Elias desceu o morro com os olhos fixos na estrada de terra à sua frente. O peito ardia de ódio. Matheus o havia humilhado na frente de todo mundo, jogado fora anos de lealdade como se fossem nada.
Mas ele não ia engolir essa.
Caminhou sem pressa, já traçando um plano na cabeça. Não podia agir sozinho. Se quisesse derrubar Matheus, precisaria de aliados. E sabia exatamente onde encontrar os inimigos certos.
Atravessou a cidade e chegou ao bairro vizinho, onde Barriga dominava. O cara era perigoso, e mais importante: odiava Matheus.
Elias parou na frente do bar de fachada onde Barriga costumava se reunir com seu pessoal. Respirou fundo e entrou.
O lugar estava escuro, cheirando a cigarro e bebida barata. Barriga estava sentado no fundo, cercado por seus homens, contando dinheiro e rindo de algo que um dos comparsas disse. Quando viu Elias, seu sorriso diminuiu.
— Eita... olha só quem veio parar na minha quebrada. — Barriga disse, jogando um maço de dinheiro sobre a mesa. — Perdeu alguma coisa no caminho?
Elias se aproximou devagar.
— Perdi, sim. Perdi a paciência.
Barriga arqueou uma sobrancelha.
— Interessante. Explica melhor.
Elias puxou uma cadeira e sentou de frente para ele.
— Matheus me tirou do morro. Botou uma arma na minha cara e mandou eu sumir.
Barriga assobiou baixo, fingindo surpresa.
— Que coisa, hein? Mas o que eu tenho a ver com isso?
Elias sorriu, mas era um sorriso frio.
— Você quer o morro dele. E eu quero a cabeça dele. Acho que a gente pode se ajudar.
Barriga ficou em silêncio por alguns segundos, analisando Elias. Então, deu uma risada baixa.
— Você tá com sangue nos olhos mesmo.
Elias encostou no encosto da cadeira.
— E aí, Barriga? Quer ter uma chance real de derrubar Matheus?
O líder do outro lado da cidade sorriu de volta, mas seus olhos brilharam com interesse.
— Vamos conversar.
Barriga estalou os dedos, dispensando os outros caras que estavam por perto. Queria ouvir Elias sem interrupções. O lugar foi esvaziado em segundos, restando apenas os dois e mais um segurança de confiança.
— Fala, então. Como a gente faz isso? — Barriga perguntou, pegando um cigarro e acendendo com calma.
Elias se inclinou sobre a mesa, os olhos cheios de rancor.
— Matheus se acha invencível agora que tomou tudo pra ele. Mas tá cometendo um erro. Ele tá muito confiante, e isso faz um homem baixar a guarda.
— E você quer acertar ele quando?
— No momento certo. A gente precisa minar a confiança dele primeiro. Fazer ele olhar pros próprios aliados e se perguntar em quem pode confiar.
Barriga soltou a fumaça devagar, analisando o ex-braço direito de Matheus.
— Você conhece o terreno melhor do que ninguém… mas quero saber uma coisa antes de continuar: como eu sei que você não tá me levando pra uma armadilha?
Elias deu um sorriso torto.
— Se eu quisesse puxar saco de Matheus, não tava aqui agora. Além disso, você tem algo que eu quero.
— E o que seria?
— Gente. Arma. Informação. Tudo o que preciso pra derrubar ele de uma vez.
Barriga riu baixo, balançando a cabeça.
— Você realmente tá com sede de vingança.
Elias apenas assentiu.
— Então me conta o plano, Elias. Quero saber como vamos fazer Matheus cair.
No Morro: Matheus Sente a Mudança
Enquanto isso, no morro, Matheus estava inquieto. Ele não gostava de tranquilidade excessiva, e algo dentro dele dizia que Elias não ia simplesmente sumir.
Naquela noite, ele estava na boca quando um de seus homens se aproximou.
— Chefe, tem uns boatos rolando aí.
Matheus se virou.
— Que tipo de boato?
— Elias foi visto na área do Barriga. Parece que tá colando com ele agora.
Os olhos de Matheus se estreitaram.
— Eu sabia que esse filho da p**a ia aprontar.
— Quer que a gente faça alguma coisa?
Matheus ficou em silêncio por um momento, depois negou com a cabeça.
— Ainda não. Vamos ver até onde ele vai.
Mas, no fundo, Matheus sabia: Elias não ia descansar enquanto não tentasse tomar o que era dele.
Matheus encarava a cidade do alto da laje. A fumaça do baseado subia devagar enquanto sua mente trabalhava sem parar. Ele sempre soube que o crime não permitia laços, mas com Elias... era diferente. Ou pelo menos, ele achava que era.
Elias tinha sido um irmão, alguém com quem dividiu o pão quando não tinha nada. Agora, estava ao lado de Barriga, conspirando contra ele. Matheus sentia um misto de raiva e decepção.
RD se aproximou, percebendo que o patrão estava mergulhado em pensamentos.
— Alguma novidade? — Matheus perguntou sem desviar o olhar do horizonte.
— Nada de muito concreto, mas tão dizendo que Elias tá se organizando. O Barriga não bota fé nele cem por cento, mas tá gostando da ideia de ver você cair.
Matheus soltou a fumaça devagar.
— Eu sabia que ele ia vir pra cima, só não sabia que seria tão rápido.
RD cruzou os braços.
— O que a gente faz?
— A gente não faz nada. Ainda. Deixa ele se achar forte.
— E se ele atacar primeiro?
Matheus deu um meio sorriso.
— Ele não vai. Elias é esperto, sempre foi. Ele não joga se não tiver certeza da vitória.
Mas Matheus conhecia Elias o suficiente para saber que ele não ia agir sozinho. Ele ia tentar minar a confiança dos aliados, criar divisões, plantar dúvidas. Se Matheus quisesse se manter no topo, precisava se antecipar.
A guerra estava prestes a começar, e dessa vez não era só pelo morro. Era algo pessoal.