Desconfiança

1478 Words
Elias, ansioso e tentando parecer o mais natural possível, entrou na casa de Matheus sem sequer esperar ser anunciado. A expressão em seu rosto era uma mistura cuidadosamente ensaiada de preocupação e determinação. Encontrou Matheus sentado no sofá, o olhar fixo em algo distante, a mente claramente mergulhada no turbilhão de tudo que estava acontecendo. – Matheus, preciso falar contigo. É sério. – A voz de Elias era firme, mas havia algo quase frenético em seu tom, que Matheus não deixou de perceber. Matheus ergueu o olhar, estreitando os olhos. – Pode falar, Elias. Elias caminhou de um lado para o outro antes de finalmente se posicionar diante de Matheus, colocando as mãos nos bolsos como se quisesse esconder sua inquietação. – Eu... acho que sei quem foi. Quem atacou a Lara. – Ele jogou as palavras rapidamente, quase tropeçando nelas. Matheus se inclinou ligeiramente para frente, os olhos agora fixos no amigo. – Quem? – perguntou, a voz tensa, porém controlada. – TK. – Elias declarou com firmeza, cruzando os braços enquanto observava a reação de Matheus. Matheus piscou, surpreso. – TK? Você tem certeza do que tá dizendo, Elias? Porque isso não é uma acusação qualquer. Elias se aproximou um pouco, tentando demonstrar confiança. – Tenho certeza. Ele é que não vale nada, Matheus. E olha... – Ele fez uma pausa dramática, como se estivesse prestes a revelar algo ainda mais grave. – Tem uns dias, ele levou meu cordão. Sabe aquele de ouro que eu sempre usei? Só fui notar depois, mas agora faz todo sentido. Ele deve ter perdido ou esquecido na correria. Matheus estreitou os olhos, claramente cético. – Elias, cê tá me dizendo que TK atacou a Lara e ainda teve a audácia de usar seu cordão? Isso é sério? Elias balançou a cabeça, quase desesperado para que Matheus acreditasse. – É sério, irmão! Não faz sentido nenhum outra pessoa. Ele é que tem feito merda por aí, sempre se achando demais. Cê mesmo já ouviu gente reclamando dele. Matheus respirou fundo, deixando o silêncio preencher o espaço entre eles por um momento. Ele sabia que Elias era astuto, mas algo naquela história não encaixava. TK nunca deu motivos para desconfianças tão graves, embora fosse verdade que tinha um comportamento imprevisível às vezes. – Tá bom, Elias. Eu vou conversar com o TK. Se for como cê tá falando, eu vou resolver isso do meu jeito. Mas se eu descobrir que tem outra coisa por trás dessa acusação, cê vai me ouvir. Elias deu um sorriso forçado, mas assentiu com firmeza. – É isso, Matheus. Resolve. O morro depende de você. Assim que saiu da casa, Elias soltou um longo suspiro, como se estivesse livrando-se de um peso enorme. Ele sabia que havia dado um passo arriscado, mas a necessidade de proteger a si mesmo era maior que qualquer laço. Agora, só restava esperar que Matheus engolisse aquela história. Elias desceu apressadamente pela viela até encontrar TK encostado em uma parede, fumando tranquilamente. Elias parou diante dele, sério. – Precisamos conversar. TK levantou o olhar, surpreso com a abordagem repentina. – Que foi, Elias? Tá com pressa pra quê? Elias deu um passo mais próximo, baixando o tom de voz. – Só quero te avisar que tão de olho em você, TK. Matheus tá querendo saber sobre umas paradas e pode sobrar pra tu se não cuidar o que fala ou faz. TK riu, sem levar aquilo tão a sério. – Cê sabe que eu sou leal ao Matheus. Não devo nada. Elias colocou uma mão firme no ombro dele, apertando levemente. – Só faz o que tô te dizendo. Fica quieto, na tua, e não se mete em confusão. TK, agora mais alerta, assentiu devagar, sem entender por completo o que Elias queria. De volta à casa, Matheus pegou o cordão e olhou para ele mais uma vez. A história de Elias parecia forçada demais. Mas ao mesmo tempo, ele sabia que precisava ser cauteloso. Matheus decidiu não agir por impulso. Ele chamaria TK no dia seguinte para uma conversa direta. Antes disso, observaria. No entanto, uma coisa já era certa: Elias havia plantado a dúvida, mas Matheus não era do tipo que confiava cegamente, nem mesmo no melhor amigo. Dona Iraci subiu o morro com passos firmes, embora sua expressão demonstrasse o cansaço de noites sem dormir. Desde que Lara havia sido encontrada, ferida e marcada por uma dor que nenhuma mãe