Jogo

1697 Words
No coração do morro, o silêncio não era comum. No entanto, naquela manhã, mesmo com o som distante de funk vindo de uma viela, havia uma tensão que se sobrepunha ao habitual movimento das ruas estreitas. O desaparecimento de Lara e os eventos que se seguiram deixaram todos inquietos. Matheus sabia que o peso do comando não era apenas proteger o movimento, mas também zelar pela comunidade. A violência contra Lara era uma afronta direta ao respeito que ele tanto cultivava ali. Ele estava na sala de Zé Preto, os olhos fixos na janela. Apesar da insistência de outros de que ele deveria descansar, ele não conseguia. Seus dedos tamborilavam na mesa de madeira, os pensamentos girando. Quando alguns dos meninos vieram relatar que haviam achado rastros que levavam a uma nova pista, ele imediatamente agendou uma reunião. Logo, na quadra do morro, seus aliados mais confiáveis se reuniam. Cabelos cortados rente à cabeça, tatuagens que contavam histórias e roupas simples que traduziam as ruas. Estavam ali cerca de 15 homens, rostos endurecidos pela vida, alguns portando armas pequenas, mas letais. Entre eles, Elias estava sentado, à margem, mas sempre no campo de visão de Matheus. Ele sabia que Elias carregava algo mais no olhar ultimamente, uma mistura de inveja e inquietação que o fazia agir de forma imprevisível. – Alguém mexeu com nossa gente – Matheus começou, a voz calma, mas com um peso que silenciou todas as conversas paralelas. – Não foi só a Lara. Mexeram com a comunidade. Mexeram com o respeito do morro. Um murmúrio de concordância percorreu os presentes. Elias apenas assentiu com a cabeça, os braços cruzados como se estivesse à vontade, mas quem observasse de perto veria que seus dedos batiam nervosamente no braço. – Quero que os olhos do morro estejam atentos – continuou Matheus. – Quem for dos nossos, fique nas vielas, na entrada das bocas, nas esquinas. Observem. Escutem. Todo mundo aqui sabe: esse tipo de coisa não é aleatória. Uma leve tensão aumentou no ar. Elias pigarreou, forçando-se a parecer participativo. – Certo que não foi de dentro do morro, chefe? Às vezes, algum novato querendo se aparecer. – Por isso vou começar por dentro – retrucou Matheus, encarando Elias, que segurou o olhar do amigo apenas por alguns segundos antes de desviar. – Aqui ninguém é cego. Aqui, eu confio em quem me prova lealdade com ação, não com conversa. O silêncio caiu sobre o grupo. Ninguém teve coragem de questionar, e, no fim da reunião, os grupos foram divididos. TK e mais três homens foram designados para monitorar os becos. Elias ficou encarregado de supervisionar a movimentação da entrada do morro, um trabalho que ele aceitou com um meio sorriso, escondendo a insatisfação crescente. Enquanto isso, Lara estava em um quarto modesto de hospital público. A luz fraca que entrava pelas janelas parcialmente abertas fazia a pequena sala parecer maior do que era. Dona Iraci estava sentada ao lado da cama, a expressão cansada. – Eles disseram que a polícia precisa saber, mãe – Lara murmurou, com os olhos fixos na janela. – Eu cuido disso – respondeu Dona Iraci, em um tom firme. – O importante é você se recuperar. O médico entrou para fazer um novo check-up e, logo depois, Matheus apareceu na porta do quarto. Ele tinha retirado a camisa de grife e o boné de aba reta, vestindo uma camiseta simples e desbotada, tentando não chamar atenção. – Posso entrar? Dona Iraci não queria permitir, mas, ao olhar para a expressão séria de Matheus, suspirou e saiu, dando espaço. Ele puxou uma cadeira para sentar ao lado da cama, apoiando os cotovelos nos joelhos enquanto olhava para ela. – Desculpa. Isso não devia ter acontecido no meu morro. Lara desviou o olhar. Sabia que ele dizia a verdade, mas não conseguia encontrar palavras para responder. Matheus continuou. – Vou resolver isso, Lara. Seja quem for, não vai ficar sem resposta. Ela o olhou de relance. Por mais confusa e vulnerável que se sentisse, via sinceridade nele. Pela primeira vez, viu Matheus não como o dono do morro, mas como o garoto que ela conhecia desde a infância. Elias, enquanto isso, conversava com TK em um canto. Ele estava inquieto. – Tu sabe o que ele tá fazendo, né? Ele quer se pintar de santo. Quer que todo mundo ache que ele é melhor que eu. TK tentou disfarçar o incômodo com os comentários de Elias, mas não foi muito convincente. – Tá levando muito pro lado pessoal, Elias. Deixa o Matheus resolver as coisas do jeito dele. Elias o encarou, uma raiva crescente nos olhos. – Do jeito dele? E o meu? Que se dane o que eu quero, né? Não sou o braço direito dele? Não sou eu que tô sempre na linha de frente? TK deu de ombros e soltou um suspiro pesado antes de se afastar, mas Elias permaneceu onde estava, cada vez mais decidido a virar o jogo. De volta ao hospital Quando Matheus saiu do quarto, cruzou com Dona Iraci, que o olhou desconfiada. – Vai trazer mais problemas, Matheus? Ele balançou a cabeça. – Só justiça, dona Iraci. Palavra minha. A mãe de Lara o