Primeiros sinais

1748 Words
Matheus caminhava pelo galpão, os pensamentos consumidos pelo peso das decisões. Os recentes acontecimentos tinham transformado a tranquilidade de seu domínio em uma terra de desconfiança e suspeita. Ao mesmo tempo, o nome "Rato" reverberava em sua mente. Não era apenas o apelido do homem que agora ocupava seus pensamentos – era um símbolo de traição. Naquela manhã, Negrete havia trazido informações que confirmaram as suspeitas de Matheus. Rato tinha sido visto conversando com homens estranhos ao morro, os mesmos que provavelmente participaram do ataque ao galpão. Para Matheus, a questão não era mais "se" Rato era culpado, mas quanto ele sabia e quem estava por trás de tudo. Na tarde daquele dia, Matheus reuniu um pequeno grupo de homens de confiança. A ordem foi clara: encontrar Rato e trazê-lo para ele. — Eu quero ele vivo — Matheus enfatizou, o tom carregado de frieza. — Mas se precisar quebrar uns ossos pra ele colaborar, não hesitem. Negrete assentiu e partiu com outros dois. A busca não demorou muito. Rato estava escondido em um dos barracos do alto do morro, isolado, mas ainda assim confiante de que não seria descoberto. Quando Negrete e os outros invadiram, ele tentou escapar pela porta de trás, mas foi rapidamente encurralado. Alguns minutos depois, Rato era arrastado até a praça principal, os gritos de protesto e ameaças abafados pelos sussurros da multidão que começava a se formar. Matheus chegou logo depois, o olhar fixo no homem amarrado e ajoelhado à sua frente. — Você sabe por que está aqui? — Matheus perguntou, cruzando os braços enquanto olhava de cima. — Não sei de nada, chefe! — Rato respondeu, a voz carregada de desespero. — Isso é intriga, tão querendo me queimar com você! Matheus sorriu, mas o sorriso não era de humor. — Então me diz, Rato... por que falaram que você andou conversando com gente que a gente não conhece? E por que foi justamente depois disso que roubaram uma carga do galpão? Rato tentou argumentar, mas a tensão no ambiente era palpável. Ele olhava ao redor, buscando apoio, mas a multidão permanecia calada, alguns com olhares de acusação e outros, apenas curiosos. Matheus deu um passo à frente, ajoelhando-se diante de Rato. — Escuta bem, porque eu vou dizer isso só uma vez. Se você abrir o jogo agora, talvez eu considere aliviar sua situação. Mas se você continuar mentindo pra mim... O silêncio que se seguiu foi mais ameaçador do que qualquer palavra. Matheus se levantou e olhou para Negrete. — Levem ele pro galpão. Eu quero ter uma conversa mais particular com ele. No galpão, o cenário era diferente. As paredes ecoavam os sons dos passos de Rato enquanto ele era arrastado para o centro. Matheus chegou pouco depois, sozinho. A porta se fechou atrás dele, isolando-os do resto do mundo. — Você tem até o final da noite pra me contar o que eu quero saber — Matheus disse, enquanto acendia um cigarro. — E eu garanto que a noite vai ser longa pra você, caso não colabore. Rato engoliu seco. Ele sabia que Matheus não fazia ameaças vazias. Enquanto isso, Lara tentava recuperar algum senso de normalidade em casa. Mas o alívio de estar fora do hospital era ofuscado pelo medo constante. Toda vez que fechava os olhos, revivia os momentos de terror. A visita de Elias no dia anterior só aumentava sua angústia. Ela sabia que havia algo errado nele, algo que a fazia querer fugir. Dona Iraci percebeu o estado da filha e decidiu tentar distraí-la. — Lara, que tal você ir visitar Luana? Ela perguntou por você. Pode ser bom sair um pouco. Lara hesitou, mas acabou aceitando. Qualquer coisa era melhor do que ficar em casa e remoer os pensamentos. No caminho para a casa de Luana, cada sombra parecia ameaçadora, cada barulho um motivo para olhar por cima do ombro. Ela sabia que demoraria muito para que o medo desaparecesse — se é que um dia iria embora. De volta ao galpão, Rato estava em péssimas condições. A "conversa" com Matheus tinha sido mais intensa do que ele esperava, e sua resistência estava prestes a se esgotar. — Eu vou falar! — ele gritou, a voz tremendo. — Mas, por favor, me escuta, chefe! Matheus parou de andar em círculos e se virou para ele, os olhos duros como pedra. — Eu tô ouvindo. O que Rato revelou fez o sangue de Matheus gelar. O ataque ao galpão não tinha sido apenas um roubo, mas o início de uma operação muito maior. Uma facção rival estava tentando ganhar terreno no morro, e Rato tinha sido apenas o intermediário. — Eles me obrigaram! — Rato implorou, as lágrimas escorrendo pelo rosto. — Eu não tinha escolha, chefe, juro! Matheus permaneceu em silêncio por um momento, processando a informação. Quando finalmente falou, sua voz era um misto de raiva e decepção. — Você podia ter vindo até mim. Você podia ter confiado em mim. Mas escolheu trair sua própria gente. Ele se virou para Negrete, que estava encostado na parede. — Acaba com isso. Negrete assentiu e arrastou Rato para fora do galpão. O som dos gritos se dissipou enquanto Matheus ficava sozinho, acendendo outro cigarro e olhando