Volta

1401 Words
Lara atravessou a porta de casa com passos lentos, sentindo o ar pesado e familiar da sala que, de alguma forma, agora parecia estranha. Dona Iraci estava ao seu lado, segurando firme sua mão, como se a qualquer momento Lara pudesse desmoronar. — Filha, se você precisar de alguma coisa, qualquer coisa, estou aqui, tá? — disse Dona Iraci, a voz embargada, mas tentando parecer forte. Lara assentiu, tentando sorrir, mas o gesto não passou de uma tentativa pálida. Ela olhou ao redor: o sofá onde costumava ler, o quadro torto que ela mesma havia pendurado na parede, tudo parecia imóvel, incapaz de lhe oferecer o conforto que tanto precisava. O som de passos na varanda fez com que ela sobressaltasse, apertando os braços ao redor do corpo como um instinto defensivo. — Lara? — chamou a voz de Matheus do lado de fora. Dona Iraci abriu a porta e deu passagem para ele entrar. Matheus parecia cansado, os olhos sérios como se carregassem o peso do mundo. Ele vestia uma camisa preta simples, mas sua postura ainda emanava autoridade e firmeza. — Posso entrar? — perguntou ele. Dona Iraci olhou para Lara, que hesitou antes de acenar positivamente com a cabeça. — Eu deixo vocês conversarem — disse Dona Iraci, indo para a cozinha, embora mantivesse os ouvidos atentos. Matheus se aproximou devagar, respeitando o espaço de Lara, que estava sentada em uma cadeira perto da janela, onde a luz do sol espreitava entre as cortinas. — Eu… soube que você teve alta hoje. Quis vir ver como você estava. Lara manteve o olhar baixo, os dedos brincando com a barra do vestido. — Estou tentando... mas voltar não é fácil. Parece que tudo mudou, sabe? Até mesmo coisas simples. Matheus assentiu, entendendo mais do que demonstrava. Ele se agachou à frente dela, colocando-se em um nível onde pudesse olhar diretamente em seus olhos, mas sem impor sua presença. — Eu sei que você deve estar com medo, mas eu vim aqui te prometer uma coisa: você nunca mais vai passar por algo assim. Não enquanto eu estiver aqui. — Você já fez o suficiente, Matheus — disse ela, quase em um sussurro. — Não é suficiente — rebateu ele, firme, mas com um tom que exalava preocupação genuína. — Eu devia ter feito mais. Não posso voltar no tempo, mas posso garantir que ninguém vai encostar um dedo em você de novo. Lara levantou os olhos, encontrando os dele. Algo na sinceridade de Matheus tocava fundo, mas ainda havia uma barreira de emoções que ela não conseguia ultrapassar. — O problema não é só lá fora, Matheus. É aqui dentro — disse ela, tocando a própria cabeça. — O medo não vai embora. Às vezes, acho que nunca vai. Ele respirou fundo, mantendo a calma para não mostrar a própria raiva que ainda queimava contra quem tinha feito aquilo. — Eu não vou forçar você a fazer nada, Lara, mas saiba que, qualquer coisa que você precisar, não importa a hora ou o que for, eu vou estar aqui. — Por quê? — perguntou ela, a voz mais alta do que pretendia. — Por que você se importa tanto? Matheus pareceu surpreendido pela pergunta. Ele passou a mão na nuca, como se buscasse as palavras certas. — Porque você é alguém que merece mais. Eu vejo você desde pequena, sempre ajudando todo mundo, com aquele sorriso no rosto... E quando algo assim acontece, é como se fosse um soco no estômago. Não é justo. Ela deixou escapar um suspiro, entre o alívio de ouvir aquilo e a confusão que ainda turvava seus pensamentos. — Eu... eu não sei o que dizer. — Não precisa dizer nada. Só quero que você saiba que não está sozinha. Lara assentiu, finalmente permitindo que uma pequena fagulha de conforto entrasse em seu coração. Matheus se levantou, mas antes de sair, virou-se para ela mais uma vez. — E, se você se sentir pronta, quero que saia um pouco de casa. Não precisa ser pra longe, pode até ser ali na porta... só pra lembrar que esse lugar ainda é seu também. Ela não respondeu, mas seu olhar sugeria que consideraria o que ele disse. Assim que ele saiu, Dona Iraci apareceu na sala, trazendo uma xícara de chá. — Ele é um homem bom, viu? — comentou Dona Iraci, entregando o chá à filha. Lara apenas segurou a xícara, sem dizer nada. Mas, no fundo, as palavras de Matheus começavam a fazer sentido. Ela sabia que não podia deixar o medo consumir tudo que ela era. A questão era encontrar forças para dar o primeiro passo. Nos dias que seguiram, Lara tentou ajustar-se à rotina de casa, mas tudo parecia diferente. As paredes do lar que antes lhe davam segurança agora pareciam cercá-la. Qualquer barulho repentino, um tom de voz mais alto na rua ou mesmo o vento sacudindo as árvores a faziam encolher. A memória daquele beco continuava fresca demais para ser esquecida. Dona Iraci fazia de tudo para distraí-la, mantendo-a ocupada com tarefas simples, mas sabia que Lara carregava um peso que ninguém poderia aliviar por ela. Era um processo, ela repetia para si mesma. Um dia de cada vez. Na manhã de uma quinta-feira, enquanto Lara tomava seu café na cozinha, Matheus bateu na porta. Dona Iraci atendeu rapidamente, surpresa. — Matheus... tão cedo? — ela perguntou, tentando esconder a preocupação que lhe vinha automaticamente ao vê-lo ali. — Bom dia, Dona Iraci. Prometi à Lara que passaria para vê-la, tudo bem? Dona Iraci olhou por cima do ombro e viu Lara na mesa. Ela hesitou por um momento, mas abriu a porta, permitindo que ele entrasse. Lara levantou os olhos ao ouvir os passos de Matheus. Apesar da calma que ele emanava, havia algo em sua presença que ocupava todo o ambiente. — Bom dia, Lara — disse ele, com um pequeno sorriso. — Eu pensei em dar uma volta pelo morro. Queria saber se você quer me acompanhar. Ela franziu a testa, claramente desconfortável com a ideia. — Eu... não sei se consigo, Matheus. — Não precisa ir longe. Só quero te mostrar algo. Prometo que é seguro, e você pode voltar quando quiser. Lara olhou para a mãe em busca de orientação, mas Dona Iraci apenas assentiu. — Talvez te faça bem, filha. Após alguns minutos de hesitação, Lara pegou uma blusa e saiu com ele. A caminhada foi em silêncio no início, cada passo dela tenso, atento ao redor. — Para onde estamos indo? — perguntou, finalmente, em voz baixa. — Você vai ver — respondeu ele, apontando para uma trilha que subia para a parte alta do morro. O lugar estava cercado por árvores e plantas, o cheiro da mata fresca invadindo o ar. Aos poucos, Lara começou a sentir a tensão em seu corpo diminuir, embora ainda mantivesse um pouco de cautela. Quando chegaram ao destino, Matheus parou ao lado de um banco simples de madeira debaixo de uma árvore imensa. Daquela altura, dava para ver o morro inteiro se estendendo como um mosaico de telhados e becos. — Eu costumava vir aqui quando era moleque — disse Matheus, sentando-se. — Sempre que as coisas ficavam complicadas, isso aqui me ajudava a lembrar que, mesmo no caos, ainda tem algo bonito. Lara sentou-se ao seu lado, o olhar preso à paisagem. — É... bonito mesmo. Não sabia que esse lugar existia. — Pouca gente sabe. Quero que você tenha isso aqui como seu refúgio. Sempre que precisar de um lugar pra pensar, pra respirar... é só vir. Ela ficou em silêncio, absorvendo a cena diante dela. A ideia de um refúgio, um lugar só dela, parecia atraente. Matheus a observou por alguns instantes, percebendo que ela estava mais relaxada ali do que em qualquer outro momento desde o hospital. Ele resolveu não pressionar mais, apenas deixando o silêncio fazer o trabalho. — Obrigada por me trazer aqui — disse Lara, de repente, a voz baixa, mas sincera. — Não precisa me agradecer. Eu só quero que você saiba que ainda existem lugares e momentos em que você pode se sentir segura. Enquanto o sol começava a brilhar mais intensamente entre as nuvens, Lara percebeu que, mesmo que fosse um pequeno passo, aquele era o começo de algo. Talvez ela nunca superasse completamente o que aconteceu, mas poderia aprender a viver de novo, aos poucos.
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