O morro parecia respirar mais devagar desde aquela noite. O vento subia pelas vielas carregando o cheiro de terra, fumaça e comida simples feita nas cozinhas apertadas das casas empilhadas. Mas havia algo diferente no ar. Algo que ninguém dizia em voz alta. Algo estava mudando. Lara sentia. Ela estava sentada na pequena mesa da cozinha quando o rádio do morro começou a tocar uma música antiga de funk. Era cedo ainda, mas alguns homens do movimento já circulavam pelas ruas. Ela colocou a mão sobre a barriga. O bebê mexeu de leve. — Você sente também… — ela murmurou. Desde que subira na laje na noite anterior, algo dentro dela havia mudado. Não era coragem exatamente. Era uma certeza silenciosa. O morro estava observando. E isso era perigoso para Elias. Muito perigoso. — Do outr

