e hoje. Isso não é uma recompensa. A frase não me feriu pelo conteúdo. Me feriu pelo tom. Pela certeza fria de quem decide o que eu mereço. — Ótimo — eu disse, mesmo que meu coração estivesse disparando por razões que eu odiava nomear. Raiva, sim. Mas também um tipo de… curiosidade perigosa. Ele se aproximou só o suficiente para eu sentir o perfume dele, discreto e caro, como uma assinatura invisível. — Regras, Isabella — ele sussurrou, para que nem o ar carregasse. — Você dorme. Amanhã começa o teatro. Não mexe no que não é seu. E não circula sem avisar. — Eu já entendi o conceito de jaula — retruquei. Os olhos dele brilharam com algo rápido e escuro. — Jaula é para quem tenta fugir. Eu estou te dando segurança. — Segurança não deveria ter gosto de ameaça. Por um segundo, eu pensei que ele ia responder com algo cortante. Mas Ethan apenas inclinou a cabeça, como se arquivasse minha frase para usar depois. — Boa noite, Isabella Hale. Ouvir meu sobrenome na boca dele me deu um nó no estômago. Hale. Era pesado como um colar de metal. Eu não respondi. Só virei e caminhei para “meu” quarto, tentando manter a postura que a consultora de etiqueta teria aplaudido. Por dentro, eu estava em guerra. Fechei a porta atrás de mim e encostei nela, respirando como se tivesse corrido. O quarto era… absurdo. Cama enorme, lençóis perfeitos, uma vista da cidade que parecia mentira. Tudo muito limpo. Muito silencioso. Eu larguei a bolsa no sofá e caminhei até a janela. Lá embaixo, as luzes eram pequenos pontos, distantes, como se eu estivesse olhando para uma maquete. Pensei na minha mãe. Na promessa que fiz para ela. Não deixar ninguém me apagar. O problema é que aquele lugar era feito exatamente para apagar. Para transformar. Fui até o banheiro e lavei o rosto, tentando tirar o peso da maquiagem. A água fria não levou embora o cansaço. O espelho devolveu uma versão de mim que eu reconhecia e não reconhecia ao mesmo tempo: a mesma boca, os mesmos olhos… mas com uma sombra nova, como se eu já tivesse perdido alguma coisa no caminho. Quando saí do banheiro, ouvi vozes baixas do lado de fora do quarto. Paradas. Precisas. A curiosidade me puxou antes que eu decidisse. Aproximei-me da porta e encostei o ouvido. — …não, isso não é paranoia — era a voz de Ethan, firme, contida. — Eu não pago para ter vazamento dentro da minha casa. Um silêncio, depois outra voz masculina, provável Mason. — Estamos verificando staff, rotas e comunicações. Mas o bilhete… Bilhete. Meu estômago gelou. A mensagem anônima. “Não se case com ele.” — Não me importa se foi recado ou teste — Ethan continuou, a frieza dele virando lâmina. — Foi acesso. E alguém deu acesso. Eu quero nomes antes do amanhecer. — E a esposa? — Mason perguntou. Houve uma pausa curta. Curta demais para ser conforto. — Ela não sabe de nada além do necessário — Ethan disse. — E vai continuar assim. Meu peito apertou. Então era isso. Eu era a peça. A esposa. A fachada. O “necessário”. — Se o vazamento vier do conselho… — Mason começou. — Então eu quebro o conselho — Ethan cortou, e a calma dele foi o pior. — Se vier de dentro, eu corto pela raiz. As vozes se afastaram. Eu fiquei parada, mão na maçaneta, o coração batendo alto. Vazamento interno. Alguém dentro da casa. Bilhete. A ameaça não era só “do mundo dele”. Era do lado de dentro. E eu estava trancada lá dentro. Eu precisava de ar. Saí do quarto com passos silenciosos e segui pelo corredor, guiada pela luz baixa. A penthouse parecia maior à noite, como um labirinto de luxo. Passei por um salão com quadros enormes, por uma sala de estar que parecia cenário de revista, por uma cozinha onde nada parecia ter sido tocado por mãos humanas. E então eu vi: um corredor mais estreito, com menos iluminação, e uma porta diferente das outras. Não era uma porta decorativa. Era pesada, de madeira escura, com fechadura eletrônica. Sem maçaneta comum. Sem charme. Só função. Eu me aproximei devagar, como quem se aproxima de um animal que pode morder. Havia algo naquela porta que me incomodava de um jeito íntimo, quase instintivo, como se ela não estivesse trancada para proteger algo… mas para impedir que alguém existisse do outro lado. Encostei a mão na superfície fria. Trancada. O painel digital não acendeu. Nenhum sinal de que eu tinha direito de sequer pedir acesso. Eu deveria voltar. Eu deveria obedecer. Eu deveria fingir que não vi. Mas a mensagem anônima queimou na minha memória. Não se case com ele. E a voz de Ethan, dura, ecoou junto. Alguém deu acesso. Eu quero nomes. Eu me inclinei, procurando qualquer fresta. Não havia. Mas, ao encostar o rosto perto, senti algo: um cheiro muito leve, quase imperceptível, como papel antigo… e metal. Meu coração falhou uma batida. Aquela porta não parecia esconder um cômodo. Parecia esconder uma história. E, de repente, atrás de mim, o ar mudou. Passos. Eu me virei num impulso, e a sombra de um homem surgiu no fim do corredor, silenciosa demais para ser coincidência. — Senhora Hale — uma voz baixa disse, sem calor. — O senhor Ethan pediu para a senhora não circular sozinha. O aviso do segurança foi claro, sem espaço para perguntas. Senti um arrepio gélido me percorrer: aquela porta não estava apenas trancada, era expressamente proibida. Era como se o próprio lugar estivesse me comunicando, em um silêncio eloquente: "Você não tem importância aqui."
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