Isabella
Eu achei que assinar seria o pior.
Eu estava errada.
O pior veio depois, quando o papel virou rotina e a rotina virou cerco.
A primeira coisa que fizeram foi me arrancar do meu mundo como se eu fosse um objeto frágil demais para ficar onde sempre fiquei. Não houve “você pode”. Houve “é assim”. Helena me esperava na recepção com um sorriso técnico e um casaco caro dobrado no braço.
— Você tem setenta e duas horas — ela disse, como se eu estivesse sendo preparada para uma cirurgia. — O casamento civil já está agendado. E, antes disso, precisamos alinhar… sua imagem.
“Imagem.”
A palavra tinha gosto de mentira bem embrulhada.
Eu nem tive tempo de voltar para casa para respirar direito. Um carro preto me levou até meu apartamento com dois homens na frente, silêncio no banco de trás e o tipo de presença que não permite discussão. Eu subi com um deles atrás de mim, como se eu pudesse fugir pelas escadas.
Quando abri a porta, minha mãe estava sentada na cama, coberta até os ombros, olhando para mim com aquela mistura de preocupação e fé que só quem ama demais consegue sustentar.
— Bella? — ela chamou, fraca. — O que foi?
Eu quis dizer “tudo”. Quis dizer “eu vendi meu futuro para comprar o seu presente”. Mas o meu peito travou. Eu só consegui sorrir, com a boca tremendo.
— Mãe… vai ficar tudo bem.
Mentir para ela doía mais do que qualquer cláusula.
O homem de terno ficou na sala, observando tudo como se eu fosse parte de uma propriedade a ser vistoriada. Eu peguei uma mala e enfiei algumas roupas sem pensar: jeans, camisetas, um moletom velho. Era ridículo levar aquilo para o mundo de Ethan Hale, mas eu precisava de algo que ainda fosse meu.
Quando me virei, minha mãe segurou meu pulso, fraca, mas firme.
— Você tá com medo — ela sussurrou.
Eu engoli seco. Não queria chorar na frente dos estranhos.
— Eu tô… cansada.
Ela tocou meu rosto, os dedos frios como se já estivesse se despedindo.
— Promete que não vai deixar ninguém te apagar.
Eu fechei os olhos por um segundo e assenti, mesmo sem saber como cumprir.
O carro me levou até um hotel que parecia uma cidade dentro da cidade. Piso brilhante, perfume no ar, gente sorrindo com dentes perfeitos. No elevador, um dos homens falou pela primeira vez.
— A senhorita vai ser acompanhada o tempo todo, por segurança.
A forma como ele disse “segurança” me lembrou Ethan: não era cuidado. Era controle.
No quarto, eu m*l consegui colocar a mala no chão antes de começarem a chegar.
Primeiro, a estilista: uma mulher magra, elegante, que me olhou como se eu fosse um cabide com defeito.
— Vamos ver o que dá pra fazer — ela disse, sem maldade, só com frieza profissional.
Depois, a equipe de cabelo e maquiagem. Uma consultora de etiqueta. Uma assistente com tablet. Um homem que se apresentou como responsável pela segurança “interna” e me entregou um celular novo.
— Esse é o aparelho oficial. O outro… por favor, deixe com a gente.
Eu segurei meu telefone velho, o único vínculo direto com minha vida real.
— Eu preciso dele pra falar com a minha mãe.
— A senhora terá acesso a uma linha segura — ele respondeu. — E visitas sob escolta, como acordado. É para o bem dela.
Eu senti a raiva arder.
— Vocês falam “bem” como se fosse um favor.
Ele não piscou.
— Não é favor. É protocolo.
Protocolo. Tudo era protocolo. Eu estava sendo transformada em uma versão aceitável de mim mesma sem que ninguém perguntasse se eu queria ser aceitável.
Sentaram-me diante do espelho. A luz era c***l. O pincel tocou minha pele com delicadeza, mas o gesto tinha violência escondida: apagava minhas marcas de cansaço, meu rosto real, minhas olheiras de noites longas, minha expressão de quem já lutou demais.
— Não — eu disse quando começaram a prender meu cabelo. — Eu gosto dele solto.
A estilista suspirou.
— Solto não transmite… estabilidade.
Quase ri.
— Então o objetivo é parecer uma mentira convincente?
