Ethan
"Assine" não era um pedido, mas uma ordem.
Deixei-o cair sobre a mesa como a peça final de um jogo, aguardando para ver que tipo de mulher eu estava prestes a amarrar ao meu nome.
Isabella não reagiu de imediato. O silêncio entre nós era denso, carregado, quase hostil. Ela segurava a caneta com a mesma rigidez de quem empunha uma lâmina: pronta para atacar ou se defender.
Meus advogados esperavam minha ordem como cães adestrados. Helena observava tudo com a fria neutralidade de quem compreende todas as partes, mas se recusa a se envolver emocionalmente.
Eu senti.
Não de um jeito útil, claro. Sentir raramente é útil. Mas senti a eletricidade do confronto, aquele tipo de energia que nasce quando alguém se recusa a dobrar no instante exato em que deveria dobrar.
— Você acha que eu não li as suas exigências? — perguntei, com a calma lisa que eu usava em reuniões de guerra.
Ela ergueu o queixo. Olhos firmes. Cansados, mas firmes.
— Eu acho que você leu — respondeu. — E decidiu que não importa.
Direta. Sem enfeites. A maioria das pessoas, diante de mim, tentava suavizar a própria coragem para parecer aceitável. Isabella não tinha esse luxo. Ela estava nua de recursos. Isso fazia dela… perigosa. E, paradoxalmente, confiável.
Eu encostei o dedo indicador na cláusula da multa, onde ela havia marcado com força.
— Sabe o que acontece quando uma pessoa entra na minha vida sem um preço alto para sair? — perguntei. — Ela sai quando quiser. E isso, para mim, é risco.
— Eu não quero sair “quando quiser”, Ethan — ela disse, pronunciando meu nome sem tremor. — Eu quero ter certeza de que eu não vou ser esmagada se eu respirar errado.
Uma resposta inteligente. Não implorou. Não se vendeu. Apenas afirmou um limite.
Eu me sentei devagar, como se o gesto fosse parte da negociação. Olhei para os dois advogados, que já se preparavam para me apoiar, e os silenciei com um simples movimento de mão. Não era a opinião deles que importava.
Era a verdade dela.
— Vamos testar sua… integridade, Isabella Monteiro.
A rigidez dela aumentou. Eu vi no modo como seus dedos apertaram a caneta. Mas ela não recuou.
— Pode testar.
Eu a encarei por um segundo inteiro, calculando. Meu pai costumava dizer que a forma mais rápida de conhecer alguém é oferecer poder — e observar o que ela faz com ele. Eu não ofereceria poder. Ainda não. Eu ofereceria pressão.
— Por que você está aqui? — perguntei.
— Você já sabe — ela retrucou.
— Eu quero ouvir da sua boca.
Ela respirou fundo. A primeira rachadura não veio. Veio apenas a verdade, crua.
— Porque meu irmão fez uma dívida no meu nome. Porque minha mãe está doente. Porque eu não tenho tempo. E porque eu não vou fingir que eu acredito em “salvação”. Eu só… preciso sobreviver.
Helena desviou o olhar por um instante, como se algo ali a tivesse atingido. Eu mantive minha expressão no lugar.
— Quanto custa a sua sobrevivência?
O golpe foi proposital. c***l, sim. Necessário, também. Eu precisava saber se ela se reduziria a um número.
Isabella piscou uma vez. Só uma.
— O suficiente para eu não perder quem eu amo — ela respondeu. — E não o bastante para eu virar alguém que eu desprezo.
A maioria teria respondido “o que você oferecer”. Ela respondeu com dignidade.
Eu inclinei a cabeça.
— Você vai mentir por mim?
Os olhos dela estreitaram.
— Depende do que você chama de “por você”.
— Eu chamo de: proteger o meu nome.
— Eu não vou mentir para destruir alguém inocente — ela disse, e a voz veio firme. — Mas eu também não vou te expor como se eu estivesse num palco. Não é por lealdade. É por instinto. Eu sei como gente poderosa reage quando é afrontada.
Inteligente de novo. Ela não se pintava de santa. Se pintava de sobrevivente.
Eu deslizei a pasta um pouco, aproximando a página das cláusulas de confidencialidade.
