A noite estava silenciosa, mas carregava aquele peso típico do morro, onde cada ruído tinha o potencial de ser algo perigoso. Elias caminhava pelas vielas com passos lentos, mas firmes, os olhos atentos ao redor, como um predador à espreita. Ele sabia onde encontraria Negrete — sempre no mesmo lugar, perto da entrada de uma casa abandonada onde os meninos do movimento costumavam fumar e jogar conversa fora.
Quando virou a esquina, lá estava ele, apoiado em uma parede de tijolos m*l pintada, com uma expressão despreocupada e um cigarro pendendo nos lábios. Elias sorriu de leve, mas o sorriso não tinha humor.
— Tá tudo bonito agora, né? — disse Elias, quebrando o silêncio de forma provocativa.
Negrete olhou para ele com uma sobrancelha arqueada, já sabendo que vinha coisa dali.
— O que você quer dizer?
Elias deu alguns passos, parando ao lado do rapaz. Acendeu seu próprio cigarro e soprou a fumaça devagar.
— Quero dizer que o Matheus tá reinando, mandando no pedaço. Todo mundo aplaudindo, chamando o nome dele... como se isso fosse durar pra sempre.
Negrete deu de ombros, desconfiado.
— E não vai? O moleque provou que é brabo. Segurou o morro, tomou o rival, e ainda vingou a irmã. Se isso não é liderança, não sei o que é.
Elias riu baixinho, mas o som era mais frio que descontraído.
— Ser brabo é bom, mas não é tudo, Negrete. Tem que ser mais do que isso. Ser esperto. Sabe o que dizem sobre quando você faz barulho demais?
Negrete estreitou os olhos, já desconfiando para onde aquela conversa ia.
— O que é que você tá querendo dizer com isso?
Elias virou o rosto para ele, e no brilho fraco das luzes das vielas, seus olhos pareciam duas facas.
— Que gente de fora não gosta de muito barulho. Chefes maiores, gente que controla o fluxo em outras áreas. Eles não gostam quando alguém começa a chamar atenção demais... como o Matheus tá fazendo agora.
— Você tá me dizendo que vão se meter? — Negrete perguntou, tentando esconder o nervosismo, mas o tom de sua voz denunciava que estava se perguntando se deveria estar preocupado.
Elias soltou uma risada breve, quase cínica.
— Eu tô dizendo que, quando isso acontecer, você precisa saber de que lado vai estar.
A tensão pairou no ar como uma neblina densa. Negrete deu mais uma tragada no cigarro, seus pensamentos correndo rápido. Elias estava claramente tentando plantar alguma dúvida, mexer com sua cabeça, mas Negrete não era burro. Sabia o peso das palavras do outro e o perigo de ir contra Matheus.
— O que você tá tramando, Elias? — ele perguntou direto.
Elias jogou o resto do cigarro no chão e pisou nele com força, inclinando a cabeça.
— Eu? Não tô tramando nada, só pensando no futuro do morro. Não quero que você diga que não te avisei quando a casa começar a cair.
Negrete cruzou os braços, seus olhos fixos no outro.
— Matheus não é burro, Elias. Se alguém vier pra cima, ele resolve. Não precisa de ninguém pulando fora do barco.
— É o que você acha. Mas lembra o que eu tô dizendo, Negrete. Fica esperto.
Com essas palavras, Elias se afastou, deixando Negrete sozinho, perdido em pensamentos. Ele sabia que Elias tinha segundas intenções, mas ainda assim, suas palavras tinham deixado uma marca. Era verdade que Matheus estava no auge, mas o morro era um lugar instável, e a queda de grandes nomes era sempre tão rápida quanto a ascensão deles.
Negrete deu uma última olhada na direção em que Elias desapareceu, antes de apagar o cigarro e seguir em direção oposta.
Enquanto isso, Elias continuava sua caminhada noturna.
Sua expressão permanecia calma, mas em sua mente, os planos já estavam em andamento. Ele sabia que Negrete era apenas uma peça no tabuleiro, um elo mais fraco que talvez pudesse usar no futuro.
"Matheus está se achando intocável", pensou Elias, um sorriso maligno brotando em seus lábios. "Mas ele não conhece as regras do jogo tão bem quanto eu. Vamos ver quanto tempo esse reinado dura."
Naquela noite, enquanto as luzes do morro apagavam-se uma a uma, Elias começava a mover suas peças. A guerra silenciosa estava apenas começando.