Algo no ar

1246 Words
Lara acordou com a cabeça cheia. Havia semanas que tentava afastar os pensamentos sobre Matheus, mas eles voltavam sempre que ela menos esperava. Ela não sabia explicar como, mas algo nele a fazia sentir uma mistura de segurança e inquietação. Desde o ataque, o medo constante de estar perto de homens a consumia, mas com Matheus era diferente. Ele se aproximava com cuidado, com uma presença que parecia sólida e protetora, mas que, ao mesmo tempo, mexia com ela de formas que a assustavam. Ela tentou desviar a mente enquanto preparava um café para sua mãe na cozinha, mas as lembranças de Matheus não saíam. A forma como ele a olhava quando garantiu que nada mais aconteceria com ela, o tom grave e firme de sua voz quando mandava alguém recuar, e até mesmo os momentos em que parecia mais tranquilo, quase vulnerável, a atingiam como uma onda que ela não sabia como conter. — Você tá distraída, filha. — Dona Iraci comentou, tirando a xícara das mãos dela. — Ainda pensando naquilo? — Um pouco... — Lara mentiu. Na verdade, ela estava mais confusa sobre os sentimentos por Matheus do que com o que havia acontecido com ela. — Lembre-se que você não precisa carregar isso sozinha. — A mãe tocou de leve sua mão, cheia de preocupação. Lara apenas assentiu, mas estava longe dali em pensamento. Algo precisava mudar, precisava lidar com aquele misto de sensações. Naquela tarde, sentada na pequena varanda da casa, ela ouviu o som de passos pesados subindo a rua. Sem precisar olhar, sabia quem era. O coração acelerou. Matheus estava lá, vindo para a visita quase diária que tinha feito parte de sua rotina. Era sempre uma desculpa: checar como Lara estava, conversar com Dona Iraci, mas ambos sabiam que ele estava ali por ela. — Boa tarde. — A voz grave dele a despertou de seus pensamentos. Ele parou na frente dela, como sempre, os braços cruzados e o semblante atento, mas suave. — Como você tá hoje? Lara demorou um pouco para responder, sentindo o peso do olhar dele. — Tô bem... tentando ficar bem. — Ele assentiu, parecendo satisfeito com a resposta. Mas antes que pudesse dizer mais, Lara o interrompeu: — Por que você faz isso, Matheus? — — Isso o quê? — Ele franziu o cenho, confuso. — Sempre vem aqui, sempre pergunta como eu tô. Não tem outras coisas pra cuidar? Outros lugares pra estar? Matheus hesitou, algo raro de se ver nele. Ele não era de abrir muito, mas com Lara era diferente. — Cuido do que é meu, Lara. Sempre fiz isso. Você tá nesse morro, tá sob minha proteção. Enquanto eu viver, ninguém vai te machucar de novo. — Lara engoliu em seco, sentindo algo muito maior do que simples palavras naquelas declarações. Era uma promessa silenciosa que ele estava cumprindo a cada visita, a cada gesto. Ela desviou o olhar, encarando o chão, enquanto as palavras dela saíam quase em um sussurro: — E se eu tiver medo... de confiar? Matheus abaixou-se levemente, ficando mais próximo. — É normal ter medo. O que aconteceu com você... nunca deveria ter acontecido. Mas vou repetir, quantas vezes forem necessárias: comigo, você não tem o que temer. Ela sentiu as lágrimas se acumularem, mas forçou um sorriso breve e hesitante antes de se levantar. — Obrigada, Matheus. Ele sorriu de canto, com aquele jeito característico dele, e foi embora, deixando Lara com mais perguntas do que respostas. Enquanto ele desaparecia na esquina, ela encostou na parede, sentindo o peso do que estava surgindo dentro dela. Ela não sabia se era atração, gratidão ou algum sentimento mais profundo que começava a emergir, mas estava cada vez mais difícil não pensar em Matheus, mesmo