observou enquanto ele desaparecia pelo corredor, ainda desconfiada, mas, por um momento, teve um fio de esperança. Elias finalmente decidiu agir. Durante a noite, enquanto Matheus se dedicava a investigar e procurar respostas, Elias começou a arquitetar o seu próprio plano, disposto a jogar mais uma peça para desestabilizar o comando de Matheus e tomar o respeito que, no fundo, ele achava merecer. No hospital, Lara tentou descansar, mas o sono não vinha. As palavras de Matheus ecoavam na sua mente, e, ao mesmo tempo, a dor física se misturava ao tumulto emocional. Ela se sentia vulnerável, perdida, mas também havia algo mais – uma raiva silenciosa que começava a brotar. Já era noite quando um policial entrou em seu quarto. Alto, com semblante sério, ele se apresentou como investigador Leal. Tinha vindo colher o depoimento dela, algo que a deixava nervosa, mas sua mãe insistiu que isso era necessário. – Lara, sabemos que é difícil, mas precisamos entender o que aconteceu para agir. Cada detalhe ajuda – disse ele, num tom que tentava parecer reconfortante. Lara começou a relatar, as palavras saindo entrecortadas, enquanto Leal tomava notas detalhadas. A cada momento, a expressão dele se fechava mais. – Alguém tem motivo pra querer te machucar, ou você notou alguma coisa estranha antes disso acontecer? Lara hesitou, mas balançou a cabeça. – Só... me senti sendo observada algumas vezes. Não sei. Do lado de fora do quarto, Matheus esperava, encostado na parede. Ele havia retornado ao hospital, insatisfeito com a falta de avanços. Sabia que o culpado provavelmente estava no morro. Só precisava de uma peça-chave para confirmar as suspeitas. Quando Leal saiu do quarto e viu Matheus, houve uma troca de olhares carregada de tensão. – Você não devia estar aqui – o policial murmurou. – Eu cuido do meu povo – respondeu Matheus friamente. Leal riu com sarcasmo, se aproximando. – É engraçado. Primeiro vocês colocam todo mundo em perigo, e agora quer pagar de salvador? Matheus estreitou os olhos, mas decidiu não alimentar a discussão. Apenas balançou a cabeça. – Faça o seu trabalho, e eu faço o meu. Enquanto isso, Elias aproveitava o momento para semear dúvidas. Ele sabia que Matheus estava distraído com o desaparecimento de Lara e agora com as investigações. Na boca, ele começava a sugerir que Matheus estava falhando em manter o respeito do morro. – Isso aqui tá frouxo, meu povo. Até quando vamos fingir que ele sabe o que tá fazendo? – comentou ele num grupo pequeno, que incluía TK e alguns jovens armados. – Ele tá tentando resolver as coisas, Elias. Não tá sentado de braço cruzado – rebateu TK, ainda tentando ser leal. – E tá resolvendo? Tá, por acaso, resolvendo? Ou as coisas só tão piorando? Alguns dos homens começaram a balançar a cabeça, concordando com Elias. A dúvida era uma arma poderosa, e Elias sabia exatamente como utilizá-la. No final da mesma noite, Matheus liderava uma nova busca pela área da mata. Ele insistiu em rever o local onde encontraram Lara, tentando entender se havia deixado algo passar. Entre o barulho dos galhos quebrando sob seus pés e a luz fraca das lanternas, um dos homens gritou: – Matheus! Acho que achei algo aqui. Ele correu até o local indicado. Entre a folhagem densa, uma bolsa de couro estava caída, aparentemente ignorada na primeira busca. Ao abri-la, encontrou um objeto que fez o sangue dele gelar: um colar dourado com uma inicial pendurada. – Elias... – ele murmurou para si mesmo, reconhecendo a peça imediatamente. De volta ao morro, Matheus caminhava para a casa de Zé Preto com o colar no bolso, a mente fervilhando de possibilidades. Precisava entender a ligação de Elias com o caso antes de tomar qualquer decisão. Mas antes que pudesse se organizar, foi chamado às pressas para o bar local por TK, que parecia preocupado. Ao chegar, encontrou um grupo de moradores exaltados. Eles falavam alto, reclamando das ações de Elias, especialmente depois que ele invadiu uma pequena vendinha durante a tarde, dizendo que precisava de "taxa extra". – O que tá acontecendo aqui? – perguntou Matheus, a voz autoritária o suficiente para silenciar a confusão. Um dos moradores se adiantou. – O Elias! Ele tá passando do limite! Mexeu na vendinha da dona Cida, que m*l tem como se sustentar! Matheus respirou fundo, tentando controlar a fúria crescente. Ele precisava de provas concretas antes de agir, mas agora a paciência da comunidade estava em jogo. – Eu vou resolver isso. Não se preocupem – disse ele, dispersando a multidão com esforço. Quando finalmente ficou sozinho, abriu o colar que havia encontrado na mata e o encarou mais uma vez. Seus pensamentos estavam divididos: deveria confrontar Elias diretamente ou reunir mais provas antes de fazer qualquer coisa? Enquanto Matheus refletia, Elias, alheio ao perigo, seguia fomentando seu próprio plano de tomada do morro. Ele sabia que o momento de agir precisava ser certeiro. A questão era: quem se moveria primeiro?
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