Curiosidade

1614 Words
A chuva que caía sobre o morro na noite anterior dava lugar a um dia limpo e claro, quase como um prenúncio de que algo estava por vir. Matheus estava em sua casa, sentado na cabeceira de uma mesa improvisada, enquanto seus principais homens, incluindo Negrete, Elias e alguns outros, esperavam por suas instruções. A tensão na sala era palpável, mas Matheus parecia calmo, seguro de si. Ele sabia que essa guerra precisava ser vencida. Não era só uma questão de território; era a chance de mostrar sua força e consolidar sua liderança. — A gente vai acabar com eles de um jeito que nunca esperam — Matheus começou, olhando cada um diretamente nos olhos. — Eles acham que somos previsíveis, que vão encontrar resistência onde sempre encontram. Mas não. A gente vai pegar o que é deles enquanto eles ainda estão nos cercando. Negrete se inclinou para frente, intrigado. — Quer atacar primeiro, chefe? — Mais que isso. Quero que eles pensem que já estão ganhando — disse Matheus com um sorriso frio. — Elias, quero você nos pontos estratégicos com alguns homens. Vocês deixam pistas falsas sobre a movimentação no morro, como se estivéssemos recuando. Quero que eles fiquem confiantes. Elias assentiu, seu olhar era calculista. Apesar de algumas ambições escondidas, ele sabia que participar de um plano de sucesso também o beneficiaria. — Pode deixar comigo. — Negrete, cuida dos acessos principais. Qualquer estranho que entrar ou sair, eu quero saber antes que pisem no nosso chão. Negrete apenas respondeu com um gesto firme da cabeça. Matheus olhou para o mapa rudimentar estendido sobre a mesa. — O resto é comigo. Eu vou liderar a incursão na base deles. Quero deixar um recado claro: ninguém mexe com o nosso morro sem pagar o preço. Enquanto isso, Lara ainda lutava para lidar com tudo o que havia acontecido. Desde que havia saído do hospital, não se sentia em paz nem dentro de casa. O mundo lá fora parecia ameaçador, mas mesmo dentro das paredes do lar, sua mente era um redemoinho. A única pessoa que parecia genuinamente preocupada com ela – de uma forma que era ao mesmo tempo protetora e intimidante – era Matheus. Naquela manhã, ele passou rapidamente pela casa dela, avisando Dona Iraci que estaria ocupado por alguns dias. — Não se preocupe, dona Iraci. Nada vai chegar até aqui. Eu já garanti isso. Lara, que ouviu a conversa de dentro da sala, sentiu um leve arrepio. Havia algo na voz de Matheus, uma convicção e um cuidado que a confundiam. Ela o olhou rapidamente pela fresta da janela enquanto ele se afastava. O coração dela parecia um tambor acelerado, embora ela tentasse ignorar o motivo. O plano de Matheus começou a ser executado naquela mesma tarde. A facção rival realmente caiu na armadilha, acreditando que Matheus e sua equipe estavam em desvantagem. Eles avançaram com confiança, pensando que iriam invadir o morro facilmente. Mas o que encontraram foi o oposto. Elias, posicionado estrategicamente com seus homens, deixou o inimigo avançar apenas o suficiente antes de iniciar um contra-ataque violento. As ruas do morro se tornaram um verdadeiro campo de batalha, mas tudo acontecia exatamente como Matheus havia planejado. Enquanto isso, o próprio Matheus, com Negrete e outros, liderava um ataque direto ao território rival. Chegar ao centro do comando inimigo foi surpreendentemente mais fácil do que imaginavam. Os rivais estavam despreparados, totalmente focados na invasão ao morro. Em poucas horas, Matheus não apenas derrotou o grupo inimigo, mas também tomou o controle da principal base deles. A notícia da vitória de Matheus correu rapidamente. O morro vibrou em celebração. As pessoas se reuniram nas ruas, batucando, cantando e soltando fogos. Matheus, no entanto, manteve-se calmo e focado. Ele sabia que essa era apenas uma batalha ganha e que os próximos passos seriam cruciais para consolidar seu domínio. Quando ele finalmente chegou de volta ao morro, aclamado por todos, a primeira pessoa que encontrou foi Dona Iraci. — Sua filha tá bem? — perguntou ele, ainda sujo da batalha. — Tá, graças a Deus e a você — ela respondeu, emocionada. — O que seria de nós sem você, Matheus? Ele apenas balançou a cabeça, sem dizer nada, antes de seguir para ver Lara. Lara estava sentada na sala, folheando um livro sem prestar muita atenção. Quando ouviu os passos de Matheus na porta, ergueu os olhos. Ele parecia cansado, mas havia algo nele – talvez o brilho da vitória ou a firmeza em sua postura – que chamou a atenção dela. — Matheus! — ela exclamou, surpresa. Ele entrou, um meio sorriso no rosto. — Só queria saber como você tá. — Eu… estou bem. Pelo menos tentando estar — ela respondeu, sem conseguir esconder um leve rubor ao falar com ele. Por um momento, os dois ficaram