Ethan
O casamento civil não tinha flores. Não tinha música. Não tinha emoção pública.
Tinha estratégia.
O saguão do cartório particular — reservado, blindado, caro o suficiente para fingir discrição — estava limpo demais, silencioso demais, como um corredor de hospital antes de uma cirurgia. Eu cheguei três minutos antes do horário. Não por ansiedade, mas porque eu odeio dar ao mundo a chance de me esperar.
Do lado de fora, eu já sabia, a imprensa respirava como um animal faminto. Flashs estouravam em sequência, mesmo sem nada para fotografar ainda. Eles sempre fotografam o vazio com esperança, como se o escândalo pudesse surgir do nada.
Mason caminhou ao meu lado, o olhar varrendo entradas, saídas, sombras.
— Duas vans de imprensa. Três repórteres insistindo em entrar. Um fotógrafo tentou subornar o segurança — ele disse, baixo.
— Não vão entrar — respondi, simples.
Meu advogado, Richard, ajeitou a gravata, nervoso demais para um homem que ganhava para manter a compostura.
— A equipe de comunicação já soltou nota: “evento íntimo”. A bolsa reagiu bem.
— A bolsa reage a estabilidade — eu disse. — Não a romance.
No fim do corredor, a porta da sala onde a assinatura aconteceria estava fechada. Eu parei diante dela por um segundo, não porque eu hesitasse, mas porque eu queria sentir o peso exato do que estava prestes a fazer. Não era um casamento. Era uma chave. E eu precisava dessa chave para trancar meu império antes que alguém tentasse arrombar.
Quando a porta abriu, eu vi Isabella.
E, pela primeira vez em dias, algo dentro de mim desviou do cálculo por um instante curto demais para ser perigoso… mas longo o suficiente para ser real.
Ela estava de branco, mas não era um branco inocente. Era um branco austero, quase frio, como uma armadura costurada. O vestido era simples na intenção, impecável no corte. O cabelo preso deixava o rosto dela exposto — e não havia para onde fugir. Nem para ela, nem para mim.
Eu a achei bonita com uma irritação imediata.
Ela era demais para o papel que eu havia planejado. Uma beleza que roubava a cena, mesmo quando ela tentava se misturar. E isso era um sério problema. Atenção era sinônimo de perigo.
Isabella agarrava a bolsa com uma força desesperada, como se fosse tudo o que lhe restava. Seus olhos estavam fixos, inabaláveis, mas eu enxerguei algo que os outros perderiam: o leve tremor que acompanhava sua respiração. Não era fragilidade; era raiva engolida, uma fúria contida.
Fúria é mais útil.
Ela me encarou como se eu fosse uma sentença com rosto.
Eu me aproximei sem pressa, porque pressa revela necessidade. E eu não precisava de nada — eu só tomava.
— Você está… apresentável — comentei, e minha voz saiu com aquela frieza treinada que sempre funcionou como uma parede.
Ela respondeu sem sorrir:
— Você também. Parece pronto para comprar mais uma coisa.
A ousadia dela arrancou de mim um quase sorriso que eu segurei antes que nascesse. Aquilo podia virar hábito. E eu não deixo hábitos emocionais crescerem.
Helena estava ao lado, com a pasta do contrato e os adendos assinados. O oficial do cartório, um homem de meia-idade com expressão de quem já viu de tudo, se levantou ao nos ver.
— Sr. Hale. Sra. Monteiro. Podemos iniciar?
Eu sentei. Isabella sentou. As cadeiras eram confortáveis, mas a tensão na sala tornava qualquer conforto inútil. O silêncio tinha dentes.
O oficial começou a leitura padrão, aquela lista de palavras sobre união e direitos que sempre me soou como superstição social. Eu ouvi apenas o necessário. Meu foco estava no que importava: a assinatura, a foto controlada, a saída rápida pela porta lateral, e a sensação do conselho perdendo poder no mesmo instante em que eu ganhava o título de CEO.
Mas, no meio do discurso burocrático, Isabella mexeu levemente o pé, impaciente. O gesto pequeno denunciou o que ela tentava esconder: ela odiava estar ali. Odiava ser observada. Odiava ser encaixada.
E eu… eu respeitei isso. De um jeito torto. Prático. Um respeito que não vinha de bondade, mas de reconhecer força onde a maioria só vê desespero.
Quando o oficial terminou, ele empurrou o livro de registro para nossa direção. A caneta repousava sobre a mesa como um objeto inocente. Eu sabia melhor.
Mason se posicionou discretamente perto da porta. Richard ajeitou os papéis. Helena abriu a pasta.
Isabella pegou a caneta com a mão firme demais. Como se segurar firme pudesse impedir a vida de se partir.
Eu inclinei meu corpo para ela, apenas o suficiente para que minha voz não fosse captada por nenhum microfone escondido, por nenhuma câmera curiosa. Eu não sabia se havia. Eu sempre assumo que há.
— Olhe para mim — eu murmurei.
Ela não queria. Eu vi no modo como as pálpebras dela endureceram. Mas ela olhou.
Os olhos dela eram escuros e vivos, e havia algo ali que me irritou de novo: ela não estava pedindo. Ela não estava suplicando. Ela estava se preparando para lutar… dentro de uma jaula que eu mesmo estava fechando.
Eu sussurrei, sem suavidade:
— Regras. Você não fala com a imprensa. Você não atende números desconhecidos. Você não sai sem escolta. Você não improvisa.
O olhar dela faiscou.
— Eu não sou criança.
— Não. — Minha voz ficou mais baixa. Mais perigosa. — Você é um alvo.
Ela respirou fundo, e por um segundo eu senti o perfume dela — algo discreto, mas quente, humano demais para aquele lugar. Isso me incomodou. E me puxou.
— Se alguém te fizer uma pergunta — continuei — você sorri e diz: “Estamos felizes, obrigada.” Mesmo que não esteja. Mesmo que odeie.
— E se eu não obedecer? — ela devolveu, num sussurro de lâmina.
Eu encarei a mão dela sobre a caneta.
— Você vai obedecer — respondi. Não como ameaça vazia, mas como fato. — Porque você já entendeu o que está em jogo.
Ela apertou a caneta, e eu vi a raiva dela passar por um instante pelo rosto… e então ser enterrada de novo.
O oficial pigarreou, pedindo a assinatura.
Isabella desceu a caneta ao papel. A assinatura dela saiu firme, bonita, como se ela estivesse escrevendo seu nome numa sentença e decidindo não tremer.
Eu assinei em seguida. Minha letra sempre foi direta. Sem curvas desnecessárias. Sem dúvida.
Quando o oficial fechou o livro com um gesto final, lá fora os flashs aumentaram, como se o prédio inteiro soubesse que um acordo tinha sido selado.
Helena sinalizou que tínhamos vinte segundos antes que tentassem invadir o corredor. Mason já estava com o caminho limpo.
Eu me levantei e ofereci meu braço para Isabella, não por cortesia, mas por imagem. Ela hesitou — e eu senti o mundo inteiro nesse segundo.
Ela aceitou.
O toque foi mínimo. Mas suficiente para me lembrar de que, apesar de tudo, ela era real. Quente. Bonita. E agora carregava meu sobrenome como uma marca recém-impressa.
Antes de sairmos, eu me inclinei mais uma vez, até minha boca quase tocar o ouvido dela. A voz saiu baixa, controlada, sem espaço para interpretação.
— De hoje em diante, você é minha.