Matheus passou a noite investigando com Negrete e outros homens de confiança. O galpão invadido ficava em um ponto estratégico, e o ataque parecia planejado demais para ser obra de amadores. Ele sabia que alguém havia traído o movimento, e isso o deixava em alerta total.
— Quero todo mundo em vigilância máxima — Matheus ordenou. — Vamos reforçar os pontos principais e fazer perguntas, quem tiver r**o preso não vai escapar.
Negrete, ao lado, acendeu outro cigarro, a expressão tensa.
— Chefe, tem algo errado aqui. Esse tipo de operação, sem ninguém ter ouvido nada, só pode ter sido facilitado. Alguém de dentro tá entregando a gente.
Matheus fez que sim com a cabeça, mas a raiva ainda pulsava em sua mandíbula cerrada. Ele sabia que Negrete estava certo, mas as suspeitas precisavam de provas. E enquanto ele não as tivesse, a paranoia só aumentava.
Enquanto isso, na casa de Lara, Dona Iraci tentou insistir mais uma vez que a filha aceitasse sair do morro, nem que fosse por uns dias. Lara negou com a cabeça novamente, mas agora sua expressão era mais abatida.
— Eu sei que a senhora só quer o meu bem, mãe, mas ir embora não vai mudar o que aconteceu.
Dona Iraci segurou a mão da filha com força.
— Eu não sei como vou suportar ver você sofrer assim. Desde que saiu do hospital, você m*l come, m*l dorme, e cada vez que sai dessa casa, eu fico sem respirar até ouvir sua chave na porta.
Lara ficou em silêncio, os olhos presos à mesa. O peso que carregava parecia cada vez mais insuportável, mas as palavras de sua mãe batiam fundo.
No fim da tarde, Matheus passou na casa de Lara. Era raro ele ir até lá tão cedo, mas as suspeitas dentro do movimento o deixavam inquieto. Ele tinha a necessidade de vê-la, como se a presença dela pudesse de alguma forma lembrá-lo do que ele estava realmente protegendo.
— Tá tudo bem por aqui? — ele perguntou depois de cumprimentar Dona Iraci.
— Dentro de casa, sim — ela respondeu, hesitante. — Mas Lara não tá bem.
Matheus franziu a testa. Ele sabia que seria difícil para Lara lidar com o que aconteceu, mas ver sua mãe tão abatida o fez perceber o quanto aquilo estava desgastando a todos.
— Vou falar com ela — ele disse, e subiu as escadas.
Lara estava sentada na cama, segurando uma foto antiga da família. Quando Matheus entrou, ela guardou a foto e o olhou com um sorriso pequeno e tímido.
— Matheus... O que faz aqui?
— Queria te ver, saber como você tá.
Ela não respondeu de imediato. Depois de alguns segundos, desviou o olhar para a janela.
— Estou tentando... seguir em frente, mas é difícil.
Matheus sentou na beira da cama, olhando para ela com sinceridade.
— Eu sei, Lara. E te prometo, ninguém vai fazer você se sentir ameaçada de novo.
Ela o encarou por um instante e então respirou fundo, como se as palavras dele tivessem um peso de verdade.
— Obrigada...
Mas no fundo, ela ainda sentia aquele vazio, algo que nem mesmo Matheus poderia preencher.
Do outro lado do morro, Elias estava reunido com Rato e mais dois homens. A expressão no rosto de Elias era uma mistura de desprezo e frieza calculada.
— Matheus tá desconfiado — Rato disse. — Tá botando pressão em todo mundo.
— Ele pode desconfiar o quanto quiser — Elias respondeu. — Só que sem provas, ele não é nada além de alguém tentando manter o poder por controle emocional.
Rato o observou por alguns segundos, hesitante.
— Você acha que ele vai começar a apertar o cerco?
Elias riu baixo.
— Se ele fizer isso, vai só mostrar que tá se desesperando. E quem perde o controle, perde o respeito.
Mas Elias não era tão imprudente quanto parecia. Ele sabia que Matheus não era i****a, e que aquele momento seria decisivo para ambos.
— Só não deixa rastro, Rato — Elias advertiu antes de se afastar. — Porque se alguém cair, você já sabe quem é que não vai pagar o preço.
