Lara estava inquieta. Nos últimos dias, sua mente parecia determinada a pensar em Matheus mais do que deveria. Cada gesto dele, cada palavra de conforto ou olhar discreto, ficavam gravados na sua mente. Ela não entendia como conseguia se sentir segura perto dele, quando, desde o ataque, o simples pensamento de se aproximar de qualquer homem a fazia estremecer. Matheus, no entanto, era diferente. Ele não forçava sua presença, mas estava ali, constantemente, como um pilar de força silenciosa.
Naquela manhã, enquanto organizava a cozinha com sua mãe, Iraci percebeu o ar disperso de Lara.
— Você anda pensativa demais, menina. Tá tudo bem? — perguntou, enquanto cortava pão para o café.
Lara hesitou. Não queria preocupar a mãe, mas sua expressão entregava algo.
— Tô bem, mãe. É só... cansaço.
Iraci não parecia convencida, mas não insistiu. O olhar de Lara desviou para a janela da sala. Lá fora, o morro começava a ganhar vida. Crianças brincando, mulheres conversando e homens circulando com passos firmes. Era quase impossível não associar a figura de Matheus àquela movimentação ordenada. Ele parecia estar em todos os lugares ao mesmo tempo, cuidando para que nada saísse do controle.
Enquanto isso, no coração do morro, Matheus estava com alguns aliados próximos discutindo reforços para a segurança. Desde a vitória sobre o grupo rival, ele sentia uma vibração diferente no ar, algo que o deixava inquieto.
— Não confio nesse silêncio — disse, enquanto olhava um mapa da comunidade espalhado sobre a mesa. — Alguém vai querer desafiar a gente de novo, e não vou ser pego de surpresa.
Um dos rapazes, Lequinho, assentiu.
— Já ouvi uns boatos, chefe. Nada concreto, mas é bom ficar de olho.
Matheus fixou os olhos em Lequinho, seus pensamentos vagando para outra pessoa: Lara. Ele sabia que deveria estar focado em manter o controle do morro, mas a preocupação com ela começava a consumir mais do que alguns momentos do seu dia. Ele se perguntava como ela estava lidando com tudo, se a vida finalmente estava se ajeitando para ela.
Enquanto isso, Elias estava em uma viela estreita do outro lado da comunidade, em uma conversa desconfiada com Negrete, um dos antigos aliados dos traficantes rivais.
— Tá tudo bonito agora, né? — começou Elias, inclinando-se casualmente contra a parede. — Matheus venceu e tá reinando. Todo mundo achando que vai ficar assim pra sempre.
Negrete o olhou com desconfiança.
— E não vai? O moleque provou que é brabo, tá ligado.
— Brabo? — Elias soltou uma risada seca. — Ser brabo não é tudo, Negrete. Tem que ser esperto também. E Matheus tá fazendo muito barulho. Gente de fora não gosta disso. Os chefes maiores podem querer botar ordem, e quando isso acontecer... bom, é cada um por si, né?
Negrete estreitou os olhos. Sabia que Elias estava tentando plantar algo. Ele era perigoso, ambicioso demais para ser ignorado.
Enquanto a tensão crescia nas sombras, Lara pegou um papel e escreveu um bilhete, após muitas dúvidas. Não sabia o que a impulsionava, mas precisava tirar aquele peso do peito:
"Matheus, obrigada por tudo o que tem feito. Eu não tenho palavras para expressar minha gratidão. Você é diferente, e talvez isso seja o que me assusta. Obrigada por se importar."
Ela dobrou o papel cuidadosamente e decidiu entregá-lo na boca, sabendo que ele provavelmente estaria por lá. A ideia de enfrentar seu próprio medo a deixava nervosa, mas algo dentro dela, talvez aquela mesma força que estava crescendo junto com seus sentimentos, a fez seguir em frente.
Quando Matheus recebeu o bilhete, leu em silêncio, seu rosto impassível. Mas, por dentro, algo mudou. Ele guardou o papel no bolso e olhou para o horizonte, como se de repente todas as suas preocupações tivessem encontrado um novo centro de gravidade.
