A casa de Zé Preto, simples e marcada pelos anos, exalava a essência de um líder que jamais se dobrara aos desafios. Matheus caminhava lentamente, sabendo bem o motivo do chamado. A última noite havia sido conturbada e sangrenta, e a ausência de respostas definitivas sobre o caso de Lara estava deixando tudo ainda mais insustentável no morro.
Quando Matheus entrou, o encontrou sentado na laje. O velho líder estava claramente debilitado. A pele mais pálida, os olhos mais fundos e os movimentos mais lentos entregavam o avanço c***l da doença. Mas o olhar... aquele permanecia o mesmo. Firme, severo, carregando décadas de luta e respeito.
Zé Preto ergueu os olhos na direção de Matheus e ficou em silêncio por alguns segundos, avaliando-o. Para qualquer outro, aquela pausa teria sido desconfortável, mas Matheus já estava acostumado. Ele sabia que Zé Preto estava se preparando para falar com peso.
— O que eu te falei, Matheus? — A voz do velho soou rouca, mas cada palavra era como um golpe, carregada de significado. — O que eu te pedi?
Matheus, visivelmente desconfortável, abaixou a cabeça em um gesto de respeito e culpa. Ele sabia exatamente do que Zé Preto estava falando.
— Pedi que você cuidasse desse morro. Pedi que não deixasse ele virar terra de ninguém, onde inocente sofre e vagabundo se sente no direito de fazer o que quiser! — Zé Preto continuou, sem precisar de respostas.
Matheus se manteve calado, mas seus punhos fechados demonstravam que ele sentia o peso das palavras.
— Como é que pode, Matheus? Essa menina, a Lara... você acha que as coisas vão continuar calmas depois disso? Você acha que os moradores vão confiar em você? — Ele pausou, respirando com dificuldade, mas não parou. — O respeito, Matheus, é o que mantém um homem no comando. É o que mantém esse morro em pé.
— Eu tô resolvendo, Zé Preto — murmurou Matheus, a voz carregada de tensão.
— Resolvendo? — Zé Preto ergueu uma sobrancelha. — Você já deveria ter resolvido! Um líder de verdade, Matheus, não espera as coisas fugirem do controle pra agir. Ele antecipa. E você... você tá aprendendo isso da pior forma.
Matheus levantou os olhos, finalmente, encarando o velho.
— Eu vou dar um fim nisso, Zé. Prometo que não vai passar dessa semana.
Zé Preto balançou a cabeça, mas não com reprovação. Havia, no fundo de seus olhos, uma mistura de decepção e algo próximo de esperança.
— Então que seja assim, Matheus. Não pelos outros, mas por você mesmo. Você vai ter que sujar as mãos, moleque, mas faz direito. Faz com firmeza. Senão, é melhor entregar esse morro pra quem tenha coragem de liderar.
Matheus assentiu, absorvendo o peso das palavras, mas com o espírito inflamado por aquele discurso. Ele sabia que Zé Preto não estava apenas testando sua liderança; estava lembrando-o do motivo pelo qual ele tinha sido escolhido em primeiro lugar.
— Vai. E volta só quando isso estiver resolvido — disse Zé Preto, virando o rosto para o horizonte. Ele tossiu forte, mas fez questão de manter a postura ereta. — O morro tá nas suas mãos, Matheus. Não decepciona.
Com isso, Matheus se virou, saindo pela mesma porta que havia entrado, mas, dessa vez, com a mente fervilhando de planos e o coração pesando com a responsabilidade de um futuro que ele ainda estava aprendendo a carregar.
Matheus saiu da casa de Zé Preto com o coração pesado. As palavras do líder ecoavam em sua mente, cada sentença martelando como uma ordem direta. Ele sabia que não podia falhar. Não se tratava apenas de liderança; era sobre respeito, justiça e proteger aquilo que Zé Preto e ele construíram juntos ao longo dos anos.
Ao descer pelo morro, Matheus sentiu o vento frio cortar sua pele e a tensão se transformar em uma determinação sombria. Ele chamou os moleques mais próximos, jovens que já carregavam o peso de trabalharem para ele no movimento. A expressão em seu rosto não deixava dúvidas de que ele queria ação imediata.
