Capítulo 3 — Termos Frios

1573 Words
Isabella O ar daquele escritório era limpo demais. Cheirava a vidro polido, café caro e silêncio comprado. Eu não combinava com nada ali — nem com a mesa de mármore, nem com as cadeiras que pareciam feitas para gente que nunca treme. Mas eu estava sentada mesmo assim, porque a alternativa era voltar para casa com uma dívida impossível e uma mãe doente esperando que eu fizesse o milagre que ninguém faz. Dra. Helena Duarte colocou um copo d’água diante de mim como se isso pudesse acalmar o caos. — Antes de qualquer coisa, eu preciso que você entenda — ela disse, com a voz sem arestas —: não existe coação. Você pode ir embora. Eu olhei para o papel na minha frente. Aquilo não era coação. Era pior: era uma escolha com uma arma apontada para as duas opções. — Claro — murmurei. — Eu posso ir embora… e ver minha vida ser penhorada. Helena não reagiu. Só abriu a pasta e deslizou o contrato para mais perto, alinhando cada página como se estivesse arrumando uma cama antes de um enterro. — Leia com calma. Se quiser, faço uma leitura guiada. — Eu leio. — Minha voz saiu mais dura do que eu me sentia. Os advogados ao lado dela eram dois: um homem grisalho, olhar calculista, e uma mulher mais jovem, impecável, com caneta pronta e expressão neutra. Os dois pareciam pessoas que nunca pediram desculpas por vencer. Eu puxei o contrato para mim e comecei. PRAZO: 12 (doze) meses, renovável mediante acordo de ambas as partes. Meu estômago apertou. Um ano inteiro com um homem que eu não conhecia, com um sobrenome que parecia feito para capas de revista e não para a minha realidade. EXCLUSIVIDADE: as partes comprometem-se a manter fidelidade pública e privada durante a vigência do contrato. Eu ergui o olhar. — Fidelidade privada? — perguntei, e o sarcasmo escapou antes que eu conseguisse segurar. — Isso é casamento ou prisão? O advogado grisalho respondeu sem emoção: — É uma proteção de imagem e de segurança jurídica. Evita escândalos. Escândalos. Minha vida sempre foi discreta por necessidade, não por virtude. Mas ser “fiel” a um desconhecido… isso tinha um gosto amargo. Continuei. CONFIDENCIALIDADE: qualquer informação relativa à família Hale, à empresa Hale Holdings, à rotina do Sr. Hale e aos assuntos internos será sigilosa. Violação implica multa e medidas legais imediatas. Eu fui descendo a página, e o gelo foi virando lâmina. CLÁUSULA MORAL: a Sra. Monteiro compromete-se a preservar conduta compatível com o cargo e a imagem pública do Sr. Hale, abstendo-se de atitudes que possam macular reputação, incluindo, mas não se limitando a: exposição indevida, declarações públicas, comportamento inadequado em eventos, uso de substâncias ilícitas, envolvimento em conflitos ou escândalos. Eu ri, sem humor. — “Conduta compatível”? Isso aqui é uma lista de como eu devo respirar? A advogada mais jovem finalmente falou, com voz polida: — É padrão para figuras públicas. — Eu não sou figura pública — eu rebati. — Eu sou só… eu. Helena sustentou meu olhar. — Se você assinar, Isabella, passa a ser parte do ecossistema dele. Querendo ou não. Eu continuei lendo com o coração batendo forte demais. E então encontrei. MULTA POR DESCUMPRIMENTO: em caso de violação de qualquer cláusula essencial, a Sra. Monteiro estará sujeita ao pagamento de multa compensatória no valor de… Eu parei. O número parecia uma piada de mau gosto, uma cifra tão alta que era quase ofensiva. Meu peito travou. — Isso… isso é impagável. O advogado grisalho assentiu como se estivesse comentando o clima. — Justamente. A finalidade é garantir o cumprimento. Eu senti a raiva subir pela garganta. — Então não é contrato. É coleira. O silêncio que se seguiu foi pesado, como se eu tivesse dito algo obsceno. Helena juntou as mãos, paciente. — Isabella, esse tipo de acordo não é sobre romance. É sobre blindagem. Ele não está comprando você. Está comprando estabilidade. — E eu? — Minha voz falhou um pouco, mas eu segurei firme. — O que eu ganho além de pagar dívidas? Helena virou algumas páginas e apontou, objetiva: — Quitação integral das dívidas vinculadas ao seu núcleo familiar. Plano de saúde completo para sua mãe, com cobertura ampla e imediata. Uma residência segura durante o período do contrato. Um valor mensal para suas despesas e… — ela hesitou o mínimo — proteção. A palavra “proteção” veio com um peso estranho, como se significasse também outra coisa: vigilância, controle, cerca alta. Eu engoli seco. — E quais são as “cláusulas essenciais”? — perguntei, voltando ao texto. — Porque eu quero entender exatamente onde eu posso morrer