em silêncio, até que Matheus falou: — Não precisa ter medo de mais nada, Lara. Ninguém vai encostar um dedo em você enquanto eu estiver aqui. As palavras soaram tão convincentes que Lara sentiu algo mudar dentro de si. Matheus não era perfeito, e o mundo dele estava longe de ser seguro, mas naquele momento, ela percebeu que confiava nele mais do que jamais pensou ser possível. Quando ele se despediu e saiu, Lara ficou olhando para a porta por um longo tempo, tentando entender os novos sentimentos que começavam a florescer dentro dela. Naquela noite, Lara foi para a cama com um turbilhão de emoções que não sabia como organizar. Matheus, com sua presença forte e promessas silenciosas de proteção, ocupava seus pensamentos mais do que ela gostaria de admitir. Mesmo envolvida pelo trauma e o medo recente, sentia algo novo e inesperado: uma sensação de segurança e curiosidade que lutava para entender. No entanto, Lara não conseguia ignorar o fato de que Matheus fazia parte do mesmo universo que Elias, das mesmas ruas e códigos que a assustavam. Como poderia ela se sentir atraída por alguém que vivia em um mundo tão perigoso? E ainda assim, havia algo inegável na maneira como ele olhava para ela, algo que a fazia pensar que talvez, apenas talvez, ele fosse diferente dos outros. Matheus não conseguia dormir. Estava encostado na janela de seu quarto, olhando as luzes tênues das casas e vielas que se espalhavam pelo morro. A vitória sobre a facção rival havia consolidado seu nome como líder incontestável. O morro agora era dele, e todos sabiam que desafiá-lo significaria pagar um preço alto. Mas, ao invés de comemorar, os pensamentos de Matheus estavam em Lara. Ele se lembrava de como ela o olhou naquela tarde, algo vulnerável e ao mesmo tempo forte em sua expressão. Desde o dia em que ela fora encontrada na mata, machucada e quebrada, Matheus sentiu uma raiva e um desejo de proteger que iam além de sua responsabilidade pelo morro. "Ela não merecia passar por nada disso", pensou ele, apertando os punhos. Negrete apareceu na porta, quebrando o silêncio. — Chefe, tá todo mundo falando de você. A festa tá rolando. Não vai aparecer? Matheus balançou a cabeça. — Não agora. Deixa eles comemorarem. Negrete assentiu, mas não conseguiu esconder o sorriso antes de sair. — Só tô dizendo, chefe... o morro é seu agora. Todo mundo tá com você. O sol brilhou sobre o morro, e com ele vieram novas tensões. Enquanto a maior parte das pessoas celebrava a nova liderança de Matheus, havia aqueles que não estavam satisfeitos. Elias observava tudo de longe, seus olhos analisando cada movimento de Matheus. A vitória tinha aumentado ainda mais o respeito pelo jovem líder, mas para Elias, era uma oportunidade de buscar novas alianças — e talvez questionar até onde sua lealdade o levaria. Enquanto isso, Matheus decidiu visitar Lara novamente, dessa vez sem avisar. Ele sabia que ela ainda estava se recuperando e que, de certa forma, sua presença parecia acalmá-la. Quando bateu na porta, foi Dona Iraci quem o recebeu, como sempre preocupada. — Matheus, bom dia! Eu já disse pra Lara que você tá cuidando de tudo. A menina até dormiu um pouco melhor essa noite. — Fico feliz em ouvir isso, dona Iraci. Posso falar com ela? Dona Iraci assentiu e chamou a filha, que apareceu à porta um pouco hesitante, vestida com um moletom folgado que parecia proteger mais do que apenas o corpo. Lara ainda estava abatida, mas seus olhos brilharam de leve ao ver Matheus. — Oi... eu não esperava te ver de novo tão cedo. — Tava passando aqui perto e quis saber como você tá — ele respondeu, casual, mas sua expressão mostrava que ele estava sinceramente interessado. — E aí, tá conseguindo ficar mais tranquila? Lara hesitou. — Um pouco. Mas ainda é difícil, sabe? Parece que todo barulho me assusta. E... eu sei que você disse que vai cuidar de tudo, mas às vezes parece que esse mundo nunca vai me deixar em paz. Matheus inclinou ligeiramente a cabeça, olhando-a com atenção. — Não vou deixar nada acontecer com você, Lara. Pode parecer difícil de acreditar, mas vou cuidar disso, e de quem quer que tenha tentado te fazer m*l. Por mais que Lara quisesse manter uma barreira emocional entre ela e Matheus, a convicção dele mexia com algo dentro dela. Quando ele falava, parecia impossível não acreditar que ele seria capaz de mover montanhas para protegê-la. Depois de mais alguns minutos de conversa, Matheus se levantou, dizendo que precisava ir. — Qualquer coisa, qualquer coisa mesmo, dona Iraci sabe onde me encontrar. Quando ele se afastou, Lara ficou parada na porta, o olhar preso em suas costas. Havia algo nele, uma presença forte que a fazia sentir uma mistura de medo e curiosidade.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD