Ethan
Eu não tinha tempo para teatro — e, ainda assim, era exatamente isso que o conselho queria.
O relógio marcava sete e cinquenta e oito quando entrei na sala de reuniões do último andar. As paredes de vidro devolviam a cidade como um espelho arrogante: Manhattan inteira parecendo pequena lá embaixo, organizada em linhas, obediente ao meu ponto de vista. Eu gostava dessa sensação. Não por vaidade barata, mas porque era a única prova concreta de que o mundo ainda respondia a regras. A minhas regras.
O conselho já estava sentado, alinhado como um júri que se julgava superior à sentença.
Meu tio, Gregory Hale, ocupava a cabeceira com o sorriso contido de quem não sabe mais mandar, mas ainda sonha com isso. Ao lado dele, dois conselheiros antigos — homens que confundiam tradição com poder — e uma mulher que eu respeitava apenas porque era perigosa o suficiente para não precisar fingir.
— Ethan — Gregory disse, com aquela voz de quem sempre fala como se estivesse fazendo um favor. — Pontual. Pelo menos nisso você mantém o padrão do seu pai.
Eu não me sentei de imediato. Permaneci de pé, mãos atrás das costas, olhando para cada um deles como se estivesse contabilizando falhas estruturais.
— Vamos poupar memórias sentimentais — respondi. — Me chamaram para decidir ou para me avaliar?
Um silêncio breve. O tipo de silêncio que existe quando ninguém quer ser o primeiro a perder.
A mulher, Eleanor Price, cruzou as pernas com calma. Ela sabia. Sempre soube. Ela foi a primeira a ler o testamento. A primeira a entender a armadilha.
— Você sabe o motivo — ela disse. — A sucessão não é um ato de competência. É um ato de legitimidade.
Eu sorri, sem humor.
— Legitimidade é resultado. Eu entreguei resultados.
— Entregou lucros, sim. — Gregory inclinou o corpo para frente, dedos entrelaçados, encenando um homem preocupado com o futuro da empresa. — Mas o estatuto é claro. O cargo de CEO… na linha direta da família Hale… exige estabilidade. Exige um… símbolo.
O modo como ele falou “símbolo” me fez ter vontade de rir. Só não ri porque eu sabia que isso era exatamente o que eles queriam: uma reação emocional, um deslize, um motivo para me pintar como instável. Como perigoso. Como inadequado.
— Um símbolo — eu repeti, deixando a palavra girar no ar. — Você quer dizer uma esposa.
Ninguém negou. Ninguém precisou.
O estatuto era um pedaço de papel velho, escrito por homens mortos que acreditavam que poder só era seguro quando trancado dentro de uma moldura familiar: herdeiro, casamento, fachada limpa. Meu pai odiava aquilo. Por isso deixou a cláusula intacta no testamento, como uma punição póstuma. Ou como um teste.
Eu não era alguém que falhava em testes.
— Isso é chantagem institucional — eu disse, por fim.
Eleanor ergueu levemente uma sobrancelha.
— É governança. Você pode chamar como quiser.
— E se eu recusar?
Gregory se recostou, satisfeito, como quem esperava a pergunta.
— O conselho nomeia um CEO interino. Até que você… se adeque aos requisitos.
“Interino”, no vocabulário deles, significava “controlável”. Um fantoche com sorriso, pronto para assinar acordos ruins em nome da tradição.
Senti a raiva crescer, mas minha raiva sempre foi útil: uma lâmina fria, não uma explosão.
— Vocês estão dispostos a travar a empresa no meio de uma negociação internacional — eu disse, apontando para a tela que exibia gráficos — por causa de um anel?
Eleanor respondeu, serena:
— A negociação internacional exige confiança do mercado. E o mercado ama histórias simples, Ethan. O herdeiro assume. A família continua. A imagem se preserva. Você pode odiar isso… mas não pode negar que funciona.
Minha mente foi rápida, calculando rotas como um sistema de defesa. Eu podia brigar, judicializar, expor. Mas tudo isso custava tempo — e tempo é a única moeda que o poder respeita.
Eu precisava do cargo agora. Precisava assinar o acordo com os j*******s antes que Donovan Pierce colocasse as mãos nele.
