A noite no morro estava abafada, carregada de tensão. Matheus sabia que não havia mais volta. Ele precisava cortar Elias antes que fosse tarde.
Reuniu seus aliados mais fiéis — Sabiá, Binho, Magrão e Russo — e seguiu para a viela onde Elias costumava ficar. A boca de fumo estava cheia, mas, ao ver Matheus chegando com aquele olhar, os soldados abriram espaço.
Elias estava encostado na parede, cigarro entre os dedos, como se já esperasse por ele. Negrete ao lado, sempre calado.
— Matheus… — Elias começou, soltando a fumaça.
— Chega, Elias. — Matheus cortou, a voz firme. — Eu sei o que cê tá tramando. Sei que tá juntando gente por fora, sei que tá tentando me minar dentro do morro.
Elias manteve a expressão tranquila, mas seu olhar endureceu.
— Então é assim? Vai virar as costas pro irmão de infância?
Matheus riu sem humor.
— Não fui eu que virei as costas. Cê cavou essa merda, Elias. E eu tô te dando uma saída limpa.
O silêncio pesou. Os soldados ao redor já seguravam as armas, esperando o desfecho.
— Tá me expulsando do morro? — Elias perguntou, estreitando os olhos.
— Tô te dando uma chance de sair vivo. — Matheus cravou. — Vai embora, não volta. Em nome do que a gente já foi um dia.
Negrete olhou para Elias, esperando um comando. Mas Elias sabia que, ali, ele estava sozinho.
Ele tragou fundo o cigarro, jogou no chão e pisou em cima. Depois ergueu as mãos devagar, num gesto de rendição.
— Beleza, Matheus. Eu vou.
Os soldados relaxaram, mas Matheus não. Ele conhecia Elias bem demais.
— Se eu te ver aqui de novo… eu mesmo resolvo.
Elias sorriu, aquele sorriso de quem nunca aceita perder.
— Vamo ver até onde cê vai, Matheus.
E saiu, com Negrete logo atrás.
Matheus ficou ali, vendo o amigo de uma vida desaparecer na escuridão.
Sabia que não tinha acabado.
Matheus ficou ali por mais alguns instantes, observando a viela vazia por onde Elias desapareceu. Sabia que aquele olhar de despedida não era um adeus pacífico. Elias saía do morro, mas não ia sumir. Aquilo era só o começo.
— E aí, chefe? Tá feito? — Sabiá perguntou, apertando o boné na cabeça.
— Por enquanto. — Matheus respondeu, sem tirar os olhos da rua.
Ele virou as costas e voltou para a boca, sentindo um peso nos ombros. Expulsar Elias não foi fácil, mas era necessário. Agora, precisava garantir que o morro continuasse sob controle.
Lara estava inquieta. Desde que soube que Matheus tinha se afastado de Elias, algo dentro dela dizia que isso ainda ia dar problema. Sentada no sofá de casa, balançava a perna, impaciente.
Quando Matheus apareceu na porta, ela sentiu um alívio imediato.
— Pensei que não vinha hoje. — Ela sorriu, abrindo espaço para ele entrar.
— Tive que resolver umas paradas. — Matheus respondeu, tirando o boné e passando a mão no cabelo.
Ela percebeu o cansaço nos olhos dele. Sem pensar muito, segurou sua mão e o puxou para sentar ao lado dela.
— Quer me contar?
Matheus soltou um suspiro. Ficou em silêncio por um tempo, mas então passou a mão no rosto e falou:
— Tirei Elias do morro.
Lara arregalou os olhos.
— O quê? Como assim?
— Ele tava se achando esperto demais. Tentando minar meu nome. Dei uma chance dele sair vivo, porque um dia já fomos irmãos.
Lara sentiu um frio na barriga.
— E você acha que ele vai aceitar isso de boa?
Matheus riu sem humor.
— Claro que não. Elias nunca aceita perder. Mas se ele tentar voltar, não vai ter outra conversa.
Ela engoliu em seco. Sabia que aquele mundo funcionava assim, mas ainda assim, se preocupava com ele.
— Matheus... e se isso trouxer mais guerra pro morro?
Ele segurou o rosto dela com delicadeza, os olhos escuros fixos nos dela.
— Eu resolvo. Não quero você se preocupando com isso.
Ela sentiu o coração disparar. O jeito como ele a olhava fazia todo o medo parecer menor. Como se com ele, ela estivesse segura.
Sem pensar muito, Lara se inclinou e o beijou. Dessa vez, com mais intensidade, com mais entrega. Matheus segurou firme sua cintura, aprofundando o beijo. Ele precisava daquilo. Do gosto dela, do conforto que só ela parecia dar.
Aquela noite, pela primeira vez, Lara sentiu que talvez estivesse pronta para ir além. E Matheus percebeu isso nos olhos dela.
Mas nada no morro ficava tranquilo por muito tempo. Elias ainda estava lá fora. E não ia esquecer o que aconteceu.