Ecos o medo

1460 Words
O céu carregado e o som distante das sirenes pareciam o reflexo perfeito do caos interno de Lara. Desde que voltara para casa, as noites eram uma batalha silenciosa. O quarto, antes um lugar de refúgio, tornara-se uma prisão. Ela pulava a cada som na rua, e seus pensamentos frequentemente se perdiam em becos escuros de medo. Dona Iraci observava a filha com o coração apertado. Sabia que Lara estava diferente, mas não sabia como ajudá-la. Depois de muito pensar, decidiu procurar Matheus. Ele era alguém que, apesar do ambiente em que vivia, tinha princípios e sempre havia demonstrado respeito por Lara. Quando Matheus chegou à casa delas, era início da tarde. Ele veio sozinho, os passos firmes e a expressão dura suavizaram ao ver Dona Iraci na porta. — Tia Iraci, o que aconteceu? — ele perguntou, percebendo a preocupação em seu rosto. Ela respirou fundo antes de responder: — É Lara... Desde que voltou, ela não tem sido mais a mesma. m*l dorme, tem medo até de andar pela casa. Matheus, eu não sei mais o que fazer. Os olhos de Matheus endureceram, mas sua voz saiu firme e calma. — Tia, vou proteger a Lara, isso eu te prometo. Mas talvez fosse bom ela ficar um tempo longe daqui, em outro lugar, pra se recuperar melhor. Iraci balançou a cabeça negativamente. — Eu até tentei sugerir isso, mas ela tem medo de deixar o morro, medo de que algo aconteça com a gente enquanto ela estiver longe. Nesse momento, Lara apareceu na sala, os braços cruzados em postura defensiva. — Eu não vou sair daqui, Matheus — afirmou. Sua voz era baixa, mas determinada. Matheus a encarou por um instante. Ele entendia o medo dela, mas sabia que permanecer ali só a mantinha presa no trauma. — Então você vai precisar confiar em mim, Lara. Eu vou cuidar de tudo. Enquanto isso, Elias caminhava pelos becos do morro, cercado por dois dos meninos que faziam parte do movimento, Naldo e Pepê. Ele parou em um canto afastado, acendendo um cigarro com calma antes de começar a falar. — Sabe o que eu acho, moleques? Matheus tá se achando muito. Olha só, ele tá preocupado com menina, com coisas que não têm nada a ver com o movimento. O morro precisa de pulso firme. Naldo franziu a testa. — Mas Matheus tá fazendo o movimento crescer, Elias... Todo mundo tá mais tranquilo agora. Elias soltou uma risada seca. — Moleque, tu acha que tá tranquilo porque Matheus é bonzinho? Não. Isso é medo. Só que o medo não dura pra sempre. E se ele ficar distraído com coisas pequenas, quem vocês acham que vai dar conta do recado? Pepê e Naldo trocaram olhares, inseguros, mas Elias já tinha plantado a semente da dúvida. Naquela tarde, Matheus foi chamado às pressas ao esconderijo principal do movimento. A entrega de uma remessa importante havia sido comprometida, e a notícia chegou através de um dos intermediários. Quando Matheus chegou, os homens estavam tensos, e as vozes baixas deixavam claro o nervosismo do grupo. — Alguém passou as informações erradas. Alguém tá falando demais — disse Negrete, o mais velho entre os homens de confiança de Matheus. Matheus estreitou os olhos. — Alguém aqui quer dizer quem tá puxando informação de dentro? Ou eu vou ter que descobrir sozinho? — Sua voz era cortante, ecoando no espaço apertado. Enquanto discutiam o assunto, outro dos muleques apareceu correndo. — Matheus, tem coisa estranha no esconderijo dos pneus, lá no final do beco! Quando chegaram ao local indicado, Matheus encontrou algo que o deixou desconfiado. Pedaços de uma corrente metálica, muito parecida com a que Elias costumava usar, estavam escondidos entre os pneus. Aquilo podia ser coincidência, mas também podia significar algo mais. Matheus encarou o objeto por alguns instantes, suas mãos fechadas em punhos, a cabeça fervendo com possibilidades. O dia terminou com um clima pesado pairando sobre o morro. Elias, ainda de longe, acompanhava o movimento com um sorriso calculado, como se soubesse que o tempo estava a seu favor. Já em casa, Lara começava a reorganizar a mente. Mas ao sair rapidamente até o portão para recolher um pano de roupa, encontrou algo que a fez gelar: uma pequena pedra com um papel amarrado. O bilhete continha poucas palavras, mas foi o suficiente para lhe trazer