Donovan. O nome atravessou minha cabeça como um aviso.
Ele não era só um rival. Era uma sombra com rosto — e um histórico de destruição. Se ele entrasse no conselho por uma brecha, ele não compraria a empresa. Ele a desmontaria, peça por peça, só para provar um ponto.
Eu não permitiria.
Respirei uma vez, fundo, e me sentei. Lento. Controlado.
— Muito bem — eu disse, sem emoção. — Me deem o que querem. Mas do meu jeito.
Gregory abriu um sorriso que tentou parecer vitorioso.
— Ótimo. Temos algumas candidatas. Filhas de sócios, herdeiras de—
— Não. — Minha voz cortou a sala como um golpe.
O sorriso dele morreu.
— Como assim, não?
Eu entrelacei os dedos sobre a mesa.
— Não vou casar com uma mulher treinada para me manipular e me apunhalar dentro de casa. Vocês querem estabilidade? Eu quero controle. Vou escolher alguém fora do jogo de vocês.
Eleanor me observou em silêncio, como se estivesse avaliando a frieza da minha decisão.
— Você já tem alguém em mente?
— Ainda não — respondi, com honestidade cirúrgica. — Mas vou ter.
Levantei e, antes de sair, finalizei com a única verdade que importava:
— Vocês podem exigir um casamento. Não podem exigir acesso ao meu pescoço.
Saí da sala sem esperar resposta.
No meu escritório, a cidade parecia mais distante, menos capaz de me irritar. Eu apertei um botão no interfone.
— Entre.
Mason entrou com um tablet na mão. Ele era meu diretor de segurança e minha sombra mais confiável. Um homem que não fazia perguntas inúteis.
— Eles apertaram o cerco? — ele perguntou.
— Apertaram. — Caminhei até a janela. — Quero um perfil. Alguém que não tenha ligações com o nosso círculo. Discreta. Sem ambição social. Sem histórico de escândalos. Mas… com coluna.
Mason digitou rápido.
— Coluna?
— Alguém que não desmanche ao primeiro olhar. — Meu tom ficou mais baixo. — Eu não preciso de uma boneca. Preciso de alguém que aguente o peso do meu nome sem quebrar… e sem achar que isso é um conto de fadas.
Ele assentiu.
— Alguma preferência?
Eu pensei por um segundo. Preferência era uma palavra perigosa. Preferência abre espaço para desejo, e desejo abre espaço para fraqueza.
— “Tempestade controlável” — eu disse. — Alguém que tenha fogo suficiente para parecer real… mas que entenda limites quando são impostos.
Mason levantou os olhos, como se entendesse a contradição. Eu a entendia também. Era exatamente por isso que precisava ser cuidadoso.
— Vou mandar investigar opções fora do circuito — ele disse.
— Não opções. Uma opção. — Minha voz endureceu. — Traga dados completos: família, dívidas, relações, histórico de trabalho, vulnerabilidades. Tudo.
Mason hesitou por um instante, raro nele.
— Vulnerabilidades?
Eu me virei devagar, encarando-o.
— Todo mundo tem um ponto de pressão. Eu só preciso saber qual é o dela antes que outra pessoa descubra primeiro.
Ele assentiu, sem discutir.
Alguns minutos depois, ele voltou com uma pasta digital aberta. Uma foto simples, nada de glamour: uma jovem com olhos cansados, expressão de quem já aprendeu a engolir orgulho para sobreviver.
— Isabella Monteiro — Mason disse. — Classe média baixa. Sem conexões com a elite. Mãe doente. Dívida recente em nome do irmão. Perfil limpo. Sem registros criminais. Sem histórico de exposição pública. Trabalha e estuda. Teimosa.
Eu encarei a foto por tempo suficiente para perceber algo que não aparecia em relatórios: ela não parecia fraca. Parecia… encurralada.
Encurralada é perigoso. Gente encurralada morde.
Bom.
— É ela — eu disse, e senti o tabuleiro se reorganizar com uma clareza brutal. — Prepare o contrato final e o plano de imagem.
Mason não se moveu.
— Amanhã?
Eu nem pisquei.
— Tragam-na amanhã. Sem atrasos.