Lara e Luana estavam sentadas na pequena varanda da casa de Luana, enquanto o sol começava a se pôr. Lara segurava uma xícara de chá entre as mãos, como se o calor pudesse acalmar os pensamentos tumultuados que dominavam sua mente.
— Você tá quieta, Lara. Fala logo o que tá te incomodando — disse Luana, inclinando-se para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos.
Lara suspirou, como se precisasse de um esforço extra para encontrar as palavras.
— É sobre o Matheus — confessou, olhando para o líquido na xícara como se pudesse encontrar respostas ali.
Luana ergueu as sobrancelhas, mas não interrompeu.
— Eu acho... acho que tô gostando dele — continuou Lara, num tom quase inaudível.
A declaração pairou no ar, enquanto Luana processava o que tinha acabado de ouvir.
— Você tem certeza? Quer dizer, depois de tudo o que aconteceu, não é muita coisa pra lidar ao mesmo tempo? — perguntou Luana, escolhendo bem as palavras.
— Eu sei que parece loucura. E, pra ser honesta, eu tenho medo. Muito medo. Da vida dele, do que isso significa... E depois do que aconteceu comigo, eu nem sei se sou capaz de me envolver com alguém de verdade — confessou Lara, a voz carregada de insegurança.
— Mas por que o Matheus? — insistiu Luana, não em tom de julgamento, mas de curiosidade.
Lara deu um pequeno sorriso, um sorriso triste, mas genuíno.
— Ele... ele é diferente. Mesmo com toda a dureza, ele tem cuidado de mim de uma forma que ninguém nunca fez. É como se ele estivesse tentando carregar parte do meu peso, mesmo sem eu pedir.
Luana inclinou a cabeça, pensativa.
— Você tem razão, ele é diferente. Sempre foi. Mas, Lara, a vida dele não é fácil, muito menos segura. Você sabe disso melhor do que ninguém.
— Sei. É isso que me assusta. Como eu poderia me envolver com alguém que vive cercado por esse mundo? Eu nunca nem quis isso pra minha vida.
— E, mesmo assim, tá pensando nele a ponto de vir aqui falar disso — observou Luana, com um leve sorriso de canto.
Lara respirou fundo, como se estivesse tentando organizar os próprios pensamentos.
— Acho que o que mais me assusta é que ele faz eu me sentir segura. Eu, que nem consigo dormir direito à noite por causa do medo. Mas e se isso não for suficiente? E se eu não conseguir superar tudo?
Luana colocou uma mão sobre a de Lara, num gesto reconfortante.
— Lara, você passou por muita coisa. Não precisa decidir nada agora. Mas não deixa o medo definir tudo. Vai com calma, no seu tempo. Se o Matheus realmente gostar de você, ele vai entender.
Lara assentiu lentamente, grata pelo apoio da amiga.
— Obrigada, Lu. Eu só precisava falar sobre isso.
— Sempre que precisar, tô aqui. Agora, vamos tomar um chá decente, porque esse seu tá parecendo água suja — disse Luana, arrancando uma risada inesperada de Lara.
Por alguns instantes, o peso que ela carregava pareceu diminuir, mesmo que só um pouco.
Naquela noite, enquanto Lara estava deitada na cama, as palavras de Luana ecoavam em sua mente. “Se o Matheus realmente gostar de você, ele vai entender.” Era um pensamento reconfortante, mas a insegurança ainda a dominava. Cada vez que seus olhos começavam a fechar, flashbacks do ataque surgiam, trazendo o medo de volta.
Lara se levantou, incapaz de descansar. Caminhou até a janela e olhou para o horizonte. As luzes do morro brilhavam como estrelas em uma constelação caótica. Em algum lugar lá, Matheus estava. “Será que ele tem ideia do efeito que causa em mim?”
Enquanto isso, Matheus estava na laje de sua casa, com um cigarro entre os dedos, perdido em seus próprios pensamentos. A guerra com Elias parecia controlada, mas ele sabia que a paz era frágil. A morte de TK havia deixado uma mensagem clara, mas não significava o fim das ameaças.