um frio no estômago: "Você nunca estará segura." Matheus estava na sala com Negrete e outros homens de confiança. O bilhete que Lara encontrara em frente à sua casa estava na mesa, aberto, enquanto os olhos do líder queimavam de raiva. Ele passava as mãos pelos cabelos, os movimentos tensos. — Quem está por trás disso tá me testando — Matheus disse, sua voz carregada de fúria controlada. — Isso não é só um recado pra Lara, é um aviso pra mim. Negrete acendeu um cigarro, pensativo. — Tem certeza que foi de alguém daqui do morro? Pode ser coisa de fora, sabe como o tráfico nas áreas vizinhas tá querendo invadir... Matheus o cortou. — Não importa se veio de dentro ou de fora. Quem se meter com ela, se mete comigo. E eu vou descobrir quem é. Ele encarou os outros na sala. — Quero homens no perímetro da casa de Lara e da Dona Iraci. Qualquer movimento estranho me avisem imediatamente. Os homens assentiram e saíram em silêncio, deixando Matheus e Negrete a sós. — E Elias? — perguntou Negrete, direto. Matheus hesitou. Ele queria acreditar que o primo não teria coragem de algo tão baixo, mas o tempo todo Elias era o único que o desafiava diretamente, plantando dúvida entre os outros. — Tô de olho nele. Mas quero provas antes de qualquer coisa — Matheus respondeu, um tom perigoso na voz. Enquanto isso, Lara passava o dia em casa, tentando escapar do peso da própria mente. Desde que encontrara o bilhete, sentia a necessidade de manter as portas trancadas e as janelas fechadas. Mas a sensação de estar sendo observada não a abandonava. Dona Iraci fazia de tudo para distraí-la, mas nada parecia funcionar. Após o jantar, sentaram-se na sala para assistir televisão. Dona Iraci, preocupada, tentou puxar conversa. — Minha filha, você não quer ir para a casa da sua tia, pelo menos por uns dias? Lá você poderia descansar, ficar mais tranquila. Lara balançou a cabeça. — Não, mãe. Não vou deixar você aqui sozinha. E... eu tenho que aprender a lidar com isso. Eu não posso fugir. Apesar das palavras firmes, a fragilidade em seu tom denunciava o medo constante que carregava. Naquela noite, enquanto o morro parecia mergulhar no silêncio, Elias se encontrou com dois homens na entrada de um terreno baldio. Ele observava as luzes das casas no alto, um sorriso sarcástico nos lábios. — E aí, Elias? — perguntou um deles, entregando-lhe um cigarro. — E aí? Estamos prontos pra agitar as coisas — Elias respondeu. — Esse morro tá muito tranquilo nas mãos do Matheus. Ele acha que pode fazer o que quer, mas vou mostrar que o controle dele é só fachada. Um dos homens riu, mas Elias o cortou com um olhar sério. — Quero que espalhem mais boatos, deixem o pessoal desconfiado. E cuidado com os olhos do Matheus, o moleque tem faro pra traição. Elias deu mais instruções antes de ir embora, com a cabeça já formulando seus próximos movimentos. Já era madrugada quando Matheus recebeu uma ligação. Ele atendeu imediatamente ao ver o nome de Negrete. — O que foi? — Acabaram de invadir o galpão onde tava guardado o dinheiro da última entrega, chefe. Alguém avisou e limparam tudo. O impacto da notícia atingiu Matheus como um soco. Ele respirou fundo, tentando manter o controle. — E tem pista de quem foi? — Ninguém viu nada, mas pode ter sido gente aqui de dentro. Fizeram a limpa sem deixar rastro, só pode ser trabalho de alguém que conhece o lugar. Matheus saiu imediatamente, convocando os homens para uma reunião emergencial no esconderijo. Chegando lá, o clima era de tensão. Negrete esperava ao lado de outros homens do movimento. Matheus andava de um lado para o outro, analisando os rostos, como se esperasse alguma reação que entregasse o culpado. — Alguém aqui acha que pode brincar com o meu nome e sair ileso? Quem foi que teve coragem de mexer com o que é meu? Ninguém respondeu, mas a inquietação no ar era palpável. Matheus suspirou, visivelmente controlando a raiva. — Se tem alguém aqui que não tá jogando limpo, é melhor falar agora, porque eu vou descobrir. E quem for, vai se arrepender de ter nascido. Enquanto o silêncio reinava, Elias assistia à cena de longe, encostado na parede, os braços cruzados, como se nada o preocupasse.
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