— Se te perguntarem algo sobre mim, sobre a Hale Holdings, sobre onde eu vou ou com quem eu falo… o que você faz?
— Eu digo “não posso comentar” — ela respondeu. — E aguento as consequências.
— E se te oferecerem dinheiro?
Ela soltou uma risada curta, sem alegria.
— Eu já estou sentada diante de um homem que compra silêncio com contratos. Você acha que eu vou me vender por trocado?
Houve um instante raro em que eu quase sorri de verdade. Quase.
Eu me recostei na cadeira, analisando o conjunto: coragem, desespero, caráter. Uma tempestade, sim. Mas controlável? Talvez. A grande questão era: controlável por mim… ou capaz de me controlar de volta?
— Seu ponto fraco é sua mãe — eu disse, deixando a frase cair com frieza cirúrgica.
O rosto dela não mudou muito, mas eu vi: um microtremor no maxilar. A confirmação muda de forma, mas sempre aparece.
— Não use isso contra mim — ela falou, baixa.
— Eu não sou um homem que desperdiça alavancas — respondi. — Mas eu também não sou um homem que perde tempo destruindo peças que ainda podem funcionar.
Helena abriu a boca para intervir, talvez temendo que eu tivesse ido longe demais. Eu ergui a mão. Era eu quem conduzia.
— Você quer visitas livres à sua mãe. — Olhei para o contrato. — Você quer autonomia de trabalho e estudo. Você quer privacidade.
Isabella ficou imóvel, esperando o veredito como quem espera um disparo.
— Eu não vou te dar “livre” — eu disse, direto. — Livre não existe quando você carrega meu sobrenome. Mas eu posso te dar… previsibilidade.
A tensão no ar mudou. Ela não relaxou, mas ouviu.
— Visitas à sua mãe serão garantidas — continuei. — Com escolta. Sem negociação. Sem avisos para a imprensa. Você vai e volta sob segurança, com rotas alternadas, e sem conversas com estranhos no caminho.
— Escolta… — ela repetiu, e eu vi a palavra ferir o orgulho dela.
— Chame de prisão, se quiser. — Minha voz ficou mais dura. — Eu chamo de sobrevivência. A partir do momento em que você assinar, você vira alvo. E eu não perco o que é meu.
Ela me encarou com raiva contida.
— Eu não sou sua.
— Ainda não — eu corrigi, frio. — Mas vai ser, no papel. E o papel manda mais do que sentimentos.
Helena deslizou uma folha adicional: um adendo, curto, objetivo. A cláusula das visitas com escolta, redigida na hora. Um pedaço mínimo de concessão — e, ainda assim, suficiente para deixar claro que eu havia ouvido.
Isabella leu. Os olhos percorreram cada linha como se estivessem procurando uma armadilha.
— Isso não resolve a multa — ela disse, com a voz firme apesar do medo.
— A multa fica — respondi, simples. — Porque eu preciso de certeza. E você precisa de um motivo para não esquecer o que está assinando.
Ela apertou a caneta novamente. Por um momento, eu imaginei que ela levantaria e iria embora. Seria coerente. Seria até admirável.
Mas então ela respirou fundo, como quem engole o próprio orgulho para manter alguém vivo. E isso… isso me atingiu de um jeito incômodo, porque eu reconhecia sacrifício quando via.
— Você é um homem terrível — ela disse, quase num sussurro.
— Eu sou um homem necessário — eu respondi.
O silêncio caiu, pesado e definitivo. Isabella posicionou a ponta da caneta na linha pontilhada.
Eu observei. Não por prazer, mas por instinto: o instante exato em que uma vida muda de dono, mesmo quando ela finge que escolheu.
A caneta deslizou.
O som do atrito no papel foi baixo, mas dentro de mim soou como um portão se fechando.
Ela assinou.
Eu peguei o contrato, não com pressa, mas com a precisão de quem recolhe uma arma carregada. Assinei em seguida, letra firme, sem hesitar — porque hesitar é para quem ainda tem dúvidas.
Quando terminei, fechei a pasta e empurrei de volta para Helena.
Contrato firmado.
E Isabella Monteiro… acabava de entrar no meu mundo.
Sem saber que, no meu mundo, o perigo não vinha das ruas.
Vinha de dentro.