A noite estava tranquila, com uma brisa leve cortando o calor do dia. Matheus estava encostado no portão da casa de Lara, o semblante despreocupado enquanto ela o encarava com uma expressão que misturava nervosismo e decisão. Eles estavam ali há algum tempo, conversando sobre assuntos triviais, mas Lara não conseguia focar no que ele dizia. Sua mente estava em um turbilhão.
"Eu não acredito que vou fazer isso", ela pensou enquanto sentia as palmas das mãos suarem.
— Você tá muito calada, Lara — Matheus comentou, inclinando levemente a cabeça. — Tá tudo bem?
Ela o olhou nos olhos, sentindo o peso da própria respiração. Seu coração estava tão acelerado que parecia ecoar no silêncio ao redor. Sem pensar muito, antes que o medo a paralisasse, ela respirou fundo e soltou as palavras:
— Matheus... me beija.
Ele piscou algumas vezes, surpreso com a súbita mudança de tom e direção da conversa. Um sorriso de incredulidade tomou seu rosto.
— O que foi que você disse, Lara? — ele perguntou, rindo baixo, mas claramente ainda surpreso.
— Me beija — ela repetiu, firme, mesmo que a voz saísse um pouco tremida. — Eu preciso disso.
Matheus cruzou os braços, o olhar curioso e cauteloso, tentando entender de onde vinha aquele pedido.
— Tá brincando comigo? Isso não é coisa pra se pedir assim, do nada.
Lara sentiu o rosto arder de vergonha, mas continuou:
— Eu não tô brincando. Eu quero... eu preciso disso, Matheus. Preciso de uma lembrança boa, algo que me faça esquecer o que aconteceu comigo. Me faz sentir viva de novo.
O sorriso de Matheus desapareceu, dando lugar a uma expressão mais séria. Ele percebeu o peso das palavras dela. Era como se estivesse abrindo uma ferida profunda, buscando nele algo que pudesse ajudá-la a fechar.
— Lara, cê tem certeza disso? — ele perguntou, a voz agora mais baixa e grave.
Ela assentiu, olhando para ele com firmeza.
— Eu confio em você, Matheus. Por favor.
Ele suspirou, aproximando-se devagar. Seus olhos capturaram os dela, analisando cada detalhe de sua expressão, buscando sinais de dúvida ou arrependimento. Quando não encontrou nada além de determinação, ele ergueu uma das mãos, tocando levemente o rosto dela.
— Se você tiver qualquer arrependimento, me para, tá bom? — ele avisou, o tom protetor que sempre usava com ela.
Antes que ela pudesse responder, Matheus inclinou a cabeça e pressionou os lábios contra os dela. O beijo começou suave, como se ele estivesse se segurando, temendo assustá-la. Mas, à medida que Lara relaxava e se permitia corresponder, o gesto ganhou mais intensidade, mais profundidade.
Por alguns segundos, todo o mundo desapareceu para ela. Não havia medo, nem lembranças ruins, nem dor. Apenas aquele momento.
Quando se separaram, ambos ficaram ali, respirando fundo, ainda tão perto que podiam sentir a respiração um do outro.
— Era disso que você precisava? — Matheus perguntou, a voz carregada de ternura.
Lara abriu um pequeno sorriso, as lágrimas vindo aos olhos, mas não de tristeza.
— Era exatamente disso que eu precisava.
Matheus assentiu e, sem dizer mais nada, passou os dedos pelo cabelo dela, como se quisesse reafirmar o cuidado que tinha com ela.
— Agora vai dormir, Lara. E lembra que eu tô aqui, pra tudo que você precisar, tá?
Ela apenas assentiu, entrando em casa com o coração mais leve. Matheus ficou ali por mais alguns minutos, fitando a porta fechada. Para ele, aquele beijo tinha sido muito mais que um pedido dela. Era um vínculo que ele sabia que não poderia ignorar, por mais perigoso que fosse.
