Movimentação

550 Words
A manhã estava nublada, mas a temperatura era agradável. Iraci olhava Lara com preocupação, vendo-a sentada no sofá com a televisão ligada, mas sem prestar atenção. Era como se ela tivesse construído um casulo ao seu redor desde que voltou do hospital, recusando-se a sair ou se abrir completamente. — Filha, você precisa respirar um pouco, sair daqui nem que seja por um tempinho — disse Iraci, sentando-se ao lado dela. — Que tal ir até a pracinha? Esticar as pernas, tomar um pouco de ar? Faz bem pra cabeça. Lara hesitou, apertando as mãos no colo. A ideia de enfrentar o mundo lá fora a deixava inquieta, mas ela sabia que não podia viver presa para sempre. — Não sei, mãe... — murmurou. — Vai, menina. Eu ficarei tranquila sabendo que está tentando seguir em frente. E você sabe que não está sozinha — completou Iraci, referindo-se à comunidade que a apoiava. Lara suspirou profundamente antes de finalmente concordar com a cabeça. Matheus estava em seu quartinho modesto, lidando com os relatórios de movimentação do dia, quando um de seus rapazes chegou com uma informação: rumores de que Elias tinha saído para uma reunião com alguém de fora da área. — Não gosto disso, Diego. Fica de olho no que ele anda fazendo — ordenou Matheus. — Se ele der um passo em falso, quero saber antes que ele consiga pensar em algo. Enquanto Matheus tentava manter o controle do morro, outro chamado chegou: Lara sairia de casa pela primeira vez. Isso despertou nele uma inquietação que não conseguiu esconder. — Avise ao Neguinho pra acompanhar ela de longe. Não quero que ela ande sozinha por aí — disse, enquanto alisava a barba, pensativo. A pracinha era simples, com bancos de madeira desgastados e crianças correndo para lá e para cá. Lara chegou sentindo-se deslocada, carregando o peso do medo, mas tentou disfarçar. Caminhou até um banco vazio e se sentou. Sentia cada olhar em sua direção, mesmo que fossem inexistentes. Neguinho mantinha uma distância segura, fingindo estar no celular enquanto a observava. Ele era experiente e sabia cumprir ordens sem chamar atenção. Lara respirava fundo, apreciando a tranquilidade, até que ouviu um estalo atrás de si. Virou-se e viu Matheus parado ali, de braços cruzados. — Achei que você pudesse gostar de companhia — disse ele com um sorriso suave. Ela arregalou os olhos, surpresa. — Matheus? O que você tá fazendo aqui? — Fazendo o que eu faço de melhor: cuidando da comunidade — respondeu ele, com a voz firme, mas os olhos gentis. — Incluindo você. Lara quis protestar, dizer que ele não precisava, mas as palavras ficaram presas em sua garganta. Pela primeira vez, ela percebeu que sua presença a tranquilizava mais do que incomodava. O momento foi interrompido quando Neguinho se aproximou, apressado. — Matheus, tem uma movimentação estranha nos becos próximos. Acho melhor a gente checar. — Fique aqui, Lara — ordenou Matheus. — Neguinho vai te levar de volta pra casa em segurança. Sem esperar resposta, ele seguiu na direção apontada por Neguinho, deixando Lara com o coração acelerado, mais preocupada por ele do que consigo mesma. No caminho de volta, ela tentou afastar os pensamentos que insistiam em invadir sua mente: Matheus representava muito mais para ela do que simples segurança.
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