No início da noite, Negrete chegou até Matheus com uma informação.
— Alguém do morro disse que viu movimento no beco perto da entrada da mata. Uns caras diferentes passaram por lá, ninguém reconheceu.
Matheus entendeu na hora que o beco poderia ter ligação com o assalto ao galpão. Levou dois homens e foi até lá verificar. Quando chegaram, ele encontrou um pedaço de pano preso em um dos galhos e pegadas leves no chão úmido.
Ele apertou os olhos na escuridão e viu algo mais à frente. Quando se aproximou, encontrou uma sacola com o resto de equipamentos de rádio dentro. Aquele era o sinal que ele precisava para provar que o ataque foi planejado de perto.
Mas de quem seria?
Matheus passou a madrugada revisitando cada detalhe das informações. O pedaço de pano e os equipamentos de rádio encontrados no beco próximos à mata eram evidências claras de que alguém tinha colaborado com os invasores, e isso o corroía por dentro.
Negrete, sentado no sofá com uma garrafa de água, parecia tão tenso quanto ele.
— Se foi alguém de dentro, Matheus, a gente tem que agir rápido. Esses traidores não podem sentir que têm tempo pra fazer outro movimento.
Matheus assentiu, mas sua mente estava focada em algo muito maior do que um único ataque. Se havia um traidor, não era apenas uma afronta à sua liderança, mas um sinal de que sua base de confiança estava ruindo. Ele precisava agir, e agir rápido.
Na manhã seguinte, o movimento no morro estava estranhamente tranquilo. O silêncio não era de paz, mas de apreensão. Todos sabiam que algo estava acontecendo, embora ninguém tivesse coragem de perguntar diretamente a Matheus.
Ele decidiu reunir os líderes locais em um dos pontos altos, onde ninguém ouviria a conversa sem ser chamado. Quando todos chegaram, Matheus foi direto ao ponto.
— Tivemos um ataque ao galpão. Roubaram uma carga inteira, e quem fez isso sabia exatamente como e quando agir — ele começou, os olhos fixos em cada um dos presentes. — Isso só pode significar uma coisa: alguém aqui tá passando informação.
Um murmúrio inquieto percorreu o grupo, mas ninguém teve coragem de responder. Matheus continuou, com a voz mais fria e firme.
— Eu não vou descansar enquanto não descobrir quem foi. Se alguém aqui sabe de alguma coisa e não fala, tá assinando a própria sentença.
A tensão no ar era quase palpável, mas ninguém se manifestou. Matheus sabia que, mesmo assim, alguns ali já deviam estar ligando os pontos e se preocupando com o próprio r**o.
Enquanto isso, Lara estava tentando se recompor dentro do possível. Cada dia era uma batalha interna, mas, naquele momento, seu foco estava em ajudar sua mãe a organizar algumas coisas em casa.
— Filha, deixa isso aí — Dona Iraci disse, tirando uma pilha de roupas das mãos da filha. — Vai descansar um pouco.
— Se eu descansar, fico pensando demais, mãe. Assim é melhor — Lara respondeu, quase implorando com os olhos.
Dona Iraci suspirou, mas deixou a filha continuar. Ela entendia que Lara estava tentando encontrar alguma normalidade no caos em que sua vida tinha se transformado.
Foi então que bateram na porta. Lara gelou por um momento, mas sua mãe foi atender. Era Elias.
— Dona Iraci, posso falar com a Lara rapidinho? — ele perguntou, o sorriso falso estampado no rosto.
Antes que a mãe pudesse responder, Lara apareceu no corredor.
— O que foi, Elias? — ela perguntou, o tom firme.
Elias notou a defensiva na voz dela, mas manteve o sorriso.
— Só queria saber como você tá, Lara. Todo mundo aqui no morro tá preocupado com você.
— Tô bem, obrigada — ela respondeu, seca, tentando manter a distância.
Ele inclinou um pouco a cabeça, como se analisasse a situação.
— Se precisar de alguma coisa, é só chamar. Lembra que a gente tá aqui por você.
Lara assentiu rapidamente e entrou de volta na casa, sem dizer mais nada. O alívio que sentiu ao fechar a porta atrás de si foi quase imediato, mas o desconforto de ter Elias por perto ainda a perseguia.