Matheus caminhou lentamente de volta ao seu carro, as mãos nos bolsos e a mente confusa. Ele sabia que algo tinha mudado entre eles. O beijo de Lara não fora apenas um gesto impensado; era um grito por alívio, por normalidade, algo que o atingiu em cheio.
Quando entrou no carro, ligou o motor, mas não foi embora imediatamente. Ficou ali, encarando o volante, o pensamento preso no olhar de Lara após o beijo. Ela parecia tão frágil, mas ao mesmo tempo determinada a se reconstruir. Isso mexia com ele mais do que ele estava disposto a admitir.
No morro, ele tinha que ser implacável, um líder firme que ninguém ousava questionar. Mas Lara era uma lembrança constante de que havia mais dentro dele, uma parte vulnerável que ele não mostrava a ninguém.
No dia seguinte, Lara acordou com uma sensação estranha.
Ela tocou os próprios lábios, revivendo o momento no portão. Matheus tinha sido gentil, cuidadoso, e isso a fez sentir algo que ela não sentia há muito tempo: segurança. Mas junto com isso vinha o medo. Será que estava certo criar um vínculo tão forte com alguém da vida dele?
Enquanto tomava café, sua mãe, Dona Iraci, reparou que Lara parecia distraída.
— Tá pensando em quê, menina? — perguntou, colocando um pedaço de pão no prato dela. — Desde ontem cê tá assim, com a cabeça longe.
Lara balançou a cabeça, tentando esconder o sorriso que ameaçava surgir.
— Nada, mãe. Só pensando na vida.
— Vida... É com esse tal do Matheus, né? Eu vejo como ele te olha. Tá se interessando por ele?
Lara corou, deixando o olhar cair para o prato.
— Não sei, mãe... É complicado.
Dona Iraci suspirou, sentando-se em frente à filha.
— Complicado é você se fechar pra vida por causa do que te fizeram, Lara. O Matheus... ele parece diferente. Forte, mas tá claro que gosta de você. Só toma cuidado, tá? Essa vida dele pode trazer perigo.
Lara assentiu, guardando as palavras da mãe no fundo da mente.
Mais tarde, Matheus também não conseguia fugir de seus pensamentos.
Elias o encontrou no barraco que usava como base, entrando sem bater.
— E aí, irmão. Tá com a cara de quem passou a noite em branco. Ficou pensando na menina? — provocou, com seu habitual tom jocoso.
Matheus o ignorou, mas Elias insistiu:
— Cuidado, Matheus. Mulher é fraqueza pra chefe. Povo tá sempre de olho pra achar um ponto fraco. Não vai colocar ela em risco por causa dessa tua fascinação.
Matheus levantou os olhos lentamente, o olhar gelado que sempre usava para calar Elias.
— Eu sei o que tô fazendo. E minha vida não é da tua conta.
Elias ergueu as mãos em sinal de rendição, mas o sorriso no canto dos lábios mostrava que ele tinha mais a dizer.
— Só um aviso de quem já viu chefe grande cair por causa de mulher.
Assim que Elias saiu, Matheus pegou o celular e ligou para Lara. Ele sabia que precisava ouvi-la, mesmo que fosse só por alguns segundos.
— Oi, Matheus. — A voz dela do outro lado o fez fechar os olhos por um momento, como se estivesse recarregando as energias.
— Tá bem?
— Tô... E você? — respondeu ela, sentindo o coração disparar.
— Eu tô bem. Só queria saber... Se precisar de algo, você me chama, tá? Qualquer coisa.
Lara sorriu, mordendo o lábio.
— Tá bom. Obrigada, Matheus.
Depois que desligou, ela ficou parada ali, olhando para o celular, com um pequeno sorriso no rosto. Não importava o que viesse depois, ela sabia que estava começando a ver Matheus de um jeito diferente, algo que a assustava e a animava ao mesmo tempo.
Já Matheus, ao desligar, olhou para o horizonte, certo de uma coisa: ninguém encostaria em Lara de novo. E se isso significasse ir contra tudo e todos, ele não hesitaria.