Fofoca

1189 Words
Naquele fim de tarde, Matheus estava sentado na laje, observando o movimento lá embaixo. A brisa suave da favela parecia carregar os murmúrios do morro. Elias subiu os degraus despreocupadamente, trazendo duas latas de cerveja. Ele colocou uma na frente de Matheus e se sentou ao lado, olhando para o mesmo horizonte. — Tá bonito o morro hoje, né? — Elias começou, aparentemente despreocupado. Matheus apenas assentiu, sem tirar os olhos do horizonte. — Escuta... andei ouvindo uns comentários aí — Elias continuou, usando o tom casual de quem solta uma conversa sem pressa. — O pessoal tá falando que o rei do morro tá tirando mais tempo pra ser babá da Lara do que pra comandar as coisas aqui. Matheus virou o rosto na direção de Elias, o olhar estreito, embora mantivesse a calma exterior. — Tá dizendo que o povo tem alguma coisa a ver com a minha vida agora, Elias? Elias levantou as mãos em um gesto de defesa. — Tô só te contando o que tão dizendo. Não sou eu, irmão. Mas você sabe como é... A galera fala. Acha que tá pegando leve, deixando as coisas correrem enquanto fica indo ver a menina todo santo dia. Matheus soltou uma risada curta, mas fria. Pegou a lata de cerveja, deu um gole e encarou Elias. — Primeiro, eu faço o que eu quiser com o meu tempo. Se eu quiser ficar o dia inteiro na porta da Lara, eu fico. E ninguém tem nada a ver com isso. Segundo... quem é que tá reclamando? Hein? Elias hesitou, fingindo dar outro gole na bebida para ganhar tempo. — Não é reclamação, Matheus. É só observação. A gente tá de olho, porque tem sempre gente querendo aproveitar um momento de distração. Só tô te alertando. Matheus se levantou, caminhando lentamente até o parapeito da laje, e olhou para o horizonte. Ele parecia estar escolhendo cada palavra antes de falar. — Sabe qual é a diferença entre eu e os outros, Elias? — perguntou, sem olhar para ele. Elias arqueou a sobrancelha. — Qual? — É que eu não preciso mostrar pra ninguém que eu tô no controle. Eu sou o controle. Quem falar o contrário que suba até aqui e tente me tirar — disse Matheus, voltando o olhar firme para Elias. Houve um silêncio pesado. Elias percebeu que havia cruzado uma linha tênue, mas sabia que não poderia se render tão fácil. — Tranquilo, irmão. Só queria te passar o recado. E... entre nós, tem mesmo alguma coisa com ela? — arriscou ele, tentando aliviar o clima. — Minha vida, meu problema, Elias. Cuida da tua — Matheus respondeu de forma direta, encerrando o assunto. Elias levantou, entendendo que a conversa não iria mais longe. — Fechou, Matheus. Tamo junto. Quando Elias desceu, Matheus continuou ali, sozinho, tentando acalmar o turbilhão na cabeça. Ele sabia que o comentário não era só uma fofoca inofensiva. Ele sabia que Elias estava testando limites, tentando observar até onde podia ir. Quanto a Lara, ela era uma linha que Matheus jamais deixaria ninguém cruzar. O pensamento da moça lhe trazia calma, mas também deixava claro que ela era um ponto fraco. E em um mundo como o deles, fraquezas podiam ser fatais. Matheus ficou ali por mais alguns minutos, fitando o horizonte como se tentasse encontrar as respostas no cenário pacífico do fim de tarde. Mas sua mente fervilhava. Ele sabia que precisava ser mais cauteloso do que nunca. Elias tinha essa habilidade de cutucar os outros e plantar dúvidas, e isso o irritava profundamente. Ele desceu da laje com passos firmes, chamando um de seus homens, um rapaz conhecido como Nenê. — Vai até o Elias, agora. Diz que quero ele na minha casa daqui a uma hora. Sem desculpas — Matheus ordenou com frieza. Nenê concordou prontamente e saiu. Matheus sabia que precisava marcar território e deixar claro que ele ainda era o comandante, tanto para Elias quanto para qualquer outra pessoa do morro que pudesse estar alimentando ideias sobre seu "desinteresse" nas operações. Depois de organizar o encontro, Matheus decidiu ir até a casa de Lara, algo que ele fazia quase sem perceber. A rua estava quieta, a chuva fina das últimas horas tinha dado lugar a uma noite estrelada, e ele gostava daquele silêncio. Quando bateu na porta, foi recebido pela Dona Iraci, que lhe abriu um sorriso acolhedor. — Matheus! Que surpresa boa. Lara tá lá dentro, mas não sei se tá muito bem hoje. Tá um pouco... calada — a mulher comentou, baixando a voz para que a filha não ouvisse. Matheus assentiu. — Posso falar com ela? Rapidinho. Dona Iraci fez um gesto para que ele entrasse. Lara estava sentada no sofá, enrolada em uma manta e com uma xícara de chá nas mãos. Ao vê-lo, ela sorriu, mas era um sorriso tímido, quase constrangido. — Oi, Matheus. — Oi, Lara. Tudo bem? Ela deu de ombros. — Vai levando. Ele sentou na poltrona à sua frente, sem desviar o olhar dela. — Ouvi dizer que você tá meio pra baixo hoje. Quer falar sobre isso? Lara hesitou. Ela gostava quando ele aparecia, mas não sabia o que exatamente significava a presença constante dele. — É muita coisa na minha cabeça, sabe? Algumas noites são mais difíceis que outras. — Entendo. Mas, escuta, você não tá sozinha. Eu tô aqui. Qualquer coisa que precisar, qualquer problema, é só falar. Ela assentiu, mas algo no tom dele a fez se questionar. Ele sempre a tratava com tanto cuidado, como se fosse a coisa mais importante do mundo para ele. — Matheus... por que você tá sempre aqui? A pergunta pegou Matheus de surpresa. Ele desviou o olhar por um instante, como se buscasse as palavras certas. — Porque eu quero que você fique bem, Lara. Quero que você se sinta segura. Ela percebeu que ele não respondeu diretamente. Mesmo assim, não pressionou. Apenas agradeceu com um olhar sincero. Depois de mais alguns minutos de conversa, Matheus se despediu e voltou para sua casa. Ele sabia que estava cada vez mais ligado a Lara, e isso o preocupava mais do que qualquer provocação de Elias. Ele não queria que ela fosse um alvo, mas ao mesmo tempo, não conseguia se afastar. Já em casa, ele encontrou Elias sentado à mesa, esperando por ele. — Pontual, hein — Matheus comentou, entrando na cozinha e pegando uma cerveja na geladeira. — Sempre. O que cê quer comigo? Matheus sentou-se à frente dele, o olhar afiado. — Quero que você pare de achar que tem algum tipo de poder aqui, Elias. Tá tudo funcionando do jeito que eu quero. Não preciso de opiniões suas nem de qualquer um dos seus amigos. Entendeu? Elias deu um meio sorriso, mas ficou em silêncio. Matheus não precisava de uma resposta, só queria deixar claro onde cada um estava naquele jogo. E enquanto Elias saía, um plano começava a fermentar em sua mente, assim como um turbilhão de emoções começava a fermentar na de Matheus. Entre o poder e os sentimentos por Lara, ele precisava encontrar um equilíbrio antes que algo desmoronasse.
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