O burburinho no morro crescia a cada dia. Sempre tinha alguém cochichando numa esquina, jogando conversa fora na boca de fumo ou soltando piadinhas no meio do bar.
— Certeza que Matheus mandou apagar Elias. Do nada o cara some e ninguém nunca mais viu? — um dos mais velhos comentou perto da venda.
Matheus ouvia tudo. Ouvia e guardava. Ele sabia que o crime era assim—quem vacilava, virava história m*l contada. Mas aquilo o incomodava. Ele queria respeito, não medo por algo que nem tinha feito.
Naquela tarde, RD entrou na laje, onde Matheus estava sentado, observando o movimento.
— Chefe, essa fofoca tá passando dos limites. Já tão dizendo que tu escondeu o corpo.
Matheus apertou os olhos, sentindo o sangue esquentar.
— Quem tá falando isso?
— Uns caras que trampam na biqueira de baixo. Quer que eu resolva?
Matheus bateu o isqueiro contra a mesa de concreto e ficou em silêncio por alguns segundos. Ele poderia simplesmente ignorar, mas sabia que, no crime, se ele não controlasse a narrativa, a rua fazia isso por ele.
— Não, ainda não. Mas espalha que Elias saiu porque quis. Que ele escolheu esse caminho.
RD assentiu.
— Mas se ele aparecer de novo...
— Se ele aparecer de novo, não vai ter mais fofoca. Vai ter guerra.
O boato foi espalhado. RD e os outros fizeram sua parte, repetindo nas esquinas que Elias tinha saído porque quis, que não houve traição nem acerto de contas. Mas no morro, todo mundo sabia que quando um chefe caía, sempre havia sangue envolvido.
Não adiantou muita coisa. A fofoca já tinha criado raízes, e agora cada um inventava sua versão da história.
— Dizem que Matheus mandou dar um sumiço no corpo. — Um dos soldados comentava na boca.
— Mas ouvi que Elias tá só esperando a poeira baixar pra voltar e tomar tudo de volta.
Matheus estava na laje de novo, dessa vez sozinho, ouvindo os ecos das conversas que chegavam até ele. O ódio crescia no peito. Não bastava tudo que ele fazia pelo morro? Sempre iam desconfiar dele?
Lara apareceu na porta da casa e olhou para ele.
— Você tá muito pensativo.
Matheus desviou o olhar do horizonte e a encarou. Só ela conseguia quebrar a fúria que tomava conta dele.
— Não gosto de gente falando merda sobre mim.
— O que importa é o que você sabe que é verdade.
Ele soltou um riso seco.
— No crime, Lara, a verdade é o que o povo acredita.
Ela sentou ao lado dele, e Matheus passou a mão pelo cabelo, tentando afastar a raiva. Mas, no fundo, ele sabia que Elias voltaria. E dessa vez, não haveria conversa.
Dona Iraci entrou em casa e encontrou Lara e Matheus juntos na sala. Ela parou na porta, cruzou os braços e soltou, com aquele tom afiado de mãe que não deixa passar nada:
— Tem casa não, Matheus? Tá dormindo mais aqui que outra coisa.
Matheus apenas sorriu, aquele sorriso de canto que escondia o quanto ele se divertia com a implicância dela. Já Lara ficou envergonhada, abaixando a cabeça e fingindo mexer no celular.
— Só tô cuidando da sua filha, dona Iraci. — Matheus respondeu, sem tirar o ar de deboche.
A mãe de Lara bufou, jogando a bolsa no sofá.
— Cuidando demais pro meu gosto.
Ela foi direto para a cozinha, ainda resmungando. Matheus olhou para Lara e piscou para ela, como se dissesse relaxa. Mas ela não relaxou. A vergonha ainda queimava em seu rosto.
— Você podia não provocar tanto ela...
— Eu nem fiz nada.
Lara balançou a cabeça, mas não conseguiu esconder o pequeno sorriso. Matheus era assim: leve e insolente ao mesmo tempo. Ele fazia com que, por alguns minutos, ela esquecesse o peso que carregava desde aquela noite terrível.
Dona Iraci voltou, pegando um copo d'água e encarando Matheus como se pudesse enxergar a alma dele.
— Escuta aqui, menino. Eu sei que você tem lá seu jeito de fazer as coisas, mas minha filha não precisa de mais problema na vida dela.
— Eu nunca seria um problema pra Lara. — Matheus disse sério, o tom de voz firme, sem espaço para brincadeiras agora.
A mãe dela soltou um riso cético e se virou, indo para o quarto.
— Isso a gente vai ver.
Lara suspirou, olhando para Matheus.
— Agora ela tá implicando de verdade.
Matheus se levantou, puxando Lara pela mão.
— Então eu vou aproveitar enquanto ela tá no quarto.
— Matheus...
Ele a calou com um beijo, deixando claro que, independentemente do que falassem, ele não ia a lugar nenhum.