Ela me olhou pelo reflexo, como se eu tivesse falado uma língua estranha.
— O objetivo é sobreviver no mundo dele.
Essa frase me calou.
Eu olhei para mim no espelho: pele mais uniforme, boca mais definida, olhos mais marcados. Eu parecia mais adulta, mais dura. Mais distante.
Uma armadura.
E, mesmo assim, a humilhação ficava embaixo da maquiagem, respirando.
Quando me colocaram em um vestido para prova — tecido caro, caimento perfeito — eu senti o tecido me apertar nos lugares errados. Não fisicamente. Por dentro. Como se aquela roupa dissesse: você não pertence aqui, mas vai fingir que pertence.
A consultora de etiqueta me fez andar, sentar, sorrir sem mostrar dentes demais.
— Não cruze as pernas assim. Não gesticule tanto. Não responda rápido. Faça pausas. Faça silêncio.
— Fazer silêncio eu sei — eu murmurei, e ela ignorou como se fosse ruído.
Na segunda hora, eu já estava exausta. Na terceira, eu queria gritar. Na quarta, eu estava aprendendo.
E isso me assustou mais do que tudo.
Porque a raiva não estava me salvando. O que me salvava era a adaptação — o instinto de sobreviver virando habilidade. Eu estava aprendendo a ser perigosa de um jeito diferente.
A estilista voltou com duas opções de vestido para o civil. Um, discreto e clássico. Outro, branco quase puro, com corte elegante e austero.
— Esse — ela disse, apontando para o segundo. — Ele vai gostar desse.
Eu encarei o tecido. Lindo. Frio. Um uniforme de noiva sem romance.
— Eu não me importo com o que ele gosta — eu respondi.
— Vai se importar — ela disse, com um sorriso mínimo. — Porque o mundo dele se move com o que ele gosta.
Eu respirei fundo. Não era sobre gostar. Era sobre poder.
Peguei o vestido e fui até o banheiro para trocar, sentindo o peso de olhos em mim. Quando fechei a porta, a sensação de privacidade durou dois segundos.
Um toque na madeira.
— Isabella? — era a assistente. — O segurança precisa configurar seu celular.
Eu abri a porta só o suficiente para passar o aparelho novo. Mãos estranhas tocaram o que agora seria meu mundo. Meu número. Minha vida. Meu acesso. Tudo administrado.
Quando o celular voltou para mim, a tela já estava cheia de contatos que eu não conhecia: Helena, Equipe de Comunicação, Segurança — Mason, Motorista, Assessoria Jurídica.
Nenhum contato era “mãe”. Nenhum contato era “vida”.
Eu ia reclamar quando o aparelho vibrou.
Uma mensagem.
Número oculto.
O coração deu um salto. Eu abri com dedos duros.
Não se case com ele.
Meu corpo inteiro gelou, como se alguém tivesse apagado as luzes por dentro. Eu li de novo. E de novo. As palavras eram simples, mas carregavam um aviso que parecia vir de um lugar escuro, íntimo, perigoso.
Meu estômago revirou.
Olhei ao redor, instintivamente. A equipe continuava trabalhando, rindo baixo, falando sobre tons de batom e tecidos. Os seguranças estavam no corredor. Tudo “normal”.
Mas a mensagem fez o ambiente inteiro parecer falso, como um cenário montado para uma tragédia.
Eu digitei rápido, com as mãos tremendo:
Quem é você?
A resposta veio quase imediata.
Alguém que sabe o que ele faz com quem entra.
Meu peito apertou. Eu senti um frio descendo pela espinha, como se a minha assinatura tivesse aberto uma porta que eu não sabia fechar.
Eu apaguei a conversa por instinto, como se isso pudesse apagar o medo. Mas o medo não se apaga. Ele só muda de lugar.
A consultora de etiqueta tocou meu ombro.
— Isabella? Está tudo bem?
Eu sorri. Um sorriso treinado. Um sorriso de armadura.
— Está — eu menti.
Por dentro, porém, as palavras da mensagem ecoavam como um tiro abafado em quarto fechado:
Não se case com ele.
E, mesmo assim, eu sabia a verdade que ninguém ali estava dizendo em voz alta:
Eu já estava casando.
Só faltava o mundo descobrir.