e onde eu posso respirar. Os advogados trocaram um olhar rápido, quase imperceptível. Eles não estavam acostumados a alguém como eu fazendo perguntas do jeito certo. Eu virei a página e comecei a marcar, uma a uma, as linhas que me incomodavam. — Eu quero ajustes. O advogado grisalho levantou uma sobrancelha. — Ajustes? — Limites mínimos — eu disse, e minha voz ficou mais firme conforme eu falava, porque a indignação era a única energia que eu tinha. — Eu aceito o prazo de doze meses. Aceito confidencialidade. Aceito que a imagem dele exija cuidado. Mas eu não vou assinar um contrato que me transforma em refém sem nem uma porta de emergência. A advogada jovem cruzou as mãos sobre a mesa. — O que você está propondo? Eu respirei fundo. Pensei na minha mãe. Pensei no homem que eu não conhecia, mas cujo nome já pesava como ferro na minha língua: Ethan Hale. — Primeiro: cláusula de visitas livres à minha mãe. Sem restrição de horários e sem necessidade de autorização prévia. Se ele quer controle, controle a empresa. A minha mãe não entra nisso. Helena não interrompeu. Ela estava me observando como se eu fosse um fenômeno estatístico improvável. — Segundo: eu mantenho meu trabalho ou meus estudos. Eu não vou virar enfeite de um bilionário babaca. O advogado grisalho abriu a boca para contestar, mas eu não dei espaço. — Terceiro: privacidade. Sem rastreamento no meu telefone pessoal, sem câmeras em ambientes íntimos. Se isso for sobre imagem, não precisa invadir minha pele. A advogada jovem anotou algo, rápida demais. O olhar dela já não era neutro; tinha um traço de surpresa. — Quarto — eu continuei, sentindo meu pulso acelerar —: cláusula de segurança. Se eu estiver em risco por causa do nome dele, ele é responsável por proteção real, não por “aparência”. E isso inclui… — eu hesitei por um segundo, mas não recuei — inclui que eu possa rescindir o contrato se houver qualquer ameaça direta à minha integridade por negligência dele. O silêncio ficou denso. O advogado grisalho pigarrou. — Você entende que está negociando com um Hale? — Eu entendo que eu estou negociando com a minha sobrevivência — eu respondi, sem baixar os olhos. — E se vocês querem que eu assine, vocês precisam entender isso também. Helena inclinou a cabeça, uma fração. Quase um respeito. — Mais alguma coisa? Eu pensei na multa. Na palavra “essencial”. No medo de ficar presa mesmo se ele… fosse pior do que eu imaginava. — Sim. A multa precisa ser proporcional. Eu não tenho como pagar isso nunca. Então, na prática, eu perco o direito de errar, o direito de respirar, o direito de existir fora do que ele decide. Eu aceito uma multa, mas não aceito uma sentença. O advogado grisalho soltou um riso curto, incrédulo. — A senhorita está sendo… ousada. — Eu estou sendo realista — eu corrigi. — Ousadia seria achar que eu vou assinar um contrato desses sem tentar me salvar um pouco. A porta da sala se abriu, interrompendo a conversa antes que ele pudesse responder. A atmosfera mudou drasticamente. Uma presença tão intensa que parecia ter diminuído a temperatura ambiente. Não foi preciso olhar para reconhecê-lo, mas eu olhei. Ele irrompeu no cômodo com uma autoridade inquestionável, como se fosse seu dono — o que, talvez, fosse verdade. Alto, vestindo um terno de corte impecável, ele mantinha uma expressão controlada, que não demonstrava necessidade de aprovação. Seus olhos, frios e perspicazes, inspecionavam tudo, tratando cada detalhe como um dado a ser processado. Não havia pressa em seus movimentos, apenas uma absoluta certeza. Ethan Hale. Meu corpo reagiu antes da minha mente: um nó no estômago, um arrepio, uma vontade absurda de levantar e ir embora… e outra, ainda mais absurda, de ficar só para não parecer fraca. Ele lançou um olhar rápido para o contrato marcado, depois para os advogados, e por fim para mim. Como se me medisse em silêncio. — Está dificultando? — ele perguntou, sem elevar a voz. Helena se manteve profissional. — Isabella está propondo ajustes mínimos de segurança e autonomia. Ethan deu um passo, aproximando-se da mesa. A sombra dele caiu sobre as páginas, sobre a minha mão, sobre tudo. — Ajustes — ele repetiu, como se a palavra tivesse gosto r**m. Então olhou diretamente para mim, e eu senti como se estivesse diante de um predador que não precisava correr para vencer. Eu sustentei o olhar, mesmo com o coração batendo alto. Porque se eu desviasse agora, eu já estaria perdida. Ele apoiou a palma na mesa, perto do contrato, e falou com uma calma que era quase um golpe: — Assine.
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