A manhã estava nublada, mas a temperatura era agradável. Iraci olhava Lara com preocupação, vendo-a sentada no sofá com a televisão ligada, mas sem prestar atenção. Era como se ela tivesse construído um casulo ao seu redor desde que voltou do hospital, recusando-se a sair ou se abrir completamente.
— Filha, você precisa respirar um pouco, sair daqui nem que seja por um tempinho — disse Iraci, sentando-se ao lado dela. — Que tal ir até a pracinha? Esticar as pernas, tomar um pouco de ar? Faz bem pra cabeça.
Lara hesitou, apertando as mãos no colo. A ideia de enfrentar o mundo lá fora a deixava inquieta, mas ela sabia que não podia viver presa para sempre.
— Não sei, mãe... — murmurou.
— Vai, menina. Eu ficarei tranquila sabendo que está tentando seguir em frente. E você sabe que não está sozinha — completou Iraci, referindo-se à comunidade que a apoiava.
Lara suspirou profundamente antes de finalmente concordar com a cabeça.
Matheus estava em seu quartinho modesto, lidando com os relatórios de movimentação do dia, quando um de seus rapazes chegou com uma informação: rumores de que Elias tinha saído para uma reunião com alguém de fora da área.
— Não gosto disso, Diego. Fica de olho no que ele anda fazendo — ordenou Matheus. — Se ele der um passo em falso, quero saber antes que ele consiga pensar em algo.
Enquanto Matheus tentava manter o controle do morro, outro chamado chegou: Lara sairia de casa pela primeira vez. Isso despertou nele uma inquietação que não conseguiu esconder.
— Avise ao Neguinho pra acompanhar ela de longe. Não quero que ela ande sozinha por aí — disse, enquanto alisava a barba, pensativo.
A pracinha era simples, com bancos de madeira desgastados e crianças correndo para lá e para cá. Lara chegou sentindo-se deslocada, carregando o peso do medo, mas tentou disfarçar. Caminhou até um banco vazio e se sentou. Sentia cada olhar em sua direção, mesmo que fossem inexistentes.
Neguinho mantinha uma distância segura, fingindo estar no celular enquanto a observava. Ele era experiente e sabia cumprir ordens sem chamar atenção.
Lara respirava fundo, apreciando a tranquilidade, até que ouviu um estalo atrás de si. Virou-se e viu Matheus parado ali, de braços cruzados.
— Achei que você pudesse gostar de companhia — disse ele com um sorriso suave.
Ela arregalou os olhos, surpresa.
— Matheus? O que você tá fazendo aqui?
— Fazendo o que eu faço de melhor: cuidando da comunidade — respondeu ele, com a voz firme, mas os olhos gentis. — Incluindo você.
Lara quis protestar, dizer que ele não precisava, mas as palavras ficaram presas em sua garganta. Pela primeira vez, ela percebeu que sua presença a tranquilizava mais do que incomodava.
O momento foi interrompido quando Neguinho se aproximou, apressado.
— Matheus, tem uma movimentação estranha nos becos próximos. Acho melhor a gente checar.
— Fique aqui, Lara — ordenou Matheus. — Neguinho vai te levar de volta pra casa em segurança.
Sem esperar resposta, ele seguiu na direção apontada por Neguinho, deixando Lara com o coração acelerado, mais preocupada por ele do que consigo mesma.
No caminho de volta, ela tentou afastar os pensamentos que insistiam em invadir sua mente: Matheus representava muito mais para ela do que simples segurança.