que isso a assustasse como nada mais havia assustado antes. Naquela noite, Lara tentava se concentrar em um livro, mas as palavras na página dançavam à sua frente, incapazes de competir com o turbilhão em sua mente. Matheus. Ele estava em cada pensamento, a sombra de sua presença tão intensa quanto o silêncio que preenchia a casa. Ela sabia que o que sentia era complicado. Não era apenas gratidão, embora ele tivesse feito mais por ela do que qualquer outro. Também não era só conforto, embora ela se sentisse inexplicavelmente segura sempre que ele estava por perto. Era algo maior, algo que ela não sabia se estava pronta para enfrentar. Ela sabia das histórias, dos sussurros nas ruas. Ele era perigoso, um líder que controlava o morro com pulso firme e uma reputação que faria qualquer um pensar duas vezes antes de desafiá-lo. Mas, com ela, ele parecia diferente. Decidida a tirar aqueles pensamentos da cabeça, Lara fechou o livro e saiu para o pequeno quintal de casa. O ar da noite estava fresco, e ela respirou fundo, tentando acalmar os nervos. Sentada em um banquinho de madeira, ela abraçou os joelhos, observando as luzes piscando no morro ao longe. Pouco depois, ouviu passos no portão. Um calafrio percorreu sua espinha, mas antes que pudesse entrar em pânico, reconheceu a silhueta. Era ele. Matheus. — Não consegui dormir. — Ele falou antes mesmo que ela perguntasse o que fazia ali tão tarde. O tom era sério, mas o olhar, aquele olhar profundo, parecia menos duro. Lara sentiu o coração acelerar, mas tentou disfarçar. — Nem eu. — Ela respondeu, a voz um pouco mais baixa do que gostaria. — Posso entrar? — Ele perguntou, respeitando seus limites. Era algo que ele sempre fazia, mesmo sem precisar. Lara hesitou por um instante, mas acabou assentindo. — Claro. Minha mãe já tá dormindo. Matheus entrou, caminhando pelo quintal até onde ela estava. Ele se sentou ao lado dela no banquinho, os dois em silêncio por alguns momentos, ouvindo apenas os sons distantes da noite. — Você tá se protegendo bem? — Ele perguntou, olhando para a escuridão. Ela sabia que ele não falava apenas de portas e janelas trancadas, mas do medo que ainda carregava desde o ataque. — Tô tentando. — Ela respondeu honestamente. Matheus virou o rosto para ela, analisando-a de forma que a fez desviar o olhar. — Isso não é suficiente, Lara. Eu preciso saber que você tá segura, aqui... — Ele apontou para a cabeça dela. — E aqui. — E tocou de leve o peito dela, perto do coração. O gesto foi breve, quase imperceptível, mas Lara sentiu como se o toque queimasse. Ela olhou para ele, tentando entender o que aquele momento significava. Havia algo nos olhos de Matheus que ela nunca tinha visto antes. Vulnerabilidade, talvez? — Eu sei que é difícil confiar. — Ele continuou. — Mas você é forte, Lara. Forte pra seguir em frente, mesmo com tudo o que aconteceu. Ela engoliu em seco, sentindo as lágrimas ameaçarem cair. Mas, para sua surpresa, não eram apenas de tristeza ou dor. Havia algo mais ali, algo novo. — Obrigada, Matheus. Por tudo. — Ela disse, com mais firmeza dessa vez. Ele deu um meio sorriso, aquele sorriso de canto que era tão característico dele, e se levantou. — Você merece ser cuidada, Lara. Sempre que precisar de mim, sabe onde me encontrar. Quando ele se afastou, caminhando de volta para o portão, Lara percebeu que o peso em seu peito parecia um pouco menor. Havia medo, ainda havia dúvidas, mas havia também algo mais crescendo dentro dela: esperança. E, talvez, algo mais forte e perigoso do que ela estava pronta para admitir.
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