— Chama o TK — ordenou Matheus, com a voz firme e gélida. — Agora. Quero ele na praça principal.
Os moleques se entreolharam, cientes da gravidade na ordem. Não era comum Matheus agir com tanta frieza, mas ninguém ousou questionar.
— Só mais uma coisa — continuou ele, o tom endurecendo ainda mais. — Antes de levar ele, quebra ele no p*u. Não me interessa como. Mas eu quero que ele chegue lá sabendo o que acontece com quem passa dos limites nesse morro.
Os garotos assentiram e partiram em silêncio. Não era só o comando que impressionava; era o olhar de Matheus, carregado de uma raiva silenciosa e imparável.
Quando ficaram sozinhos, Matheus puxou um cigarro do bolso e o acendeu, respirando fundo. O tempo parecia lento, mas ele sabia que não podia errar nesse momento. Essa era uma decisão que definiria seu futuro no comando.
Do outro lado do morro, os moleques do movimento já cercavam TK. Ele estava sentado, como sempre, na entrada de uma viela, rindo alto e contando vantagem sobre algo que ninguém realmente estava ouvindo. Quando viu os garotos se aproximando com a expressão fechada, ele tentou se levantar, mas não teve tempo.
— Cê tá convocado pelo chefe — um deles disse, enquanto o outro já lhe desferia o primeiro golpe com o cabo de uma arma.
— O que é isso? Tá maluco? — TK tentou protestar, mas foi cortado por outro soco no estômago. Ele caiu de joelhos, tentando se proteger, mas eles não pararam.
— Manda perguntar depois pro Matheus, se você ainda tiver coragem.
Após alguns minutos de surra, TK foi amarrado, jogado no porta-malas de um carro e levado até a praça principal do morro. Lá, os moleques já haviam preparado a cena: um amontoado de pneus empilhados no centro, prontos para serem usados como um aviso ao resto do morro.
— Deixa ele aí — ordenou um deles, jogando TK no chão com brutalidade. Ele tentava se levantar, mas o corpo já não obedecia. Os hematomas no rosto e as roupas rasgadas mostravam claramente o que ele tinha acabado de enfrentar.
Matheus chegou minutos depois, com passos firmes e postura de líder. Ele caminhava devagar, seus olhos avaliando cada detalhe. Quando viu TK jogado como lixo no chão, sentiu a fúria crescer ainda mais.
— Então é você. — Matheus parou na frente do homem, seus olhos injetados de raiva.
TK tentou falar, mas só conseguiu soltar um gemido abafado.
— Não precisa dizer nada — Matheus continuou. Ele apontou para os pneus. — Sabe o que acontece com quem pisa fora da linha, né? Cê tá no meu morro. Aqui, eu faço as regras.
Os moradores e os meninos do movimento já começavam a se aglomerar em volta da praça, olhando de longe, sussurrando entre si. Eles sabiam que Matheus era justo, mas essa era uma demonstração de poder que ninguém esperava.
— Levanta ele! — ordenou Matheus, e dois moleques imediatamente puxaram TK pelos braços, forçando-o a ficar de pé.
— O que cê fez vai custar caro. E nem adianta mentir, que já sei de tudo — continuou Matheus, a voz mais baixa, mas ainda mais ameaçadora. — Esse morro não é terra de ninguém, TK. Se eu tô no comando, é pra manter as coisas organizadas. Você... você jogou tudo isso no lixo.
Matheus parou por um instante, seus olhos fixos nos de TK, que m*l conseguia manter o olhar. Ele não precisava dizer mais nada; as ordens haviam sido dadas, e todos sabiam qual seria o destino do homem que ousou cruzar o limite.
Enquanto TK era levado de volta aos pneus, Matheus acendeu outro cigarro, tragando profundamente antes de soltar a fumaça no ar frio da noite. Ele não precisava olhar; o som dos murmúrios e das ordens dos moleques era suficiente para confirmar que sua decisão estava sendo cumprida.
A partir daquele momento, o morro sabia que Matheus era mais que um líder; ele era um juiz implacável, disposto a fazer o que fosse necessário para proteger seu povo — mesmo que significasse queimar algumas pontes pelo caminho.