E, por mais que a violência fosse parte de sua realidade, outra coisa ocupava sua mente: Lara. Ele se preocupava com ela mais do que queria admitir. Cada vez que a visitava, sentia que estava vendo mais do que só a fragilidade de uma vítima. Ele estava vendo uma mulher com uma força discreta, alguém que merecia muito mais do que ele poderia oferecer.
Pela primeira vez em muito tempo, Matheus se sentiu vulnerável. Pegou o celular e abriu o número de Lara, mas hesitou em enviar qualquer mensagem. Não queria invadir o espaço dela, mas a vontade de saber se ela estava bem era quase incontrolável.
Do outro lado, Lara ainda encarava a janela quando seu telefone vibrou na cômoda. O coração disparou ao ver o nome dele na tela.
— Oi, Matheus — atendeu com a voz baixa, tentando não parecer nervosa.
— Tava acordada? — Ele parecia hesitante, o que não era comum.
— Sim, não consigo dormir.
— Também não — ele admitiu, soltando o ar como se estivesse aliviado por confessar isso. — Pensei em saber como você tá.
Lara hesitou, mas decidiu ser honesta.
— Ainda é difícil... As noites são as piores.
Houve um silêncio breve, mas pesado.
— Se precisar, eu posso... sei lá, ficar por perto — Matheus ofereceu, como se não soubesse exatamente o que dizer, mas quisesse fazer algo.
— Não precisa. Você já faz tanto. Só de me ligar já ajuda.
O silêncio voltou, mas desta vez havia algo a mais. Uma tensão, um reconhecimento mútuo que nenhum dos dois verbalizava.
— Vou deixar você descansar, Lara.
— Boa noite, Matheus.
Ao desligar, ambos ficaram com sentimentos confusos. Lara sentiu o coração batendo mais rápido, enquanto Matheus encarava a noite como se ela tivesse acabado de lhe trazer mais uma batalha — dessa vez, contra os próprios sentimentos.
Na manhã seguinte, Lara decidiu se ocupar. Ir até a pequena praça no centro do morro era uma rotina que costumava deixá-la mais tranquila. Apesar do receio de sair de casa, o ar fresco parecia necessário.
Assim que chegou lá, avistou Matheus do outro lado, conversando com alguns meninos do movimento. Ele usava um moletom preto, e a postura tranquila, quase confiante, fazia com que ele parecesse uma força impenetrável. Quando ele a viu, a expressão mudou, suavizando.
— Lara? — Ele se aproximou com um sorriso discreto. — Tá se sentindo bem pra dar uma volta?
— Melhor do que ficar presa em casa — respondeu, embora sua voz ainda carregasse uma leve tensão.
— Vem, me acompanha — ele disse, gesticulando para que caminhassem juntos.
Lara o seguiu, surpreendendo-se com a forma como se sentia segura perto dele. Enquanto andavam pelas vielas, conversaram sobre coisas leves: o tempo, as dificuldades de morar ali, histórias da infância. Pela primeira vez em dias, Lara se permitiu relaxar.
— Não sei como você consegue lidar com tudo isso — disse ela, olhando ao redor.
— A gente aprende a carregar o que precisa, Lara. O que não pode, a gente deixa pra trás.
A resposta simples tinha um peso, e Lara não sabia se ele estava falando apenas do morro ou de algo mais.
Na despedida, quando Matheus a acompanhou até a porta de casa, ela sentiu o coração apertar.
— Obrigada por me tirar de casa hoje — disse ela, com sinceridade.
Matheus apenas assentiu, com um sorriso sutil.
— Sempre que precisar.
Enquanto ele se afastava, Lara percebeu que talvez estivesse começando a enxergar além das sombras da sua dor — e, de alguma forma, Matheus parecia ser o farol que iluminava esse caminho.