gostaria de ver, ela não descansava. A dor e o medo pela filha a consumiam. Quando chegou à boca, encontrou Matheus cercado por alguns homens. Ele estava em silêncio, mas a tensão estampada no rosto do líder indicava que sua mente não parava. Ao ver a mulher se aproximar, ele levantou-se imediatamente. — Dona Iraci, tudo bem? Aconteceu algo? — perguntou Matheus com cuidado, embora temesse a resposta. Dona Iraci balançou a cabeça e segurou as lágrimas que ameaçavam escapar. — A Lara... Ela não tá bem, Matheus. Não consegue dormir, não come, e cada vez que eu olho pra ela, parece que meu coração vai partir... Matheus a ouviu atentamente, os punhos discretamente cerrados ao lado do corpo. — Eu entendo, Dona Iraci. Sei que isso é difícil... Ela o interrompeu, a dor transbordando. — Matheus, minha filha nunca deu trabalho pra ninguém. Sempre quietinha, respeitosa... nunca sequer teve namorado. E agora... isso? Como pode? O sangue de Matheus gelou. Ele parou por um instante, tentando assimilar o que acabara de ouvir. As últimas palavras de Dona Iraci soaram como tiros em sua mente. — Como é que é? — ele perguntou, mais para ter certeza de que ouvira direito. Dona Iraci respirou fundo, lutando contra o choro. — A Lara... era virgem, Matheus. Nunca tinha conhecido ninguém, entende? A fúria tomou conta dele. Era uma raiva intensa, visceral, que fazia seu sangue ferver. Ele sabia que precisaria manter a cabeça fria para lidar com a situação, mas naquele momento, a única coisa que conseguia sentir era ódio. Matheus se virou para um de seus homens que estava por perto. — Vai buscar o TK. Agora. Não quero saber como, mas traz ele pra mim. O rapaz hesitou por um segundo, mas o olhar frio de Matheus o fez se mover sem questionar. TK estava sentado em sua cama, tranquilo, ajustando uma corrente no pulso, quando ouviu um bater seco na porta. Antes que pudesse levantar para atender, dois homens invadiram o barraco e o pegaram desprevenido. — Bora, TK. O Matheus tá te chamando. TK olhou para os dois, confuso e visivelmente nervoso. — Que foi? Que que tá pegando? — Não somos nós que vamos te responder. Anda logo. Sentindo o estômago afundar, TK foi empurrado para fora. Cada passo em direção à boca parecia levar um século. Ele sabia que algo sério estava acontecendo, mas não fazia ideia do que estava por vir. Quando chegou, encontrou Matheus parado ao centro, os braços cruzados e o olhar fixo nele. Elias estava ao lado, com uma expressão dura, e outros homens cercavam o local. A atmosfera era densa, sufocante. — Cê sabe por que tá aqui? — perguntou Matheus, a voz baixa e carregada de perigo. TK engoliu em seco e tentou disfarçar o nervosismo. — Não sei, chefe. O que que houve? Matheus jogou o cordão no chão, bem nos pés de TK. — Esse cordão aqui é seu? TK olhou para o objeto, surpreso, mas hesitou antes de responder. — Não, não é meu, chefe. Nunca vi isso antes. Elias deu um passo à frente, falando com um tom quase debochado: — É mesmo, TK? Porque todo mundo aqui sabe que você vivia se gabando desse cordão. Vai continuar mentindo? TK gaguejou, tentando pensar rápido. — Tá maluco, Elias? Tá tentando ferrar comigo, é? Não tô entendendo nada disso. Matheus respirou fundo, tentando conter a raiva crescente. — Última chance, TK. Quem foi que mexeu com a Lara? Quem fez isso? A tensão no ar era palpável. TK olhava ao redor, procurando uma saída, mas o olhar de Matheus era inescapável. Finalmente, ele balbuciou: — Eu... não fui eu, chefe, juro por Deus. A explosão de raiva de Matheus foi instantânea. Ele avançou sobre TK, segurando-o pelo colarinho e o levantando do chão. — Não te perguntei se foi você, tô perguntando quem foi! — Eu não sei! — gritou TK, apavorado. Matheus o soltou com brutalidade, deixando-o cair no chão. Ele apontou para dois de seus homens. — Tranca ele na casinha. E ninguém fala com ele até eu mandar. Os homens obedeceram sem hesitar, arrastando TK enquanto ele continuava a protestar. Matheus esfregou o rosto, tentando se acalmar. — Elias, amanhã, quero todo mundo vasculhando o morro. Quem for culpado disso vai pagar, com a vida se precisar. Elias assentiu, embora seu olhar calculista sugerisse pensamentos ocultos. Algo maior estava por vir.
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