Lenha

1201 Words
Elias estava posicionado estrategicamente à sombra de uma viela, longe da aglomeração que começava a se dispersar. Observava tudo com atenção, mas era o sorriso que brincava em seus lábios que revelava o que ele realmente sentia. Assistir àquele espetáculo de poder era algo que Elias apreciava mais do que admitia. TK pagava o preço, e, para ele, ver Matheus agir com pulso firme era quase satisfatório. Do centro da praça, Matheus terminava de ajeitar sua postura, livrando-se do cigarro já apagado com um gesto brusco. Sua expressão era rígida, com os olhos varrendo a multidão de olhares cautelosos e apreensivos. Ele sabia que aquele era o momento para deixar claro quem estava no comando — e até onde ele estava disposto a ir para manter a ordem. — Escutem bem o que eu vou falar — começou Matheus, a voz firme e carregada de autoridade, ressoando como um trovão no silêncio tenso. — Aqui tem lei, e essa lei é minha. Eu sou justo, mas não aceito desrespeito. Não aceito traição. Os murmúrios se calaram por completo. Todos estavam atentos, do menor moleque do movimento até os moradores mais velhos que saíram para ver o que estava acontecendo. O clima de apreensão era palpável. — TK foi um exemplo. E vai ser o único, se depender de mim. Quem me respeitar e seguir as regras, vai ter minha proteção. Quem sair da linha... vai acabar como ele. — Ele apontou vagamente na direção onde TK havia sido deixado, espancado e humilhado. Elias cruzou os braços, escorado na parede. O sorriso em seu rosto não desaparecia. Era quase imperceptível, mas havia uma leveza em sua postura que contrastava com a tensão ao redor. Ele gostava de ver Matheus assumir o controle, mas sabia que aquela demonstração de poder abria espaço para algo mais: a semente da dúvida no coração dos outros. Nem todos aceitariam o comando tão facilmente, e isso, no fundo, o entretinha. Matheus continuou, sem se abalar: — Eu sempre vou lutar pelo morro, por vocês. É meu dever como líder. Mas, pra isso, eu preciso que todos aqui saibam: não é o medo que me move, é a justiça. Porém, se o medo for necessário... que assim seja. O silêncio que se seguiu era quase tão ensurdecedor quanto as palavras que ecoaram pela praça. Alguns homens acenaram em aprovação, outros simplesmente desviaram o olhar, apreensivos com o futuro. Elias assistiu enquanto Matheus terminava seu discurso, o olhar fixo no rosto dele, analisando cada detalhe. Assim que a multidão começou a dispersar, Elias finalmente deu um passo para frente, emergindo da sombra. — Belo discurso, irmão — disse, aproximando-se com uma calma exagerada, quase irônica. — Mas sabe como é, né? Vai sempre ter alguém testando até onde suas palavras alcançam. Matheus olhou para ele, sabendo que Elias nunca perdia a chance de provocar. — Não tô preocupado com quem testa minhas palavras — respondeu Matheus, encarando-o firme. — Me preocupo com quem acha que pode pisar no que eu tô construindo. — Você é duro na queda, isso eu reconheço — Elias respondeu com um sorriso discreto. — Só não esquece que, às vezes, o problema vem de onde a gente menos espera. Matheus observou o irmão com atenção. Ele sabia que Elias sempre tinha um motivo para dizer algo enigmático. Mas, naquela noite, havia coisas mais importantes para resolver do que interpretar cada provocação. Ele se virou, sem mais palavras, deixando Elias ali, sorrindo sozinho na praça quase vazia. Matheus sabia que, mesmo com TK fora de jogo, o trabalho no morro estava longe de terminar. E, se alguém quisesse testá-lo de novo, ele estava mais do que preparado. Ao sair da praça principal, Matheus sentiu o peso de suas próprias palavras. Embora estivesse decidido a cumprir com o que prometera, ele sabia que manter a ordem no morro não seria tão simples quanto pareceria após um discurso. O poder era solitário, e o maior desafio não estava nos inimigos declarados, mas nas alianças veladas que poderiam ruir a qualquer momento. Enquanto atravessava uma viela estreita, foi parado por Dona Iraci, que aguardava na porta de casa. Os olhos dela estavam vermelhos, as mãos trêmulas segurando um terço gasto. — Matheus, por favor… me diz que encontraram quem fez isso com minha menina. Ela ainda não consegue dormir, vive chorando... Eu sei que você fez tudo que podia, mas meu coração ainda tá apertado. Matheus parou diante dela e abaixou o olhar por alguns segundos antes de responder: — Dona Iraci, tudo que eu puder fazer pra sua filha ter paz de novo, eu vou fazer. Esse morro é a casa dela, ninguém vai tirar isso dela, não enquanto eu tiver aqui. Ela assentiu, ainda desconsolada, enquanto Matheus continuava seu caminho. Ao chegar ao galpão onde se reuniam os homens do movimento, encontrou RD e mais alguns aliados reunidos ao redor de um rádio comunicador. Eles se levantaram assim que ele entrou. — Alguma novidade? — perguntou Matheus, com a voz firme. RD respondeu: — Tudo calmo, mas tem boato rolando na outra comunidade, aquela que sempre incomoda, sobre TK ter contado algumas coisas antes de ir pro saco. Dizem que ele tinha gente por lá que tava esperando uma oportunidade. — Que oportunidade? — Matheus estreitou os olhos, já antecipando o pior. — De nos enfraquecer — completou RD, sem hesitação. Matheus respirou fundo, tentando organizar os pensamentos. Ele sabia que não podia permitir que nada abalasse a estrutura que vinha construindo com tanto esforço. Se a história de TK se espalhasse e seus aliados começassem a duvidar dele, todo o morro poderia entrar em colapso. — Quero você de olho nisso, RD. Qualquer movimentação, você me avisa. Não deixa ninguém falar besteira por aqui. Enquanto RD saía para organizar os homens, Elias surgiu na porta, escorado com um sorriso intrigante. — Parece que as coisas não tão tão bem organizadas assim, hein, Matheus? Esses boatos… já te disse, vai sempre ter gente querendo testar você. — Eu tô resolvendo isso, Elias. Se quer ajudar, para de jogar lenha na fogueira — respondeu Matheus, irritado, mas mantendo a calma. — Só tô dizendo que você tá sendo suave demais, irmão. Às vezes, mostrar força só uma vez não basta. Esses caras precisam de uma lição permanente. Matheus o olhou com firmeza, cansado das insinuações. — Força sem controle vira fraqueza, Elias. E eu não vou deixar isso acontecer aqui. Elias deu de ombros, com um sorriso provocador. — Só não diga que eu não avisei. Antes que a discussão se prolongasse, um dos homens entrou apressado, interrompendo o clima tenso. — Matheus! Achamos uma pista da ligação de TK com os caras da outra comunidade. Parece que tem coisa grande por trás disso. Os olhos de Matheus se estreitaram. A tensão no ar aumentava, mas, no fundo, ele sabia que essa era a oportunidade de reafirmar sua posição como líder. — Reúnam os homens. Vamos resolver isso agora. Elias sorriu de canto, acompanhando Matheus sair. Por mais que soubesse que seu irmão era capaz de liderar, ele não podia evitar a sensação de que o caos era iminente — e, secretamente, parte dele ansiava por isso.
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