para o chão. Ele sabia que a guerra estava apenas começando. Matheus permaneceu no galpão por mais algum tempo, os pensamentos a mil. A revelação de Rato havia mudado o jogo. Ele sabia que, para manter sua posição e proteger o morro, teria que agir rápido. O cheiro de fumaça do cigarro enchia o ar enquanto ele avaliava suas opções. Pouco depois, Negrete voltou. — Rato tá resolvido, chefe. Mas a informação que ele deu… é preocupante. Aquela facção não tá só testando a gente. Eles já têm plano. Matheus assentiu, com a mandíbula cerrada. — Chama o grupo. Quero todos prontos pra uma reunião na base. Isso agora virou prioridade máxima. Negrete saiu para reunir os homens, enquanto Matheus observava o céu escurecer pela janela do galpão. Uma chuva fina começava a cair, espalhando o cheiro da terra molhada pelo ambiente. Na casa de Lara, ela ainda não conseguia dormir. A conversa breve com Elias no dia anterior não saía da sua cabeça. Havia algo no olhar dele que a deixava com o coração acelerado, mas não no bom sentido. Ela se levantou da cama, envolveu-se em uma manta e foi até a sala, onde Dona Iraci fazia crochê. — Não consegue dormir de novo? — a mãe perguntou sem olhar diretamente. — Não. É difícil, mãe. Parece que tem sempre alguém me observando. Dona Iraci largou a linha de crochê e suspirou. — Filha, eu sei que é difícil, mas tem muita gente de olho em você agora. Gente que te ama e que quer o seu bem. Matheus, por exemplo… Ao ouvir o nome de Matheus, Lara sentiu um aperto no peito. Apesar de tudo, ele realmente parecia se importar com ela. Mas ela também sabia que havia um mundo de sombras ao redor dele. — Ele tem sido bom, mãe. Só espero que isso não traga mais problemas. Na base, a reunião com os homens do movimento estava acalorada. Matheus estava no centro, rodeado pelos principais nomes de sua equipe. Elias estava à sua direita, observando tudo com um sorriso quase imperceptível. — A situação é simples — Matheus começou, a voz firme e autoritária. — Tentaram nos testar. Agora temos uma escolha: ou reagimos com força, ou vamos virar alvo fácil pra qualquer um que queira invadir nosso território. Um dos rapazes, Gordinho, levantou a mão. — Chefe, a gente sabe quem tá por trás disso? — Facção do lado sul — respondeu Matheus. — Rato confirmou antes de… desaparecer. Houve um murmúrio entre os homens. Facção do lado sul era sinônimo de guerra, e ninguém no morro queria uma guerra que pudesse trazer ainda mais sofrimento à comunidade. Elias finalmente se pronunciou: — Eles acham que podem vir aqui e tomar o que é nosso. O que precisamos fazer é deixar bem claro que ninguém pisa aqui sem a nossa permissão. — E o que você sugere? — perguntou Negrete, o tom desafiador. Elias deu de ombros, fingindo calma. — Um aviso. Nada muito discreto. De preferência algo que eles sintam nos ossos. Matheus ponderou. Ele sabia que Elias era impiedoso, e embora isso pudesse ser útil, era também uma espada de dois gumes. — Vamos deixar claro o recado, mas sem baixar o nível deles. A gente faz direito. Negrete, quero patrulhas nos limites do morro. Qualquer movimentação estranha, me avisa na hora. — Pode deixar, chefe. Enquanto isso, Lara tentava retomar alguma normalidade na sua rotina. Ela decidiu visitar Luana no final da tarde, mesmo com a chuva insistente. Ao sair de casa, sentiu uma presença, como se alguém a observasse. Virou-se, mas não havia ninguém. Ela apressou os passos, tentando ignorar a sensação. Ao chegar na casa de Luana, a conversa rapidamente desviou para Matheus e os acontecimentos recentes. — Matheus tá te protegendo mesmo, hein, amiga? — Luana comentou. — Eu já sabia que ele tinha uma quedinha por você. — Ele é só um conhecido da minha mãe… — Lara respondeu, sem muita convicção. — Sei. E o Elias? — Luana perguntou, arqueando a sobrancelha. — Ele apareceu por aqui perguntando de você. Que estranho, né? Lara sentiu um arrepio. Não tinha contado a ninguém sobre a visita de Elias. A insistência dele em aparecer na sua vida começava a soar mais assustadora do que nunca. No alto do morro, Elias observava as luzes da cidade enquanto articulava seus próprios planos. A guerra com a facção do sul era uma oportunidade para ele se aproximar ainda mais do comando de Matheus. Ele sabia que um movimento bem calculado poderia colocá-lo numa posição vantajosa. Seu telefone vibrou, trazendo uma mensagem de um número desconhecido: “Estamos esperando o próximo passo. Já temos os recursos. Não falhe.” Elias sorriu, guardando o celular no bolso. — Esse morro logo vai ser meu. Ele sabia que para isso acontecer, precisaria de duas coisas: tirar Lara do caminho e garantir que Matheus caísse de alguma forma. A guerra que se aproximava era sua chance perfeita. Enquanto os primeiros trovões ecoavam ao longe, Elias acendeu um cigarro, as engrenagens do seu plano girando com precisão. A tempestade que chegaria em breve ao morro não seria apenas no céu – seria entre os próprios homens que juraram proteger aquele lugar.
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