Matheus passou o resto do dia com o bilhete de Lara no bolso, sentindo o peso das palavras dela reverberarem em sua mente. Entre as decisões do morro e as desconfianças sobre Elias, ele se pegava voltando à caligrafia delicada de Lara. Era raro alguém agradecer a ele, ainda mais de forma tão pessoal. E vindo dela, depois de tudo o que aconteceu, aquilo tinha outro significado.
No fim da tarde, Matheus decidiu visitá-la. Ele precisava vê-la, ouvir sua voz. Pegou uma sacola com frutas e bolachas — sabia que Iraci sempre estava por perto, e ele queria ser bem recebido. Chegando lá, parou em frente à casa por um momento, ajustando o boné enquanto pensava no que dizer.
Quando bateu na porta, foi Lara quem atendeu. Ela pareceu surpresa, talvez por não esperar vê-lo tão cedo.
— Matheus? Tudo bem? — Ela abriu mais a porta, recuando para deixá-lo entrar.
— Achei que você fosse querer descansar um pouco, mas queria passar aqui — disse, entrando no pequeno cômodo. — Trouxe isso. — Ele ergueu a sacola.
— Obrigada... Não precisava — respondeu Lara, pegando a sacola e deixando-a sobre a mesa da cozinha.
Iraci logo apareceu na porta do quarto, enxugando as mãos no avental.
— Matheus! Não esperava você hoje. Tá tudo bem?
Ele assentiu.
— Tudo certo, dona Iraci. Só queria saber como a Lara tá.
Iraci olhou de Lara para Matheus, e um pequeno sorriso escapou.
— Tá se recuperando, mas tem tido umas noites difíceis. Vou deixar vocês conversarem. Tenho que terminar de estender umas roupas. — Antes de sair, lançou um olhar esperto para a filha, como se quisesse dizer algo, mas não disse.
Sozinhos, o silêncio entre Lara e Matheus era quase palpável. Ela puxou uma cadeira e se sentou, nervosa, enquanto ele ficou de pé, encostado na parede com os braços cruzados.
— Recebi seu bilhete hoje — disse ele, quebrando o silêncio.
Ela o olhou, surpresa.
— Ah... Eu... não sabia se deveria ter escrito.
Matheus deu um pequeno sorriso.
— Eu gostei. É bom ouvir que você tá se sentindo melhor... ou pelo menos tentando.
Lara abaixou os olhos, mexendo na barra da blusa.
— Eu ainda tenho medo, sabe? De sair, de olhar as pessoas... Mas quando você tá por perto, é diferente.
As palavras dela pegaram Matheus desprevenido. Ele desfez a postura confiante, sentando-se na cadeira ao lado.
— Eu tô aqui pra garantir que ninguém mais vai te machucar. Não preciso prometer, porque já tá feito.
Ela assentiu, os olhos brilhando com uma mistura de alívio e algo mais.
— Obrigada por não desistir de mim, mesmo quando eu tô quebrada assim.
— Lara... — Ele hesitou, buscando as palavras certas. — Você não tá quebrada. Você foi forte o suficiente pra sobreviver. E vai ser forte pra superar.
Os dois ficaram ali, trocando olhares por um momento que parecia mais longo do que realmente era. Matheus percebeu, pela primeira vez, a fragilidade nos olhos dela, mas também algo mais profundo: uma força nascente.
Do lado de fora, Iraci observava pela janela da cozinha, com um sorriso discreto no rosto. Podia ver algo acontecendo ali, algo que talvez os dois ainda nem entendessem direito.
Quando Matheus finalmente se levantou para ir embora, olhou para Lara uma última vez.
— Se precisar de alguma coisa, qualquer coisa, manda chamar.
— Eu vou. Obrigada... de novo. — A voz dela era suave, mas carregava algo que ele guardaria consigo pelo resto do dia.
Enquanto caminhava de volta ao morro, com as ruas já escuras, Matheus percebia como Lara ocupava mais e mais espaço em seus pensamentos. Talvez ele não estivesse apenas protegendo o território ou sua posição de líder; talvez estivesse, sem perceber, lutando por algo que nunca esperou encontrar ali: um sentimento maior do que ele.