Lara ficou ali, agachada atrás do carro, o som dos gritos e dos passos ecoando na sua mente. Seu corpo tremia, mas não de frio—era puro medo. Ela queria correr, queria sumir dali, mas suas pernas pareciam presas ao chão.
De repente, um silêncio estranho tomou conta do ambiente. Os tiros cessaram, os gritos diminuíram. Lara levantou a cabeça devagar, tentando enxergar algo no meio do breu e das luzes piscantes da festa que agora parecia abandonada.
Então, passos pesados se aproximaram. O coração dela disparou ainda mais, mas logo a silhueta conhecida surgiu. Matheus.
— Tá tudo certo — ele disse, enfiando a arma de volta na cintura e se abaixando para encará-la. — Vem.
Ela obedeceu sem pensar, deixando que ele a puxasse pela mão e a levasse para dentro de uma casa próxima. Lá dentro, ele trancou a porta e passou as mãos no rosto, visivelmente irritado.
— Quem foi? — Lara perguntou, ainda ofegante.
— Talarico. Desgraçado tentou causar tumulto. Mas já resolvemos isso.
O olhar dele estava sombrio, e Lara soube exatamente o que “resolver” significava. Um arrepio percorreu sua espinha, mas ao mesmo tempo ela sentia alívio por ele estar bem.
— Você tá bem? — ele perguntou, olhando-a nos olhos.
— Tô... só assustada.
Matheus suspirou, sentando-se no sofá e puxando Lara para o colo dele. O gesto foi inesperado, mas ela não resistiu. O corpo dela relaxou contra o dele, e por alguns instantes, o mundo lá fora deixou de importar.
— Eu prometi que ia cuidar de você, não prometi?
Ela assentiu, sentindo a respiração dele quente contra sua pele.
— Então confia em mim.
Mas será que ela conseguia confiar? Será que estava disposta a se entregar a esse mundo de vez? Aquele pensamento ficou martelando na mente de Lara, mesmo quando Matheus segurou seu rosto e a beijou de novo, como se quisesse apagar qualquer dúvida dela com o próprio toque.
O beijo de Matheus era intenso, possessivo. Lara sentia o calor das mãos dele segurando sua cintura com firmeza, como se quisesse gravar sua presença nela. Mas, ao mesmo tempo, havia algo diferente naquele toque. Um cuidado que ela não esperava de alguém como ele.
Lara interrompeu o beijo e apoiou as mãos no peito de Matheus, tentando acalmar a própria respiração.
— Eu… não sei como lidar com isso — ela confessou, desviando o olhar.
Matheus segurou o queixo dela e a fez encará-lo.
— Lidar com o quê?
— Com você. Com essa vida. Com tudo isso que tá acontecendo.
Ele soltou um suspiro, passando a língua pelos lábios enquanto pensava.
— Eu sei que não é fácil, Lara. Mas eu nunca vou deixar nada acontecer com você. Nunca.
Ela queria acreditar nisso. Queria se entregar completamente ao que sentia por Matheus, mas o medo ainda estava ali, sussurrando em sua mente.
Antes que pudesse responder, ouviram batidas firmes na porta. Matheus franziu o cenho, se levantou e sacou a arma, indo até a entrada. Ele abriu apenas uma fresta e viu um dos seus homens, Murilo, com a expressão tensa.
— O que foi? — Matheus perguntou.
— Elias tá no morro.
O sangue de Matheus ferveu na hora.
— Como assim?
— Pegamos um dos caras dele na viela. Ele tá tentando formar um bonde.
A fúria subiu rápido dentro de Matheus. Ele cerrou os punhos, respirou fundo e olhou de relance para Lara, que observava tudo da sala, apreensiva.
— Fica aqui — ele disse a ela, firme.
Lara se levantou de imediato.
— Matheus, não…
Mas ele já tinha saído pela porta.
Matheus desceu a viela com passos pesados, a mente fervendo de raiva. A notícia de que Elias estava rondando o morro era como uma punhalada. Ele tinha dado ao ex-amigo a chance de sair vivo, mas Elias decidiu voltar.
Ao chegar à boca, os olhares se voltaram para ele. Murilo, junto com outros três homens, segurava um cara contra a parede. O sujeito estava machucado, um corte aberto no supercílio e os lábios sangrando.
— Quem é esse? — Matheus perguntou, cruzando os braços.
— Um dos homens do Elias — Murilo respondeu. — Pegamos ele trocando ideia com uns caras na viela, tentando trazer gente pro lado deles.
Matheus se aproximou, encarando o homem ferido.
— E aí, parceiro? Tá achando que esse morro tem dono diferente agora?
O cara cuspiu sangue no chão e sorriu debochado.
— Nada dura pra sempre, Matheus. Você tá no topo agora, mas até rei cai.
A resposta fez Matheus rir, mas não era um riso divertido. Era um riso sombrio, carregado de ameaça. Ele pegou a arma na cintura e bateu com a coronha no rosto do homem, que grunhiu de dor.
— Você acha que eu tô brincando? — Matheus perguntou, se abaixando para ficar no nível dele. — Eu avisei pro Elias não voltar. E ele voltou. Sabe o que isso significa?
O silêncio do homem foi a resposta.
Matheus levantou, ajeitou a camisa e olhou para seus homens.
— Solta ele.
Murilo e os outros se entreolharam, mas obedeceram. O homem cambaleou para frente, respirando pesado.
— Volta pro Elias — Matheus ordenou. — E diz pra ele que essa foi a única vez que eu deixei passar. Na próxima, eu não mando recado. Eu mesmo vou até ele.
O homem hesitou por um segundo, como se ponderasse se deveria dizer algo, mas então se virou e sumiu na escuridão da viela.
Murilo coçou a cabeça.
— Tem certeza que foi certo deixar ele ir?
— Eu quero que Elias saiba que eu sei o que ele tá fazendo — Matheus respondeu. — Ele que se prepare.
Enquanto os outros ainda absorviam a cena, Matheus sentiu o celular vibrar no bolso. Quando viu o nome na tela, seu rosto relaxou um pouco.
Era Lara.
Ele atendeu.
— Já chego aí.
Do outro lado da linha, ela suspirou.
— Só me avisa quando chegar.
— Sempre.
Mas, no fundo, Matheus sabia que aquela guerra ainda estava só começando.